
Surgido nos EUA nos anos 1970, o rap desembarcou no Brasil na década seguinte, sobretudo a partir da estação São Bento, no centro de São Paulo. Desde então, foi ganhando contornos tipicamente brasileiros, desde Thaíde & DJ Hum referenciando “16 Toneladas” (de Noriel Vilela) na faixa “Corpo Fechado” até Racionais MC’s sampleando “Ela Partiu”, de Tim Maia, em “O Homem na Estrada”, por exemplo.
Na virada do século, o Rio de Janeiro foi o local onde o uso de elementos tipicamente brasileiros no hip hop foi levado a outro patamar: Marcelo D2 fez do encontro entre samba e rap o pilar de sua linguagem, seja pelo uso de pandeiro e tamborim nos beats, por samples de Antonio Carlos & Jocafi e Luiz Bonfá ou por citações a João Nogueira e Jovelina Pérola Negra.
“Meu samba é assim / E tá bom pra mim / Dois toca-discos e um tamborim”
— “Meu Samba é Assim”, Marcelo D2
Atualmente, enquanto D2 segue em sua busca pela batida perfeita, outros rappers vêm construindo trabalhos moldados pela música brasileira. Em 2025, Diamantes, Lágrimas e Rostos para Esquecer, de BK’, foi um dos discos de maior repercussão ao resgatar refrões de Djavan, Trio Mocotó e Evinha, que, inclusive, voltou ao circuito nacional de festivais impulsionada pela colaboração com o rapper.
Já Don L, em CARO Vapor II - qual a forma de pagamento? (2025), se nega a utilizar batidas estadunidenses, priorizando ritmos brasileiros ou afro-diaspóricos. Em entrevistas, o rapper cita o disco de estreia de Marcelo D2, Eu Tiro é Onda (1998), como referência para o uso do samba dentro de uma estrutura rítmica estrangeira, mas afirma ter dado um passo além ao abrir mão dessa base exterior.
O diálogo entre hip hop e música brasileira, contudo, não está restrito aos artistas mais conhecidos ou àqueles com maiores recursos para produzir essas fusões. Longe dos holofotes, uma nova geração vem encontrando maneiras próprias de misturar rap, samba, MPB, funk e outras tradições nacionais.
Pensando nisso, a Noize reuniu sete discos de rap que exploram diferentes possibilidades desse encontro e que talvez ainda estejam fora do seu radar — e aproveitamos para bater um papo com eles. Confira a seguir!
Dory de Oliveira — A Volta da Malandra (2025)
A malandra de Dory de Oliveira é alguém que atravessou dificuldades, sobreviveu, amadureceu e retorna consciente de sua própria história. É ao redor dessa figura que gira o disco que mistura rap, samba, funk e trap para falar de pertencimento, ancestralidade, afeto e espiritualidade.
“Eu passei por tudo isso, sobrevivi, amadureci e agora estou voltando sabendo exatamente quem eu sou.”
Além da própria sonoridade, as letras trazem referências diretas ao samba e ao pagode, enquanto a produção incorpora pontos de terreiro, Exus e Pombagiras. Por isso, Dory vê seu trabalho inserido num movimento de reencontro com a música brasileira.
“O diferencial da nossa geração está em não tratar o samba só como referência ou homenagem, mas como matéria-prima”.
A artista continua, explicando seu jeito de fazer arte: “Pegar a linguagem do rap: sua métrica, narrativa, crítica social e estética urbana e misturar com a malemolência, a harmonia e a riqueza rítmica dos gêneros brasileiros. E fazer isso de forma natural, sem a preocupação de caber perfeitamente em uma categoria”.
Janine Mathias — O Rap do Meu Samba (2025)
Para Janine Mathias, o título O Rap do Meu Samba não é uma provocação nem uma tese, mas descreve sua formação. A família paterna carioca e a materna baiana construíram uma escuta doméstica que ia de Gal Costa a Cartola, enquanto, na rua, o rap era o som.
“Eu ouvia rap nas ruas e estava banhada de samba em casa.”
Na construção do álbum, Rodrigo Campos assumiu a direção musical e a curadoria, aproximando o samba tradicional de elementos eletrônicos, com referências que passam por Anelis Assumpção, Elza Soares, Leci Brandão, Cartola, Racionais MC’s e Criolo.
Diante disso, a artista entende que a imagem que melhor resume o projeto é a roda: “Esse disco é roda de rima, roda de samba, batuque e BPM. O partido alto e a batalha de rima. Tava faltando só reconhecer que juntos somos mais fortes”.
Lis MC — T.A.F.A (2026)
Em T.A.F.A, Lis MC parte de um território no qual as fronteiras entre gêneros sempre foram tênues: a periferia.
“As favelas pulsam o samba, funk, rap, rock, entre outros gêneros musicais”, diz a artista, que conheceu Fundo de Quintal, Beth Carvalho, Zeca Pagodinho e outros bambas através de sua avó.
O disco de Liz aproxima o rap de cantigas de capoeira, pontos de macumba, repente e outras sonoridades tipicamente nacionais.
“Quando misturo elementos de samba e cantigas de capoeira às minhas músicas de rap, estou buscando identificação e brasilidade.”
