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Zélia Duncan fala sobre IA, maturidade e parceria com Maria Beraldo em “Agudo Grave”


Por:

Damy Coelho

Fotos: Mauro Restiffe, Vinicius Caldeironi/Divulgação

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Zélia Duncan navega bem pelos paradoxos. Isso fica bem claro em seu 21º disco, Agudo Grave, lançado pelo próprio selo Duncan Discos. Para além do título, as 11 faixas abordam temáticas distintas e aparentemente conflitantes: a Inteligência Artificial em confronto com os sentimentos demasiadamente humanos, o amadurecimento da percepção sobre o amor e os questionamentos diante da contemporaneidade.

Com produção de Maria Beraldo e participações dela, de Lenine e Alberto Continentino, o disco flutua entre o jazz, o samba e o pop rock já característico de sua carreira. Por falar em trajetória, Zélia Duncan completa 45 anos de estrada, entre parcerias que vão de Jacques Morelenbaum a Mutantes e Simone, o que comprova sua versatilidade musical.

Mil paradoxos

Foi Maria Beraldo quem percebeu o aspecto paradoxal de Agudo Grave. "Mostrei pra ela seis músicas minhas com a Lucina, e tinha essa no meio, 'Agudo Grave'. Ela disse: 'Zelia, não dá pra você não gravar uma música que começa dizendo sinto agudo e canto grave'. Isso virou um dos motes do álbum", diz ela, em entrevista à Noize. "E esse negócio: o que a gente sente agudo? Dor pode ser aguda, mas a alegria, também."

Esse aspecto aparece em outras letras, como em "E aí, I.A?", uma das mais interessantes do disco. Nela, a artista afirma que "quer uma humanidade radical", em oposição às limitações da tecnologia que, apesar de emular o humano, nunca será de carne e osso.

Ao mesmo tempo, confronta e questiona a inteligência artificial, numa referência drummondiana ao clássico "E agora, José?". Apesar disso, não se deixa intimidar por aspectos que dizem sobre uma nova geração — pelo contrário, ela também os abraça. "Li que a geração Z está consumindo mais vinil. E fiquei super feliz, porque eu sou Zélia, também sou geração Z", brinca ela.

A carioca nos recebeu em sua casa, em São Paulo, para falar sobre as referências e inspirações que costuram esse novo trabalho.

Você convida Maria Beraldo para ser produtora e arranjadora desse disco. Como foi essa escolha, já que vocês vinham de outras parcerias?

Pois é, essas parcerias desaguaram no meu álbum. A gente se conheceu num camarim e foi super bacana — eu já admirava ela, da Quartabê. Já tava de olho nelas, artistas jovens fazendo coisas muito desafiadoras. Depois, ela me convidou para gravar no Colinho (2024) — gravamos"Matagal", uma faixa deslumbrante.

Aí eu a convidei para cantar comigo num show. Mais tarde, atuamos juntas no espetáculo Antonio Carlos Jobim ao vivo em Minas, no SESC 14 Bis — foi mais um teste para a gente, pra ver como seria um trabalho maior juntas. Foi incrível.

Passado um tempo, comecei a ficar com vontade de fazer um álbum novo. Andava sem saber o que ia fazer, com muita música pronta — componho muito, tenho vários parceiros. Pensei: "quem vai me dar esse sabor de aventura vai ser a Maria". Mandei uma mensagem tentando convencê-la. Ela aceitou logo, foi incrível nossa conversa, e começamos a negociar quais músicas, quais músicos.

Eu me entreguei totalmente nessa viagem em que Maria tá pilotando — claro que eu tô junto, ela quis saber o tempo todo como eu me sentia — mas a verdade é que a batuta tá na mão dela.

Sua discografia passa por várias sonoridades, do pop rock radiofônico que muita gente te conheceu, ao folk e esse andamento de jazz. Como funciona seu processo criativo?

Tem uma coisa interessante nesse álbum: ele começa com "Agudo Grave", minha e da Luciana — uma parceira e grande artista, compositora sensacional. É uma música que tenta falar muito pessoalmente de mim, tanto que é a mais antiga do álbum, até teve outro nome antigamente.

Eu vou muito pelo clima que o compositor entrega na música. Agora, o que eu queria era justamente isso: saber o que ia acontecer quando chegasse na Maria. Foi ela que deu esse tom de jazz na faixa "I.A.". E tem uma coisa interessante: a Maria conversou muito com as minhas letras — e eu sou a letrista do álbum, são 10 faixas inéditas e uma de Itamar Assumpção. Senti que ela tava conversando com as letras sem a gente nem ter falado sobre isso.

Geralmente o arranjador e o produtor te apresentam a sua própria música de um jeito novo — "olha, eu vejo essa música assim". A Maria fez isso sem me perder de vista em nenhum momento. As pessoas que me acompanham há muito tempo estão falando isso: "a gente vê você o tempo todo e vê a Maria".

E uma das minhas identidades é correr um pouco de perigo, não saber onde vai dar — é o que mais me interessa. Já fiz um álbum de samba com obra de Itamar, um álbum de voz e cello com Jacques Morelenbaum cantando Milton, cantei com os Mutantes, fiz um DVD com Simone. E tem a minha obra autoral, esse pedaço pop rock que eu adoro e me identifico.

O disco começa com "Agudo Grave", minha e da Luciana — uma parceira e grande artista, compositora sensacional. É uma música que fala muito de mim, tanto que é a mais antiga do álbum. Aí a Maria trouxe o violão de aço e sonoridade folk, que têm muito a ver comigo. As coisas vão sendo escolhidas de acordo com as composições e com os temperamentos musicais, meus e dela.

