Por Betina Dalla Rosa - edição Eduardo Chagas - 2

Ouça com exclusividade o novo disco de Amanda Cadore, “viva”


Por:

Revista NOIZE

Fotos: Divulgação/Betina Dalla Rosa, Eduardo Chagas

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Amanda Cadore construiu sua relação com a música desde a infância no interior gaúcho, tendo o violão como companhia e a principal forma de expressão. Ainda assim, precisou crescer para entender que a música seria seu caminho: chegou a passar pela igreja e pela faculdade de Publicidade.

Sua trajetória profissional na música começa em 2018, quando lança o primeiro disco, Inverso Só Se For Azul, e participa do The Voice Brasil, experiência que ampliou sua visibilidade. Depois, veio o EP Arrebentação (2021), contemplado com o Prêmio Elisabete Anderle, principal incentivo cultural de Santa Catarina.

Agora temos Viva, o novo álbum produzido por Jojô Inácio, que chega nesta sexta (29/5) [ouça com exclusividade abaixo], mostrando uma música ainda mais amadurecida. O álbum tem muito de suingue, de verão, transmitindo a mensagem que o próprio título prega. A voz suave da cantora parece groovear os acordes do violão, inspirada pelo tocar sofisticado e ao mesmo tempo pop de Lenine e Jorge Drexler. A musicalidade da artista, neste álbum, se mostra com as fronteiras borradas, transitando pela chula gaúcha, pela Cordilheira dos Andes, por Cabo Verde.

O processo de concepção do álbum não foi linear por natureza: as canções foram tomando forma a partir dos encontros e das possibilidades que surgiam no caminho. Já as letras abordam paixões, a metalinguagem do processo criativo e o poder feminino, como você vê no faixa a faixa abaixo.

 “Penso em viva como verbo, no sentido de continuar, seguir e atravessar. No entanto, essa palavra também pode ser lida como um estado de sentir, perceber, existir com profundidade”

Quando chegou a hora de levar tudo para o estúdio, Cadore já sabia com quem queria dividir esse espaço: a banda reúne o musicista cabo-verdiano Jeff Nefferkturu, o cantor e compositor baiano Grego Jardim e o percussionista gaúcho UBrother. Por fim, decidiram gravar as bases ao vivo, passando por Garopaba, Florianópolis, Porto Alegre e Rio de Janeiro.

Por Betina Dalla Rosa - edição Eduardo Chagas - 3

Ouça aqui o novo disco e aproveite para imergir no universo de viva faixa a faixa, escrito pela própria Amanda Cadore:

"viva": foi a primeira música que escrevi em 2026, ela entrou nos 48 do segundo tempo, abre e dá nome ao disco. Acho que como principal inspiração, direta ou indiretamente, estão os primeiros 20 dias do ano, vividos peregrinando entre os festivais irmãos La Serena (Uruguai), De Camiño (Porto Alegre) e Akará (Praia do Rosa). Nessa "movida" com outros cantautores da América Latina, tive uma injeção de ânimo muito forte em relação à música e como ela conecta os afetos. Por isso, no refrão, fui um pouco além da ideia de "ponto de partida", para "ponte", referenciando as conexões genuínas que fazem o coração bater de verdade, soando como um tambor, em efeito viva voz. Eu já tinha a letra, harmonia e melodia, então, provoquei o Grego (que gravou violão e baixo nesse tema) para que trouxéssemos para a música uma sonoridade que fizesse referência à chula, uma característica de violão que aborda a percussão ferida, técnica disseminada por Roberto Mendes e muito presente na região de Santo Amaro, no recôncavo baiano. Queria um groove "surfado em um lá menor", para que a dinâmica rítmica estivesse na letra, já que os versos foram escritos na forma da décima espinela, uma estrutura poética muito usada na poesia e música ibero-americana, no folclore e também em canções tradicionais gaúchas.

"sábado": uma das minhas músicas favoritas. É um desafio rítmico. Nosso ouvido está acostumado a divisões binárias ou ternárias, porém, esse tema está em 7/8 e, por isso, a proposta foi trabalhar essa sonoridade como uma onda que se move de forma fluida, sem parecer quebrada. Com riffs fazendo referência ao neo soul, fiz a letra simples depois do arranjo, com a ideia de propor a sensação de um momento relaxado, um "sábado", o sétimo dia. Visualmente falando, essa música é um dia de descanso e afeto em Garopaba.

