
Seis anos separam o Mombojó do seu último álbum de inéditas, Deságua (2026) - vale lembrar que Carne de Caju, de 2024, é uma releitura dedicada a obras de Alceu Valença. E, se formos considerar que Deságua foi criado como trilha sonora para o filme de mesmo nome, podemos dizer que Solar é resultado de um processo criativo livre, em que a banda compôs a revelia de seu próprio tempo e fontes de inspiração. Então, não é exagero dizer que o Mombojó está mesmo de volta.
Dessa vez, os integrantes Felipe S. (vocal, guitarra e teclado), Marcelo Machado (guitarra), Missionário José (baixo), Chiquinho (teclado e sampler)e Vicente Machado (bateria) se reuniram para criar um disco dançante, que equilibra a influência da música pernambucana com camadas eletrônicas ainda mais fortes.
Para essa missão, eles contaram com uma lista generosa de colaboradores, que incluem Letrux e Domenico Lancellotti. A participação de Sofia Freire e Nailson Vieira mostra que estão ligados na nova geração de sua terra natal. No front internacional, a francesa Laetitia Sadier, do Stereolab, assina uma participação — colaboração que ganhou novo fôlego depois do Mombojó abrir sete shows da banda pelo Reino Unido. Vale lembrar que Sadier já se uniu aos recifenses no projeto Modern Cosmology, que rendeu o álbum What Will Grow Now? (2023). Os produtores franceses Hervé Salters (General Elektriks) e Anthony Malka (Le Commandant Couchê-tout) também integram o projeto.
De Recife para o mundo
O processo foi longo e feito em ciclos: gravado entre 2023 e 2026, o álbum passou por várias transformações até chegar à forma final. "Teve muito esse movimento de parar, respirar, absorver novas referências e depois voltar pra mexer quase tudo de novo", conta Felipe. A demora, no entanto, rendeu um disco que soa ao mesmo tempo familiar e novo — com a maturidade de quem tem mais de 70 músicas gravadas na carreira e a curiosidade de quem ainda quer experimentar.
Solar foi produzido por Léo D, parceiro histórico da banda desde o disco de estreia. Já a identidade visual do disco nasceu de uma sessão de fotos às margens do Rio Capibaribe, em Recife. As imagens deram origem à ilustração da capa, assinada por William Paiva.
Conversamos com Felipe, que nos contou um pouco mais sobre o processo criativo deste — com o perdão do trocadilho — retorno solar da banda.
Este disco, além de ser super solar (rs) tem uma pegada eletrônica ainda mais forte, acho que soma muito com a identidade sonora das parcerias, que vão da Laetitia Sadier, da Letrux e do Hervé Salters. Como esses seis anos de "hiato" de um álbum cheio influenciou nessa sonoridade que ouvimos hoje? O que influenciou vocês neste processo?
A gente sempre teve uma afinidade muito grande com uma cena meio synth pop — coisas como Metronomy, Hot Chip, LCD Soundsystem — bandas que conseguem equilibrar o eletrônico com o orgânico, o tocado de verdade. Isso sempre nos interessou muito. Durante esses seis anos, a gente também teve tempo de ouvir muita coisa, testar caminhos e, principalmente, se permitir mudar. O produtor do disco, Léo D, tem uma relação forte com música eletrônica — inclusive com o projeto Máquinas na Pista, que revisita clássicos dos anos 80 — e foi um grande incentivador pra gente explorar mais baterias eletrônicas, timbres sintéticos e texturas diferentes. Isso já aparece logo na primeira faixa do disco. Acho que esse tempo "de hiato" acabou sendo menos uma pausa e mais um laboratório. A gente foi acumulando referências e quando voltou, voltou com vontade de experimentar sem tanta preocupação de se prender ao que já tinha feito antes.
Aproveitando, como se deu mais essa parceria com a Laetitia? E como se diferencia contar com ela como parceira do Mombojó e no Modern Cosmology?
Dessa vez, a gente estava muito mais próximo. Tivemos a oportunidade de abrir sete shows do Stereolab pelo Reino Unido, e isso aproximou bastante a gente da Laetitia Sadier. Ela foi extremamente generosa e sensível no processo. Entrou na música de um jeito muito sutil e elegante, sem querer ocupar espaço demais, mas ao mesmo tempo preenchendo exatamente o que faltava. Foi uma participação muito precisa, dessas que parecem óbvias depois que acontecem. Já o Modern Cosmology foi bem diferente — o primeiro disco foi feito todo à distância, e depois do lançamento a gente nem chegou a fazer shows. Então ainda existe essa sensação de que a ficha não caiu, um sonho que ainda não se realizou completamente ao vivo.
