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Backrooms: Como a lenda da internet inspirou um subgênero musical


Por:

Giulia Cardoso

Fotos: Reprodução

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O anúncio de que a produtora independente A24 iria adaptar o fenômeno da internet Backrooms para os cinemas sob a direção de Kane Parsons causou desconfiança nas comunidades digitais. Mas, com o sucesso de bilheteria ao redor do mundo e ao ser consolidado como o longa-metragem mais assistido da história da A24, o terror está prestes a retornar com força total.

Agora, o projeto ganha um novo fôlego com o anúncio de que Backrooms: Um Não-Lugar ganhará uma versão estendida, que chega aos aos cinemas brasileiros em julho — serão 15 minutos adicionais de conteúdo inédito.

Dirigido por Kane Parsons — que, com apenas 20 anos, se tornou o diretor mais jovem a estrear um filme no topo das bilheterias mundiais —, o projeto é estrelado por Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Mark Duplass, Finn Bennett e Lukita Maxwell. A produção, que superou Marty Supreme (2025) e registrou a maior abertura da história da A24, consagrou-se também como a maior estreia de um terror original da história do cinema.

No entanto, à medida que o projeto ganha as telas, um debate paralelo retornou às contas dos fóruns de música: uma paisagem sonora inteiramente dedicada ao universo onírico e misterioso dos backrooms.

Dreamcore Ambient

Além do terror visual de corredores infinitos e paredes amarelas, os fãs passaram anos arquitetando o que hoje é oficialmente conhecido como Liminal Space Music (Música de Espaços Liminais) ou Dreamcore Ambient, inspirado diretamente nos backrooms.

O estopim para a discussão mercadológica veio com o primeiro trailer oficial do filme, que resgatou a faixa "Six Forty Seven", do produtor Instupendo. Lançada originalmente na década passada, a canção arrastada, melancólica e de texturas nebulosas tornou-se, de forma orgânica, o hino não oficial das compilações de espaços liminares no YouTube e no Tik Tok. A escolha da A24 não foi apenas um aceno à comunidade, mas a validação de que as Backrooms geraram uma identidade sonora própria.

A anatomia do som liminal

A música nascida sob o teto das Backrooms tem como principal objetivo emular a sensação desconfortável de se estar preso em uma realidade paralela vazia. É um sistema construído sobre um paradoxo: ao mesmo tempo em que as faixas trazem uma sensação de acolhimento e noites quentes, elas carregam o peso de um frio escuro e de uma angústia existencial profunda. 

Para atingir esse pessimismo nostálgico, os produtores do gênero se apoiam em uma cartilha técnica: essa identidade sonora começa a se desenhar pelo uso de sintetizadores retrô e etéreos, cujos loops e timbres remetem à estética tecnológica dos anos 80 e 90, evocando memórias degradadas pela passagem do tempo. 

Soma-se a isso uma influência pesada da desaceleração e da herança do Mallsoft e do Vaporwave, vertentes que capturam músicas comerciais antigas ou anúncios de rádio de antigamente para submetê-los a reverberações imensas, simulando perfeitamente o som distorcido de caixas de som ecoando por shoppings vazios ou hotéis abandonados. 

Por fim, os ruídos atuam como base fundamental de toda a estrutura, fazendo com que o som estático, o famoso zumbido contínuo e irritante das lâmpadas fluorescentes e o barulho de passos sobre carpetes úmidos deixem de ser meros barulhos de fundo e passem a funcionar como a própria engrenagem harmônica e rítmica das composições.

Essa curadoria coletiva acabou aglutinando trabalhos de artistas de nichos distintos sob a mesma bandeira. Das melodias densas e pós-punk eletrônicas do Crystal Castles às lendas da IDM e do ambient como Boards of Canada, passando pelo minimalismo melancólico de TEMPOREX, Xori e o projeto The Caretaker (mestre em traduzir a perda de memória em música), todos encontraram um lar comum nos labirintos da internet.

Invasão ao mainstream e autoralidade

Embora tenha nascido no underground das creepypastas, o impacto dessa assinatura minimalista e desorientadora escalou até o topo da indústria pop internacional. O maior exemplo prático desse crossover está em "BACKR00MS", colaboração de Playboi Carti com Travis Scott. A faixa adota uma produção abafada, claustrofóbica e nebulosa, utilizando as pausas e o vazio sonoro para emular o clima opressor e ansioso da tendência digital.

Além das escolhas da comunidade, o próprio pioneiro Kane Parsons desempenhou um papel central na pavimentação desse subgênero. Ao desenvolver seus curtas originais para o YouTube, o diretor assinou a composição de grande parte das trilhas sonoras oficiais. Agora, é saber quais serão seus próximos passos (no cinema e na música).

Por:

Giulia Cardoso

Fotos: Reprodução

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