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Com shows esgotados no Brasil, Milo J leva ancestralidade e frescor ao trap argentino


Por:

Cris Lisbôa

Fotos: João Rocha

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Fazendo questão de dizer que “a cor secundária da Argentina é marrom”, Milo J coloca trap, rap, chacarera, milonga, poesia, funk brasileiro, música originária e folclore argentino na mesma caixa de som. E “sin perder la ternura”. 

Milo J. é Camilo Joaquín Villarruel, nascido em 2006 na província de Morón, Buenos Aires. O apelido surgiu aos 14 anos, nas batalhas de freestyle. E hoje, aos 19, ele representa um dos maiores fenômenos da música urbana e da resistência cultural na América Latina. O artista consolidou sua carreira com os álbuns 166 (2024), La Vida Era Más Corta (2025) e sua aclamada passagem pelo NPR Tiny Desk, neste 2026. Em sua estreia no Brasil, o artista passou pelo Rock in Rio e por São Paulo, como parte do MUCHO! Ciudad Sonora (que, inclusive, precisou abrir data extra, já que os ingressos se esgotaram em poucas horas). 

Foi na Cidade do Rock que o Brasil ouviu pela primeira vez ao vivo o rouco timbre com eco de rua, que ao dizer “palavras duras em voz de veludo”, acorda em toda gente. A vida, a (re) existência, o amor. 

No dia seguinte, já na capital paulista, no palco da Audio, Milo fez o público entender o que o dizia filósofo Roland Barthes: “a linguagem é uma pele, esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras”. Porque, entre telões, desenho de luz e produção de grande escala, Milo fez o que faz: assentou sua voz entre violões, arranjos folclóricos, violino folk ancestral e uma banda capaz de fluir do trap para vientos andinos e bombo leguero. Criando no MUCHO! Ciudad Sonora, uma peña. Pulsando na maior cidade da América Latina. 

Em tempo: na Argentina e na Bolívia, peña é onde quem faz música se reúne com sua comunidade pra cantar y bailar música folclórica, jogar conversa no vento e na alma. As canções escolhidas são do repertório de quem está presente. Ou de quem já voltou a ser o que somos: poeira de estrelas. Fazendo da música celebração e memória compartilhada.

Lembrança latina

O repertório de Milo J exalta as raízes indígenas, afrodescendentes e folclóricas deste nossopueblo sin piernas, pero que camina", como canta Calle 13. Suas letras exaltam a identidade mestiça, urbana e de resistência da juventude latina. 

“Bajo de la Piel”, por exemplo, incorpora cantos de comunidades originárias e o clipe foi gravado em Santiago del Estero, a província mais antiga da Argentina, símbolo de resistência cultural, linguística e folclórica, pois mantém de pé a herança indígena pré-hispânica e o idioma quíchua. 

“Lucía” é uma colaboração com Soledad Pastorutti, cantora que, nos anos 90, revitalizou a música folclórica argentina e, de modo harmonioso, costurando o trap com o folclore tradicional, utilizando violões acústicos e bombos legueros.

Já “Recordé” faz luminosa ponte entre a cultura periférica argentina e as raízes afro-brasileiras, pois começa com versos em português dedicados a Malunguinho, líder do Quilombo do Catucá, em Pernambuco, entidade reverenciada na Jurema Sagrada, tradição religiosa de matriz indígena. 

Canções que, assim como todas, foram berradas por um público que está aprendendo com Milo a usar o presente pra conversar com a memória. E a entender: aqui na América Latina, o tempo voa de outro jeito, e raiz não é o contrário de futuro.

Tanto que o momento do show em que o telão mostra Mercedes Sosa conversando em estúdio, sorrindo com violão na mão, segundos antes de cantar os versos clássicos de “Jangadero", está sendo chamado de "passe de antorcha" (passagem de tocha).

Porque, de modo respeitoso, o rapper Milo J. olha “La negra” em los ojos, vira para o público e une seu timbre com a voz que outrora levou o folclore latino-americano para o mundo. Então, o contraste sonoro se harmoniza e, de uma vez, atravessa quem escuta, fazendo o ontem, o hoje e o amanhã serem uma coisa só. Cujo nome, não por acaso, é “presente”.

E, seja como for , Milo J. já é — e será — o rapper-poeta-cantante que, antes dos 20 anos, lotou shows em sua estreia no Brasil. E propôs a uma geração enxergar além das sombras do passado. Pra voltar a sentir tudo. Mucho más, corazón. Palavra.

Por:

Cris Lisbôa

Fotos: João Rocha

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