"sem filtro": Confesso que essa música era para ser o momento "voz e violão" do disco. É, inclusive, sobre o que ela fala. Eu tenho uma relação maravilhosa com esse instrumento que me trouxe tantas felicidades. Ele e eu, desnudos. Foi na sessão de gravação do Rio de Janeiro que a toquei, numa noite despretensiosa na pousada. Jojô e os meninos ouviram e todos concordaram em fazer um "recálculo de rota", tirando o próximo dia inteiro para arranjá-la juntos e propor um convite ao lendário Dirceu Leite, a fim de que gravasse flautas. No outro dia, esse grande nome da música brasileira chegou ao estúdio e fez algo que eu considero mágico: entregou para a música e para nós algo que nem sabíamos que precisávamos. "sem filtro" virou aquele registro de um momento muito especial que aconteceu com quem estava no lugar e hora certa.

"00:00" part. Mari Jasca: Lembro, nitidamente, do dia em que eu conheci a Mari, durante o Carnaval de 2025 na Gargolândia. Ouvi ela cantar e me apaixonei. Desde então, pude visualizar uma pessoa e uma artista que sabia que ia ser minha referência para muitas coisas. Mari flerta com um universo que eu também tenho muita afinidade, em que coexistem a música brasileira e o folclore argentino. Eu sabia que ela participaria do disco, antes mesmo de saber como isso se daria. "Brifei" o Jeff (que arranjou, gravou os violões e o baixo, além de participar da composição) para fazermos um bolero safado, uns dias antes de ir pro Rio de Janeiro gravar. Eu já sabia que mostraria pra Mari. Jeff é cabo-verdiano, então buscamos referências na própria morna, que é um gênero musical desse país africano e cujos elementos característicos lembram o chorinho. Levei uma gravação da harmonia A+B pro estúdio e, em um dia, na pousada, escrevi toda a letra. A meia-noite é o momento congelado, quando acontece uma troca quente de olhares, quando os portais se abrem. A partir dessa ideia, encontrei a safadeza necessária para tocar um bolero.

"biombos": "biombos" é uma das músicas que mais caracteriza a formação desse projeto. Sempre flertamos com ritmos e as pesquisas de cada músico individualmente, e jogamos isso tudo dentro de uma grande panela de pressão. Eu tinha toda a música pronta, com essa letra que chama pra ver as coisas por uma outra perspectiva, sair da bolha, numa onda meio caverna de Platão. Inclusive, é possível perceber que os sintetizadores, por exemplo, começam a aparecer num momento sensorial de encontro à luz. O ritmo desse tema é uma mazurca, de origem polonesa (como eu também sou), mas que se enraizou em Cabo Verde. Aqui, misturamos muita coisa… foram usadas diversas camadas de tambores e claves para compor a linha de percussão, que depois se repete nas faixas "sinestésica", "instantes raros", e "passeio", tudo muito característico do Ubrother, percussionista da banda. E o violão do refrão, por mais que não seja protagonista nesse arranjo, faz referência à chacarera, ritmo tradicional do folclore argentino e também disseminado no Rio Grande do Sul.

"instantes raros": Agora que passou, acho que "instantes raros" é um reflexo da crise dos 30. Correria, confusão, indecisão, rituais do dia a dia… Vai ser possível perceber que a música não repete nenhuma parte, é uma grande linha de tempo, e essa correria a gente trouxe pro arranjo, a percussão, o violão, o baixo, tudo muito intenso. Acho que o lance dela é o flerte da ansiedade e com as coisas que realmente importam, sabe? Outra coisa é que começo a música dizendo que "encontrei na ilha um talismã". Considero isso também uma forma de agradecimento a esse grupo que eu encontrei na Ilha da Magia (Florianópolis) a fim de tocar minhas músicas e, consequentemente, gravar esse disco. A partir daí, a letra percorre um caminho de escolhas e reflexões sobre preciosidades que a gente quer guardar para se construir e outras que está tudo bem em descartar. Tudo isso se desdobra com atenção especial ao momento presente e uma atenta observação do mundo.

"sinestésica": Quantas músicas já foram escritas para a Lua? "Luas" que tem nome, cheiro, jeito, influência, beleza, jeito… O que há de mais sinestésico do que isso? "sinestésica" é a música que celebra a vaidade, o corpo e sensibilidade feminina, entregues aos sentidos e ao mistério, conectando-se à Lua com sensualidade e à natureza com liberdade. É um convite para que nos sintamos todas livres, completas e brilhantes como a lua cheia.