Nesse percurso, Lis cita Marcelo D2 como uma referência importante, mas se vê inserida em uma geração que busca uma sonoridade própria para essa mistura. “Nosso diferencial está em priorizar batidas orgânicas, e que não se prendam a parecer beats de boombap, mas sim soarem como pontos de macumba, jazz, cantigas de capoeira ou marchinhas de carnaval.”
Léo Braga — Inevitável Brasileiro (2026)
Aos 16 anos, Léo Braga começou a procurar as músicas mais antigas que conseguisse encontrar. Foi assim que chegou a Wilson Simonal, Maria Bethânia e Zeca Pagodinho, entre muitos outros nomes que passaram a integrar um repertório eternamente em construção.
Em casa, o pai ouvia moda de viola, a mãe gostava de baile charme e MPB, a irmã escutava pagode e o irmão mais velho acompanhava o Espaço Rap, da 105 FM.
Inevitável Brasileiro é fruto dessa investigação: o álbum atravessa jazz, samba e soul, transformando pesquisa em composição. Na terceira faixa, “Brasil”, por exemplo, cada linha carrega uma menção a um artista ou som que influencia o artista. A literatura também participa desse processo, com referências a Luiz Rufino e Antônio Simas.
“A música nacional tem um tempero que poucos gringos conseguem ter. O uso de samples brasileiros faz parte de uma busca primordial pela nossa própria identidade”.
Para o rapper e poeta, portanto, essa referência a mestres do passado não é uma volta nostálgica, mas um método de criação. “Eu acredito que o hip hop é um movimento eternamente jovem porque ele faz da busca pelo passado algo novo no presente. Pra mim é isso: buscar a sabedoria dos que vieram antes para criar o novo, sem perder o contato com a raiz e o respeito pela cultura em que estamos inseridos.”
Matchola — ZERO BALA (2025)
Matchola quis fazer um rap que dialogasse com o mundo sem deixar de lado o lugar de onde está sendo feito. Em ZERO BALA, essa busca passa pela Bahia, pelo pop e pela MPB.
A relação do artista com a música brasileira passa por Tim Maia e The Fevers, apresentados pelo pai, mas ganha outra dimensão com a vivência soteropolitana e o contato com o pagodão e o axé. Foi a partir desses gêneros que desenvolveu uma paixão pelo groove e pela percussão.
“Esse disco foi minha tentativa de trazer o pop pro rap sem cair no trap tradicional, ao mesmo tempo em que abraço a MPB e converso com o lugar de onde eu venho, a Bahia.”
Ao mesmo tempo, ele enxerga ZERO BALA como um projeto latino-americano, interessado em representar uma região marcada por uma enorme diversidade de ritmos. “Toda música preta se complementa, seja no rap, jazz, samba, pagodão…Tudo vem do mesmo lugar, então por que não unir tudo?”, questiona.
NUNEZ — KARAVANA (2025)
NUNEZ conheceu o samba em outro ambiente muito associado à identidade nacional: o futebol. Na infância, a trilha sonora das viagens com o time no qual jogava era uma roda puxada pelos próprios garotos. Em casa, seus pais ouviam clássicos da MPB, enquanto o rap chegava pela televisão, sobretudo a partir do Acústico MTV de Marcelo D2.
Essa mistura aparece em KARAVANA. O disco nasce do contraste entre a vida na cidade grande e as viagens do artista por outros lugares do Brasil e transita principalmente entre rap, samba e MPB.
“Eu sou meio alquimista, gosto de testar fórmulas. O rap é o elemento principal, mas gosto de trazer outras referências brasileiras no meu som”.
Para além do disco, NUNEZ celebra essas referências na Patifaria Popular, roda gratuita de música brasileira que acontece mensalmente no Butantã, em São Paulo.“Criei a Patifaria com o intuito de valorizar o meu som e as minhas misturas, e acredito que está havendo uma nova onda na música urbana: o rap sendo usado como instrumento de comunicação, aliado ao balanço da MPB e à alegria do samba”.
OGermano — VIRADA DE CHAVE (2026)
A experiência de passar alguns meses em Nova York fez com que OGermano enxergasse de outra maneira a relação entre as duas culturas que o formaram musicalmente.
Criado no Andaraí, na Zona Norte do Rio de Janeiro, o rapper cresceu com o samba e a música brasileira dentro de casa, enquanto o hip hop chegou por meio do irmão, que lhe apresentou nomes como 50 Cent e Dr. Dre.
“Eu costumo dizer que viver é diferente de vivenciar. Eu fui viver o hip hop lá fora, mas o samba é algo que eu vivenciei aqui, desde pequeno.”É dessa conversa entre Andaraí e Nova York que nasce VIRADA DE CHAVE, disco no qual percussão, cuíca, piano e grooves brasileiros convivem com flows, baterias e uma estética ligada ao hip hop estadunidense.
“Na mesma música, posso carregar o samba que veio do meu pai, o hip hop que conheci através do meu irmão, o que vivi em Nova York e a memória de ter crescido no Rio”.



















