
Era março de 2025. Fui convidado para mais uma audição prévia de disco, como acontece quase semanalmente em São Paulo. Eu já tinha ido a audições em estúdios, cinemas e escritórios de gravadoras, mas desta vez, era diferente. O convite era para uma audição no Museu da Língua Portuguesa, na Estação da Luz, de Arnaldo Antunes e seu Novo Mundo (2025).
Quem já foi ao museu sabe que, ao entrar no elevador, você ouve a voz grave e inconfundível de Arnaldo Antunes enquanto sobe ou desce pelos andares do prédio. O curioso é que, desta vez, tratava-se justamente da audição do novo trabalho de Arnaldo.
Quando cheguei onde precisava, dei de cara com várias telas verticais que mostravam sequências de fotos do Arnaldo. Agrupadas e passando bem rápido nas TVs, elas pareciam vídeos. Os lasers, as posições e movimentos característicos dele e o futurismo presentes ali davam o tom do que viria pela frente.
Já num auditório e acomodado, vi Arnaldo surgir acompanhado de Gui Jesus Toledo, do Selo Risco, responsável pelo lançamento do trabalho. Juntos, eles anunciaram um vídeo que mostrou o processo de produção do disco. Depois disso, com luzes apagadas e um climinha de cinema, foi a vez de ouvir pela primeira vez um álbum inédito do ex-Titãs após a super turnê da banda.
Mas não foi isso que aconteceu. O que aconteceu foi que a tela onde assistimos ao filme se abriu para trás, se levantando, como um portão automático de garagem. A reação dos convidados foi de surpresa. Estavam lá nomes como Pupillo, que produziu o álbum, além de Céu, Sophia Chablau, Curumin, Luiza Lian, Juçara Marçal, Vitor Araújo, Kiko Dinucci e Iara Rennó.
Achando graça, Arnaldo levantou o braço e fez aquele movimento de: “vem!”, convidando todos para entrarem numa sala gigante atrás daquela tela. O local parecia uma quadra de esportes, mas com teto de madeira e vigas aparentes, como numa casa de campo. Estava escuro.
Meio que tateando as arquibancadas dos dois lados, todos sentamos para, enfim, começar a audição. Ao play da primeira faixa, “Novo Mundo”, que dá nome ao disco, projeções surgiram no teto e nas paredes. Foi o início de uma experiência completamente imersiva e, para mim, pelo menos, inesquecível, totalmente diferente de qualquer outra audição a que já tinha ido.
O álbum saiu na semana seguinte e, agora, mais de um ano depois, ganhará um registro audiovisual, com gravação marcada para a próxima sexta-feira, dia 22, no Espaço Unimed, em São Paulo. Estarão na apresentação três das quatro participações do disco: Ana Frango Elétrico, Marisa Monte e Vandal.
Após estrear rodar por algumas cidades do país com a tour, gravando inclusive uma das edições do Tiny Desk Brasil, em formato bem íntimo e acústico, Arnaldo fará agora o maior show desta etapa. E promete novidades no repertório.
O Novo Mundo de Arnaldo Antunes (agora ao vivo)
Por sua carreira nos Titãs, Arnaldo é há muito tempo conhecido pelo grande público — mas não apenas por isso. Cofundador de um dos grupos pop mais populares dos anos 2000, o Tribalistas, ao lado de Carlinhos Brown e Marisa Monte, Arnaldo também tem uma carreira solo marcada por experimentações. E é esse universo de experimentações que ele pretende trabalhar na gravação do projeto audiovisual nesta próxima sexta.
Segundo ele, faixas que ainda não foram apresentadas ao vivo nos shows, desta vez farão parte do setlist, assim como canções de outros discos. “Deu vontade de tocar algumas músicas a mais. Eu quero fazer mais duas com a Marisa, que são parcerias nossas de outra época, assim como Ana e Vandal, que vão cantar mais do que só as músicas que eles participaram no disco”, adiantou ele à Noize.
Arnaldo revela ainda que as faixas antigas estão sendo redesenhadas e trazidas para a sonoridade de seu álbum mais recente, que, além das colaborações já citadas anteriormente, conta ainda com David Byrne, vocalista do Talking Heads.
Questionado sobre qual a maior diferença entre o “velho” e o “novo mundo”, Arnaldo não hesita e relembra uma frase do filósofo italiano Antonio Gramsci: “O velho mundo ainda não acabou. Um novo mundo já está surgindo. Mas nesse lusco-fusco entre uma coisa e outra, surgem os monstros”, referindo-se à “época assustadora de muitas guerras” pela qual estamos passando.
Ele diz que, neste momento, estamos entre conquistas progressistas e forças reacionárias tentando sobreviver. “Tem um velho mundo arraigado que é racista, machista e fascista. Isso tudo assusta, numa época em que também estamos vendo uma crise ambiental sem precedentes. Estamos bem neste embate entre esse velho mundo e um novo querendo nascer”, explica.
Os ingressos para o show no Espaço Unimed, em São Paulo, estão disponíveis aqui com preços a partir de R$127. Em agosto, ele parte para Goiânia, no dia 18/8.
*Felipe Tellis é jornalista e assina mensalmente a coluna "Sintonize" no site da Revista Noize. Ex-apresentador da Rádio Eldorado, ele também idealizou o documentário O Fim da Rádio Eldorado, disponível no YouTube.













