
Em uma cidade do interior do Ceará, um menino sonha em ser jogador de futebol. Até aí, poderia ser uma história entre um milhão, mas estamos falando do mundo de Gugu, um garoto adorável que desafia qualquer conceito fechado ou rigidamente binário: ele gosta de futebol na mesma medida em que gosta de maquiagem, de dançar e de se enfeitar ao som de divas pop. Vive com a avó, Dilma, com quem mantém uma relação de profundo afeto. Mas seu mundo de brilhos e lantejoulas está prestes a mudar drasticamente.
É essa a história que conduz os pouco mais de 90 minutos de Feito Pipa, longa do cearense Allan Deberton (de Pacarrete) que vai representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027 de Melhor Filme Internacional. Estrelado pela revelação Yuri Gomes, pela veterana dos palcos Teca Pereira (que recentemente viveu Nise no remake de Vale Tudo) e por Lázaro Ramos, o longa areja a imagem do cinema brasileiro lá fora, depois de duas superproduções de diretores renomados que retratam os efeitos da ditadura militar: Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, e O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho.
Feito Pipa (ou Gugu’s World, em inglês) fala do agora e tematiza um drama familiar que poderia acontecer em muitos lugares, mas sobretudo num interior brasileiro. Sobre a trama paira ainda um mistério: o que aconteceu com a mãe do menino, cuja ausência se faz sempre presente.
Com o passar do tempo (talvez de forma mais apressada do que a narrativa pede), a saúde da avó começa a se deteriorar, e o menino precisa aprender a cuidar da casa e de quem cuida dele. Ao mesmo tempo, enfrenta o desafio de morar com o pai (vivido por Lázaro Ramos), um homem emocionalmente distante que não aceita seu jeito de ser.
A trilha sonora que embala essa história é tão variada quanto o próprio Brasil. Vai dos enlatados pop internacionais que dominam nossas rádios, como “Time After Time”, de Cyndi Lauper — que toca em um dos momentos mais emocionantes da trama, de conexão entre avó-mãe e neto — à disco music brasileira de Lady Zu, que abre o filme, e ao forró-pop do Falamansa, passando por divas atuais como Pabllo Vittar e Iza. Nos momentos contemplativos, geralmente à beira da represa, o filme se deixa preencher pelo silêncio. Mas, quando a trilha original aparece, somos transportados para a atmosfera do interior do Nordeste.
Quem assina essa trilha é o cearense João Victor Barroso, que já havia composto para O Barco e A Jangada de Welles. Para a Noize, ele contou que o convite chegou com o filme já em corte final, após o diretor ter tentado outros dois profissionais, sem chegar ao que buscava. “Me identifiquei com o cenário do interior nordestino, que emana liberdade e acolhimento, e também com as tão complexas relações familiares”, conta.
Para um filme que, segundo ele, já funcionava muito bem sem música original, os dois optaram por uma trilha “mais atmosférica e psicológica”. A pedido do diretor, ela também fugiu da tradicional "música de sertão", que poderia soar clichê: “A trilha ainda tem acordeão, violão, pífano e percussão, porém de uma forma mais experimental e junto de outros sons, como guitarra, piano, sintetizador, cordas”, explica. O resultado é mais sutil e contemplativo, no tom que o longa pede.
Feito Pipa estreou nos cinemas nesta quinta (5/11) e se mostra uma aposta interessante do cinema nacional lá fora. Tem jeito de filme independente; é assinado por um diretor ainda pouco conhecido do grande público (assim como seus protagonistas), e trata de um tema universal, ainda que temperado de cor local: os difíceis enlaces de certas relações familiares. Premiado no último Festival de Gramado, o filme agora aguarda o veredito da Academia, que divulga seus indicados no dia 21 de janeiro. Para quem está em dúvida se vale a pena ir ao cinema, João Victor resume: “Tem quem se identifique ainda mais do que eu no filme, mas ninguém sai ileso de uma sessão de Feito Pipa”.






