
A primeira década dos anos 2000 foi o último suspiro do rock no mainstream. Se no país o emo tomava conta das rádios, no hemisfério norte, o indie rock era a coisa mais quente do momento. Grupos como The Strokes, Arctic Monkeys, Yeah Yeah Yeahs, The Gossip, Interpol e LCD Soundsystem ganharam espaço no coração da juventude. A cena daquela época é o pano de fundo do romance Lado B, escrito pela autora canadense Holly Brickley e traduzido por Marcela Isensee na edição da Rocco, publicada no fim do ano passado.
A princípio, a ideia do livro era unir o repertório musical do Alta Fidelidade (1995), do inglês Nick Hornby, com a relação conturbada do casal de Pessoas Normais (2018), da irlandesa Sally Rooney. “A combinação de jornalismo musical e ficção me parecia interessante e fresca", conta a escritora. Após completar o mestrado em escrita criativa na Columbia, em Nova York, ela tentou escrever um livro dedicado às músicas de Elvis Costello, projeto que não decolou, mas deu o empurrão para o nascimento do primeiro livro.
Com tradução para 15 idiomas, Lado B terá adaptação pela produtora A24 com nomes em ascensão no cinema: Drew Starkey, que contracenou com Daniel Craig em Queer (2024), de Luca Guadagnino, e Cailee Spaeny, musa de Sofia Coppola, em Priscilla (2023). A música do filme será de Blake Mills, que soma centenas de créditos com a nata da música americana, além de assinar as composições da série Daisy Jones & The Six (2023).
A protagonista do romance, Percy Marks escreve em zines e compõe músicas com o amigo e crush Joe Morrow, que no decorrer do tempo, se torna bem-sucedido. “Tenho muito em comum com Percy, ela tem as coisas que eu mais odeio em mim mesma, como a inveja de músicos e a natureza perfeccionista", conta Holly Brickley.
Ainda que explore partes de si na construção da personagem, não é um livro autobiográfico. “Por que, aos 40 anos, ainda sinto que trocaria os meus talentos pela habilidade de cantar e compor uma música? É meio bobo, mas ainda sinto isso", divide a escritora. Com o sucesso do livro, ela conta que aprendeu a valorizar as próprias conquistas.
A atenção do público também se voltou para a sua vida familiar, pois os leitores passaram a procurar na internet quem era o seu marido, que também é músico, mas se havia maiores afinidades com Joe Morrow. Qual é o apelo do estereótipo do músico indie? “Outra questão que tentei explorar no livro porque tenho a tendência de me atrair pelo rapaz com a guitarra. Mas achei um adorável e nos casamos", diz a autora.
Em uma relação de idas e vindas, os protagonistas da história não conseguem ficar juntos, mas sempre dão um jeito de retornar às vidas um do outro. “Cresci com o grunge e depois com as boybands, então não conseguia me conectar com eles. Já o músico do indie rock é mais sensível, porém ainda mantém um mistério que o torna sexy.”
Outro lado explorado na história é a presença feminina no meio musical. No livro, a narradora não se vê nem como compositora ou como jornalista musical, ela vai tateando as possibilidades, enquanto escreve artigos sobre Neutral Milk Hotel, No Doubt e Joni Mitchell: “Quando era adolescente, existiam artistas, claro – fui super fã da Tori Amos no Ensino Médio –, mas não via críticas musicais. Mais tarde comecei a ler Jessica Hopper e Amanda Petrusch. Acho que é por isso que Percy não se vê como artista ou jornalista musical: porque cresci com pouca representatividade feminina nessas posições".
Inclusive, para adicionar o caráter realista à obra, ela aprendeu a tocar piano para construir melodias das músicas que estão no livro, mas não tem a intenção de se tornar uma profissional no assunto. Rodeada de músicos, cresceu acompanhando o pai em estúdios e guarda com carinho as memórias de escutar os discos de Steely Dan na estrada.
“Tenho uma compreensão musical bastante básica, a visão de uma observadora externa, que é basicamente a visão de Percy durante a maior parte do livro; ela é uma pessoa de fora da indústria", aponta a autora. Hoje em dia, Holly não tem mais a paixão por descobertas musicais, mas escuta a coleção de discos de Elvis Costello e Bill Fay com os dois filhos. Entre as novidades, foi convencida a dar uma chance ao primeiro disco do Geese, Getting Killed (2025) e não se arrependeu.
Para ela, a digitalização das relações sociais e a forma de consumir música são excessivas. Não à toa, ambientar Lado B na virada do milênio foi uma estratégia para evitar smartphones, plataformas de streaming e redes sociais: “Eu sei como foi ser jovem nos anos 2000. Percebi que era o cenário perfeito para uma história sobre pertencimento, conexão e identidade, em parte por causa da tecnologia da época. Considero o iPod o auge – a gente deveria ter parado por aí, quando você podia colocar mil músicas em um dispositivo, mas seu chefe não podia te enviar e-mails por ele".
Há as coisas boas e ruins daquele tempo. Em uma das cenas, Percy sofre um abuso sexual em um show, algo que a autora acharia pouco crível se a história fosse contemporânea. “A tecnologia ficava em casa, então as pessoas eram mais irresponsáveis. Não sei se essa cena ocorreria porque os celulares nos tornam mais vigilantes, entre outros efeitos negativos à nossa saúde mental. Eram tempos diferentes", reflete Holly.
Com o lançamento do segundo livro engatilhado, ela deve deixar os anos 2000 e o mundo da música de lado para contar uma história de amor com pinceladas de humor da série Fleabag (2016), de Phoebe Waller Bridge, e do livro The Wedding People, de Alison Espach. “Tem um pouco de música, porque não consigo evitar".