O disco foi gravado entre 2023 e 2025. Ele veio sendo maturado desde o último lançamento de vocês? E por que lançá-lo em 2026?
Foi um processo bem longo. A gente começou a gravar lá por 2023, mas muita coisa mudou no caminho. Das músicas daquela fase inicial, poucas realmente chegaram até o disco. As letras, por exemplo, eu mexi bastante — as vozes mesmo só fui gravar no finalzinho, entre 2025 e 2026. As participações também vieram mais pro fim, por isso os primeiros singles ainda não tinham feats. Teve muito esse movimento de parar, respirar, absorver novas referências e depois voltar pra mexer quase tudo de novo. Foi um disco construído em ciclos. Ao mesmo tempo, ele tem um método bem parecido com os nossos primeiros álbuns: muito ensaio, muito tempo tocando junto antes de gravar. Isso foi essencial pra dar unidade, mesmo com tantas mudanças ao longo do processo.
Ao mesmo tempo, ainda tem muito de Recife neste disco (incluindo uma nova cena da cidade, representada pela Sofia e pelo Nailson). O que vocês estão achando de todos os holofotes voltados a Recife novamente com o sucesso do Oscar e de O Agente Secreto? Qual a relação de vocês com as manifestações artísticas da cidade para além da música?
A gente é muito fruto do Manguebeat. Foi um movimento coletivo que trouxe autoestima pra cidade num momento muito difícil, e que valorizava muito o lugar de onde a gente vinha. No começo da banda, a gente até achava que estava meio distante disso — não tinha percussão tradicional, nem elementos regionais mais explícitos, e tinha muita referência de fora. Mas, na prática, a gente aprendeu a ser banda vendo e convivendo com gente como Mundo Livre S/A, Nação Zumbi, Eddie, Mestre Ambrósio, Devotos e Comadre Fulozinha. Os shows eram muito misturados — no mesmo dia podia ter Lia de Itamaracá e Devotos, e todo mundo assistia tudo. Isso moldou muito a nossa forma de entender música e cultura. Ver Recife de novo em evidência, com cinema, música e outras artes ganhando espaço, é muito bonito. A gente se sente parte de uma continuidade.
Podemos esperar uma tour pelo Brasil com o disco? O que podem adiantar pra gente de novidades das apresentações ao vivo?
Com certeza. Esse é o nosso foco agora: circular o máximo possível. A gente está estruturando essa turnê no mesmo formato enxuto, justamente pra conseguir chegar em mais cidades. Já tem bastante conversa rolando em várias capitais, e a ideia é dedicar os próximos 12 meses a isso. Em 2027, queremos voltar pra Europa — dessa vez levando o disco novo. No show, a gente também quer mexer no repertório. Temos mais de 70 músicas gravadas, e sentimos que dá pra explorar melhor isso. Claro que tem aquelas que o público sempre pede, mas queremos abrir mais espaço pra músicas que a gente tocou pouco ao longo da carreira — trazer lados menos óbvios da discografia e renovar a experiência ao vivo.
Solar faixa a faixa:
"Quero amanhecer" (feat. Le Commandant Couche-Tôt) — Essa música abre o disco e já aponta bem o clima do Solar. Ela chegou muito pronta — tanto melodia quanto letra — e fala desse lugar mais leve do amor, da intimidade, de querer permanecer naquele instante. Tem uma frase que eu gosto muito, "encosta o bucho quente bem em frente a mim", que traz uma imagem muito nossa, bem afetiva e direta. A estrutura tem esse contraste: começa mais eletrônica e depois abre pra uma parte mais psicodélica, onde a bateria entra completa e a música ganha outra dimensão. A participação do Le Commandant Couche-Tôt aconteceu de forma curiosa: Marcelo já acompanhava o trabalho dele, e viu que ele postou um stories no nosso show em Berlin e logo entrou em contato pelas redes — o convite veio quase de imediato e ele gravou os sintetizadores à distância, principalmente nessa parte mais experimental. A faixa já traz bastante dessa mistura do disco: synths, samples, guitarra fuzz bem crua… eletrônico e orgânico convivendo o tempo todo.