"cidade pequena": "cidade pequena" foi a última música a entrar no disco, a última sessão de gravação, somente eu e o violão. É uma carta de despedida a uma pessoa muito amada, que faleceu enquanto eu terminava o LP. A letra é inspirada em uma conversa que tivemos sobre a forma com que aprendemos a amar desde o lugar onde ambas crescemos, uma cidade pequena do interior do Rio Grande do Sul. Comecei e terminei a música com um acorde que gosto de chamar de "acorde infinito".

"passeio": "passeio" é uma composição inspirada em Garopaba e em uma caminhada até o canto Sul da Praia do Silveira. Durante os 4 anos que vivi ali, conheci músicos locais e também recebi vários outros em minha casa para confraternizar com música e guitarreadas. Em um desses movimentos, tive um projeto de composição com o compositor e músico Tiago Bra. Nessa temporada, muitas músicas surgiram em parceria, uma delas foi "passeio". Adoro essa faixa, é minha favorita para interpretar ao vivo… a levada da música é propositalmente ligada ao arpejo, à letra e ao movimento rítmico que a música propõe, como esse passeio pelas praias de Garopaba. Um easter egg da letra é que, no refrão, há dois personagens: a "Madre", em referência ao Rio da Madre, da Guarda do Embaú, e o "Poeta", o Rio do Poeta, que fica na Praia do Siriú. Os dois não se cruzam, mas em algum momento se encontram no mar.

"apunada en el mar" part. Mariana Baraj: Curioso que, na data em que escrevo para a Noize, ouvi o novo álbum da Julieta Venegas, Norteña. Vejo como é bonita a sincronicidade das coisas. Mariana Baraj participa tocando bombo leguero e cantando no Acústico MTV de Julieta, lançado em 2008. Quando ouvi esse novo disco, encontrei algo do nosso tema "apunada en el mar", especificamente na faixa "Esquina del Mar". Compusemos esta canção Baraj e eu em Garopaba, mas considero que seu nascimento se deu em Jujuy, na região Noroeste da Argentina. Foi onde nos conhecemos. Trata-se de uma música que incorpora elementos do folclore argentino, inspirada nas claves da zamba e da vidala, com percussões gravadas por Mariana usando seu set de bombo leguero, instrumento emblemático da tradição. Convidei um grande amigo, também de Jujuy, o grande charanguista Elio Gutierrez, para gravar um ronroco e o violão. E para contextualizar a letra, o movimento de apunarse remete aos efeitos físicos da altitude, muito comum na região da Cordilheira dos Andes, de modo que em "apunada en el mar" ousamos criar uma contraposição simbólica ao nosso encontro. Depois que nos conhecemos, Mariana e eu nos reencontramos dois anos depois em Garopaba, e aí sim nos aproximamos. Tocamos algumas vezes juntas e compusemos, criando essa metáfora sobre os atravessamentos e inversões que trazem os movimentos da vida. Quisemos trazer um sentimento de intensidade emocional e sensorial que pode nos atravessar, independentemente do lugar em que se está, convidando para também deixar fluir. "Y que se muevan las aguas"…

"entreabrir": Tanto nessa música como em "instantes raros", "sinestésica" e "biombos", foram exploradas inúmeras camadas de percussão, muitas vezes oriundos de materiais reciclados que se transformaram em instrumentos (característica da pesquisa do UBrother). Usamos teclado de computadores antigos, sapatos, mangueiras, shakers naturais e outros elementos que o percussionista "extrai e coleta sons". Mesmo tendo o beat como uma surpresa, destaco que o set de percussão dessa faixa não é convencional, reverberando em todo o disco. Estão ali o cajón, os pratos, os "brinquedos", pedais de efeitos e ideias percussivas nada usuais. A linguagem do percussionista acaba tendo protagonismo em muito do que foi proposto como identidade desse disco, por toda a complexidade de sua influência rítmica e principalmente pela assinatura de sua linguagem.

Então, o disco todo dá muito protagonismo à percussão, ao violão e às letras. Nessa música, especificamente, acho que acabo revelando que sou grande entusiasta de Jorge Drexler e Lenine. Finalizo o álbum com uma criação mais pop, com uma pegada de canção contemporânea, convidando a quem escuta para que entre no meu próprio universo individual, enfrentando os mares do interior a fim de permitir relacionamentos e sentimentos com entrega e profundidade emocional.

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