E essa coisa do jazz na "I.A." tem a ver com isso: o jazz é muito ligado ao improviso, e a letra brinca com isso. Eu gosto de ser humana, e o improviso pra I.A. vai ficar mais difícil. E abrir mão do que é humano em nós, eu acho muito perigoso.

Uma das coisas incríveis do ser humano é justamente lidar com as coisas de uma maneira que não tava prevista. Acho que o jazz combina com tudo isso.

Jornalista adora rotular coisas, né? [risos]. E eu estava pensando enquanto ouvia... se a gente fosse dar um tema para esse disco, talvez fosse uma exaltação do humano, porque fala sobre o amor, a criatividade contra a máquina. Você vê esse sentido também?

Total, que legal você falar isso. Engraçado, eu não costumo fazer disco assim, dizendo "vou falar de tal coisa". Eu funciono na indignação do momento, e trabalho em cima daquilo, em cima do mote que é a vida. Os temas vinham de acordo com a minha necessidade.

O álbum é mais existencial do que romântico — eu faço coisas românticas, adoro fazer, mas esse álbum tem a ver com várias coisas, inclusive com a maturidade. Fiz 61 anos, é uma data redonda, de balanços.

A própria Maria me disse: "Zedê, é um álbum de letras, né?" Eu sempre tento, mas quando ela diz isso, entendo que tem umas camadas a mais, de pensar a vida. Por exemplo, a faixa "Maravilha Disforme", que fiz com o Lenine, fala o tempo todo dessa incompletude da vida: "o desamparo que une, o sonho que não dorme, a rua que não leva, a ferida que não seca, a fome que não cessa". A gente é tão incompleto, e por isso a gente tem amigos, tem a arte, tem o amor, para ajudar a gente nesses buracos todos.

Tem "Olhos de Cimento", com Pedro Luís, que fala um pouco da minha vida em São Paulo — mas em todo lugar a que a gente vai, cheio de fotografias e coisas criadas com inteligência artificial, e o que é mais humano sendo destruído para ser refeito de uma maneira "moderna", tantas vezes duvidosa.

E tem a faixa com o Zeca Baleiro, que se chama "Calmo", que fala desse equilíbrio: "ai, gente, calma, dedicamos a vida inteira a isso, agora deixa eu olhar um pouquinho de outro jeito". Embora o mundo esteja urgente, indo para um lugar que a gente não sabe qual é, dentro de uma música a gente consegue dizer: "hoje o meu amor é calmo". Mas a última frase diz: "é pele da minha língua, onde o teu nome vibra e o beijo se prepara" — quer dizer, tudo bem, eu tô mais calma, mas eu tô na pista, eu tô viva.

Esse é o seu 21º disco. Você lançou em vinil, depois veio a era dos CDs, morreu o CD, veio o streaming, agora estão voltando com CD e vinil. Como é para você ver esse futuro-presente da indústria cultural, estando nela há tanto tempo? Bate uma sensação de nostalgia, ou você acha que a gente tá caminhando para um momento de mais liberdade artística?

Tudo um pouco. Sou uma artista independente já tem um tempo. Sempre me dei liberdades, mas, como todo mundo, você paga o preço pelas suas escolhas.

Eu vinha de quando "Catedral" estourou na novela, minha vida mudou — eu já cantava há 13 anos. Fui uma "rapa do tacho" do glamour de gravadoras. Comecei a cantar com 16 anos, em 81, e meu sonho era gravar um disco — eu dizia "um dia eu vou merecer gravar um disco". Hoje você pode começar a gravar um disco em casa, no computador. Isso muda muito o aspecto todo, o valor do objeto.

A gente tá voltando a valorizar a mídia física. Eu só ouço vinil, praticamente. "Agudo Grave" saiu, a primeira coisa que eu disse foi "quero que saia o vinil junto". Para mim, para a minha geração, o vinil é um objeto de desejo. Procuro fazer discos com capas bonitas mesmo quando não tem vinil, porque ainda acredito que o álbum tá te contando uma história, a capa tá te contando uma história.

Eu tenho um pouco de nostalgia de saber até em qual estúdio o disco foi gravado, aquelas informações da ficha técnica. Eu me ressinto da forma como se ouve música hoje, da perda da qualidade da audição, por exemplo, ou de música precisar te fisgar já na introdução, senão, a pessoa não chega no refrão. Acho isso uma pena. Há muito tempo, decidi não entrar nessa corrida.

Mas outro dia me disseram que a geração Z tá ouvindo mais vinil — fiquei tão feliz, porque sou a "geração Zélia", me senti contemplada pela geração Z também [risos].

A gente continua com os mesmos problemas: marketing, conseguir que a música entre nas escolas, que as pessoas tenham uma escolha mais ampla de repertório. A gente tá numa época que ninguém quer ficar triste — uma música mais lenta parece que te leva pra tristeza. Qual o problema de ficar triste, ou mais introspectivo? Acho que essas coisas que o ser humano perde, a arte perde junto.

Tenho medo do que passa, e agora com a IA mais ainda — que as crianças de hoje, daqui a 20 anos, uma criança de 5 anos hoje, tomara que consiga saber com facilidade que a música que ela ouve foi um dia feita por alguém que sentou diante de um instrumento, sentiu alguma coisa e fez. Senão, eu fico me sentindo melancólica. E ao mesmo tempo adoro os avanços, reconheço o quanto é importante — mas tudo tem um preço, todo remédio tem uma contraindicação.

Por:

Damy Coelho

Fotos: Mauro Restiffe, Vinicius Caldeironi/Divulgação

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