
Quando pensamos na trilha sonora que embala a concentração dos jogadores da Seleção Brasileira antes de entrar em campo, a mente vai automaticamente para o ecossistema do pagode, do funk e do trap nacional, pela relação que alguns atletas estabeleceram e estabelecem com artistas desses estilos. No entanto, uma campanha publicitária lançada na semana passada nas redes de Vini Jr. subverteu o roteiro, imaginando as músicas pop que o craque ouviria [veja aqui]. Mas acalmem os corações: há um grande truque de marketing por trás disso.
Tudo começou com o vídeo da nova campanha da Apple, estrelado pelo camisa 7 do Real Madrid. Nas imagens, Vini aparece dançando animado com seus AirPods nos fones enquanto escutamos apenas o som ambiente do local. No final, o comercial entrega a mensagem principal: o isolamento e o cancelamento de som do aparelho são bons demais. A partir dessa provocação visual, veio a pergunta que engajou as redes: afinal, "o que está tocando nos AirPods de Vini Jr."?
Para responder a isso, a Apple Music criou uma playlist oficial com o mesmo título. E foi aí que a surpresa se espalhou. Nesta semana, a plataforma postou novas versões do vídeo promocional sobrepondo faixas da lista às imagens do craque dançando. No entanto, a playlist não reflete necessariamente o gosto pessoal do atleta.
Trata-se de um exercício lúdico dos editores da Apple Music, pautado em suposições, adivinhações e provocações sobre o que combinaria com a energia e o status do jogador. Mais do que isso, a seleção funciona como uma jogada precisa de engajamento da marca: ao apostar no fator do imprevisível, a plataforma fisga o algoritmo ao incluir artistas globais que arrastam legiões de fãs altamente ativos nas redes sociais, garantindo que a campanha reverberasse muito além da bolha do futebol.
O resultado desse experimento criativo gerou uma lista de escolhas que provam que, na cabeça dos editores da Apple, o craque se prepara para buscar o hexa ao som de batidas eletrônicas de vanguarda, K-Pop e até jazz melancólico:
O dueto altamente eletrônico e sensual da estrela norte-americana com a cantora underground sueca COBRAH virou assunto imediato. A brincadeira escalou tanto que a própria Demi Lovato comentou publicamente a campanha ao postar: "Ei, Vini, acho que podemos concordar que você está ouvindo Fantasy". O jogador não deixou passar e respondeu com um bem-humorado e enigmático "talvezzzz".
Se os editores imaginaram o craque fazendo o aquecimento no vestiário focado em coreografias ensaiadas de K-Pop, a internet comprou a ideia. A presença do grupo global KATSEYE com as texturas chiclete de "Pinky Up" e o remix assinado pelo DJ alemão Marlon Hoffstadt para "Lemonade", do fenômeno sul-coreano aespa, mostra o quanto o universo dos idols serve de combustível para essa narrativa internacional da marca.
3. Laufey
Provavelmente a suposição mais contrastante de toda a lista. A cantora, compositora e multi-instrumentista islandesa Laufey é conhecida por suas baladas acústicas profundas, que trazem o jazz e o pop tradicional de volta aos holofotes da Geração Z. Imaginar o atacante mais visceral e elétrico do planeta concentrando a mente com o intimismo melancólico e suave de Laufey é a definição pura de quebra de expectativa.
Se o jazz de Laufey parecia o ápice do desvio de rota, os editores da Apple Music elevaram o nível ao inserir o lendário compositor Hans Zimmer na curadoria. Imaginar Vini Jr. buscando o foco absoluto antes de uma final de Copa do Mundo ao som das crescentes dramáticas, metais épicos e arranjos orquestrais densos dignos de A Origem, Interestelar ou Gladiador transforma o vestiário num verdadeiro set de cinema de Hollywood. Uma escolha monumental (e cinematográfica) para as suposições da plataforma.
5. PinkPantheress
A cantora britânica de bedroom pop e drum and bass alternativo é outra grata e sofisticada surpresa nos fones imaginários de Vini Jr. Suas faixas curtas, marcadas por samples nostálgicos e vocais sussurrados, trazem uma atmosfera urbana londrina que contrasta fortemente com o clima frenético das arquibancadas da Copa.
6. "Pop" – Harry Styles
O ex-One Direction não poderia ficar de fora de um exercício com espírito de popstar global. A faixa de Styles injeta linhas de baixo dançantes e a energia das pistas dos grandes estádios no repertório fictício de aquecimento de Vini, garantindo o balanço pop que a marca quis imprimir no projeto.
A colaboração internacional de Bebe Rexha é mais um hit pop eletrônico milimetricamente produzido que foge por completo do estereótipo regional brasileiro. Com batida rápida e ganchos feitos para o TikTok, a música reforça a imagem cosmopolita de um atleta cujos hábitos sonoros hipotéticos teriam sido moldados por sua vivência de anos na Europa.
8. "Does Your Father Know You Dance Like That?" – Steve Aoki & Sebastian Maniscalco
Esqueça a batida do tamborzão carioca. Quando o assunto é música de pista agitada, a curadoria da Apple buscou o EDM pesado de Steve Aoki em uma improvável parceria com o comediante de stand-up norte-americano Sebastian Maniscalco. É o tipo de som industrial e cômico ao mesmo tempo, feito para brincar com os graves potentes dos AirPods.
Fechando a ala alternativa das suposições, a guitarrista e cantora britânica Towa Bird introduz guitarras indie e arranjos mais analógicos de rock pop de garagem à lista. Uma escolha refinada e de nicho proposta pelos editores para um jogador frequentemente associado apenas ao topo das paradas comerciais.
Mas, e o Brasil?
Apesar do jogo de adivinhações focado em nomes gringos e produções eletrônicas, os editores da Apple Music não apagaram 100% o DNA brasileiro da brincadeira. O equilíbrio e a representatividade nacional na pista de dança chegam com "Vai Dar Caô", uma colaboração pesada que une o pop de Anitta, as rimas de Ebony e a produção de Papatinho.
Aliás, reforçando esse aceno à nossa cena urbana, uma das versões do vídeo da campanha postadas no Instagram da Apple Music trouxe o craque gingando ao som de "Nasci Para Ser", uma das novas músicas da rapper paulistana Ajuliacosta.
Se o Vini de fato ouve tudo isso na intimidade, nunca saberemos (devido ao cancelamento de ruído), mas que a brincadeira editorial rendeu uma excelente discussão sobre música, isso rendeu.