"Sob o vento forte" (feat. Laetitia Sadier) — Essa faixa marca mais um encontro com a Laetitia Sadier. A gente se aproximou muito quando abriu shows do Stereolab no Reino Unido, e dessa vez rolou uma conexão mais direta. Ela entrou de um jeito muito elegante — sem excesso, só somando exatamente o que a música pedia. Além dos vocais, ela gravou trombone, instrumento que começou a estudar na pandemia, e isso trouxe uma textura bem especial. A música tem uma força de manifesto: a letra, feita com China, fala dessa relação meio predatória do ser humano com a natureza — e de como, no fim, a natureza sempre se impõe. É simples na estrutura, mas muito intensa na execução.
"Mergulhando no mar" — Essa foi o segundo single e tem uma história interessante porque passou por muitas versões. A gente testou mais de cinco caminhos diferentes de ritmo — já foi reggae, já foi surf music — até chegar nesse lugar mais samba, que acabou fazendo mais sentido. Ela já tinha vindo bem resolvida de composição, que eu fiz com Iran, então o trabalho foi muito de produção mesmo: como tensionar essa simplicidade. Tem uma virada com um som meio videogame que leva a música pra um lugar mais psicodélico, mas sem perder a fluidez. A letra fala desse desejo de mergulhar, de se dissolver, como se o mar fosse um espaço de limpeza e renovação.
"Em cima da areia" (feat. Naílson Vieira) — Essa música nasceu de um lugar bem especial, com uma letra feita junto com minha filha, bem simples, quase infantil — e isso guiou tudo. Ela falou a frase "em cima da areia é o mar" e eu senti que aquilo viraria música. Ela tem uma força espiritual, uma coisa meio de canto coletivo, de cura mesmo. A gente levou pra um caminho de ciranda, que é muito forte em Pernambuco. O Naílson Vieira participa com trombone ao longo de vários momentos da música, e isso ajuda a construir essa atmosfera. Também tem o Quéops, que já é parceiro antigo da banda, trazendo essa voz mais grave. No fim, vira quase uma ciranda coletiva, meio desobsessora — uma música pra cantar junto e limpar o ambiente.
"Abaixo a realidade" (feat. Letrux) — Essa a gente tocou muito antes de gravar, então já chegou bem madura no estúdio. É uma parceria com Anderson Foca, do Festival DoSol, amigo de longa data. Tem esse groove repetitivo, bem hipnótico, com referências que passam por A Certain Ratio e Peter Bjorn and John. A letra brinca com essa contradição: parece um discurso revolucionário, mas fala muito de conforto, de autoengano. A Letrux entrou de forma super natural e trouxe uma interpretação muito forte. E tem o assobio, que nasceu ali na hora, espontâneo, e virou um elemento central.
"É o poder da dança" — Foi o primeiro single e a porta de entrada do disco. Tem uma influência forte de Altın Gün, principalmente nessa conexão com sons psicodélicos que vêm da região da Península Balcânica, essas escalas que dão uma sensação meio ancestral. Ela é bem baseada no groove, num riff repetitivo que vai puxando o corpo. A letra vai pra um lugar mais psicodélico também, pensando a dança como transformação. É uma faixa que abre esse lado mais corporal do disco.
"Em plena sexta-feira" (feat. Lucas Afonso) — Essa foi uma das mais diferentes de fazer. Ela nasceu de pedaços, de ideias que a gente foi juntando até virar uma coisa só. Tem uma brincadeira rítmica com 7 contra 4 que cria uns desencontros interessantes no compasso da música. A gente chamou o Lucas Afonso — que vem muito do rap e também escreve poesia — e colocou ele pra criar em cima de algo bem fora do que ele costuma fazer. E isso trouxe um resultado muito especial. A letra fala dessa dureza do cotidiano e desse alívio que a sexta-feira representa. É uma música mais torta, mais livre, e ao mesmo tempo muito viva.
"Canudo de luz" (feat. Sofia Freire, Domenico Lancellotti & General Elektriks) — Essa música já existia antes, num outro projeto, e a gente sempre quis trazer pro universo do Mombojó. Ela tem uma coisa meio canção romântica com cara de hit, e a gente foi transformando isso na nossa linguagem. O Domenico Lancellotti gravou bateria nessa versão e levou a música pra um lugar mais soul. Tem também o Hervé Salters, do General Elektriks, trazendo os synths, e a Sofia Freire com várias camadas de voz que ampliaram muito a música. A guitarra puxa pra uma referência meio Tim Maia, com fuzz e phaser, numa vibe soul psicodélica. É uma música que sintetiza bem o espírito do disco: colaboração e transformação.














