crédito_ Nuna Nunes

Rincon Sapiência costura tecnologia, ancestralidade e vivências de um corpo preto em novo álbum


Por:

Giulia Cardoso

Fotos: Nuna Nunes / Divulgação

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Sete anos após causar burburinho com Galanga Livre (2017) e expandir suas fronteiras com Mundo Manicongo: Dramas, Danças e Afroreps (2019), o rapper, produtor e pesquisador paulistano Rincon Sapiência coloca na rua o seu terceiro e aguardado álbum de estúdio. Já disponível nas plataformas de streaming através de seu próprio selo, o MGoma, o projeto Um Corpo Preto mergulha em uma densa pesquisa estética orientada pelo ponto de vista do artista, ao se relacionar com o mundo como um homem preto retinto.


Ao revisitar suas composições recentes, o rapper compreendeu que a real potência e a profundidade de seu novo material não estavam ancoradas em temas genéricos como dinheiro, prazer ou festas, mas sim nas nuances de identidade racial, presença e pertencimento de sua vivência cotidiana. Essa centralidade conceitual guia uma viagem auditiva ao longo de 17 faixas. Em entrevista à Noize [assista ao vídeo], o artista deu mais detalhes sobre como o resgate da própria essência e a autenticidade foram os motores fundamentais para destravar a execução do projeto.

“Com o tempo, a gente vai aprendendo a fazer música. Mas chega um dado momento em que você pensa: 'Tá, eu sei fazer uma rima, fazer um beat da hora. Mas o que é que eu vou falar? Vou costurar o quê?'. Foi pensando na minha essência que consegui desmembrar tudo e resolver toda a bagunça para conseguir executar.”

A costura dos ritmos e a matriz eletrônica

Musicalmente, o novo álbum opera como um manifesto de exaltação à pluralidade da música negra. O repertório funde o rap tradicional ao reggae, dancehall, afrobeats, funk e ao samba — este último dividido entre o samba tradicional e a cadência de escola de samba. 

Para estruturar essa narrativa, Rincon mescla as bases orgânicas e as influências do continente africano que pautaram seus primeiros discos com o uso de sintetizadores e autotune. “Fiz esse disco todo resgatando a minha essência, trazendo a música mais antiga de lá, além de coisas de brasilidade. A partir do segundo disco, fui adicionando mais a tecnologia e, agora, quero mesclar as duas coisas. É um álbum em que se evidencia a pesquisa sobre a obra de artistas que vieram antes da gente e abriram nossos caminhos, sobre o que está aqui e sobre o que ainda virá”, complementa.

Essa costura conceitual se reflete também na escolha de um time intergeracional de convidados que somam vozes e estéticas na obra. O projeto reúne nomes como Dino d'Santiago, Lino Kriz, Funk Buia, Mylena Drague, Péricles, Marissol Mwaba, Torya, F7rança e Bren9ve. Questionado sobre suas canções favoritas, o músico pondera:

 “O álbum tem 17 faixas, olha o crime [risos]. Ficou muita coisa boa de fora, mas três músicas têm um flavor especial para mim: 'Diáspora', que é a abertura do álbum e conta com a participação do Dino d'Santiago; 'Tropa do Manicongo'; e 'Dundum'".

Jogando meu corpo no mundo 

Um dos grandes destaques do projeto está no curta-metragem e faixa “Homem Gol”, gravado na Zona Leste de São Paulo com direção de Juliana Jesus e produção executiva da Monomito Filmes. Com as participações de Péricles e Marissol Mwaba, a obra mobilizou times de várzea, elenco e equipe técnica locais para acompanhar  os sonhos de um jovem periférico. Esse gancho audiovisual amarra com a postura artística de Rincon de equilibrar temas densos, provocações sociais e críticas ao balanço quente e à energia das pistas:

“Se eu acho que preciso falar um negócio mais contundente, não preciso necessariamente pesar o clima e colocar uma harmonia triste. Às vezes a música está quente e nós estamos mandando verso, falando de coisas interessantes, críticas ou provocações. A gente se move nesse pique”, reflete Rincon. Para ele, o corpo preto contemporâneo não está aprisionado a estereótipos de entretenimento, mas faz da celebração uma tática de resistência. 

“São coisas que a gente aprende olhando para o continente africano: você encontra a dança na festa, mas também encontra a dança em um momento pré-guerra ou pós-guerra, em um contexto fúnebre... Nos mais diversos cenários, a dança pode ser usada como uma forma de comunicação. Acho legal as pessoas terem, sim, a mão na consciência, mas isso independe dos momentos dela de descer até o chão”.

Ao assumir o controle total de sua criação artística via MGoma, o artista traz para o rap nacional novos horizontes estéticos, descolando-se das visões tradicionais da indústria tradicional. “Quero me posicionar como um grande artista, compositor e produtor musical, entendido como quem acessa muita pesquisa musical, criatividade e genialidade. Não vamos mais estar em pontos estigmatizados por sermos pessoas de periferia, por trazer questões raciais e sociais. Estou num lugar ainda maior do que esse”, finaliza.

Por:

Giulia Cardoso

Fotos: Nuna Nunes / Divulgação

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