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Conheça o autor da trilha de “Cidade de Deus”, parceiro de Céu


Por:

Pedro Figueiredo

Fotos: Divulgação

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Neste domingo (8/11), Cidade de Deus: A Luta Não Para estreia sua segunda temporada na HBO Max, com trilha sonora de Beto Villares. Antes de assinar a música dessa e de outras séries, o produtor e compositor paulistano esteve por trás de um dos discos de estreia mais marcantes da música brasileira recente: Céu (2005), primeiro álbum da cantora, que começou a tomar forma na sala da casa dele, em 2002.

Mas a música, para Beto Villares, começa muito antes disso. O músico começou a estudar aos 13 anos e nunca mais parou. Hoje, ele se divide entre composição para trilhas sonoras, criações autorais e parcerias com amigos. No entanto, todas essas frentes se entrelaçam e se complementam. 

Na década de 1990, o produtor musical criava temas para a revista Neo Interativa, uma empreitada multimídia em que os leitores recebiam um CD com o conteúdo da edição. Já na virada do milênio, entre 1998 e 2000, se uniu ao antropólogo Hermano Vianna no projeto Música do Brasil, onde atuou como diretor musical. Na empreitada, ele mapeava, gravava e produzia CDs de música regional.

Depois disso, conheceu o Herbert Vianna, dos Paralamas do Sucesso – e irmão de Hermano –, que o convidou para produzir duas faixas do álbum solo O Som do Sim (2000). A partir disso foram diversas colaborações com Fernanda Takai e John Ulhoa, do Pato Fu, Zélia Duncan, Rappin’ Hood, Dona Zica, Iara Rennó, Itamar e Anelis Assumpção e Céu.

Em paralelo, ele trilhava um caminho no audiovisual, como compositor para publicidades, séries e filmes. O primeiro filme foi Menino Maluquinho 2 (1998), feito em parceria com Antonio Pinto. Desde então, trabalhou em produções como Filhos do Carnaval (2006), Antônia (2006), Xingú (2011), Bingo: O Rei das Manhãs (2017) e, mais recentemente, Cangaço Novo (2023), Cidade de Deus: A Luta Não Para (2024) e Pssica (2025).

Pintando e bordando

Beto também tem discos solo: Excelentes Lugares Bonitos (2003) e Aqui Deus Andou (2020). Inclusive, está elaborando um terceiro capítulo, mas o fluxo intenso de trabalho acaba ocupando a maior parte do tempo.

Foi assim que o produtor se aproximou da Céu, pois ela participou da gravação do debute e do show de lançamento, junto de uma big band para lá de luxuosa: “Eu, obviamente. O Antonio Pinto tocando baixo, o Érico Theobaldo na bateria, o Maurício Badé e o Mestre Nico na percussão, Fernando Catatau na guitarra. Céu  e Anelis Assumpção nos vocais e ainda tinha mais dois sopros". 

À época, o produtor e a cantora já trabalhavam em algumas faixas do Céu (2005), como “Lenda”, gravada na sala da casa dele em 2002. “Ela tinha feito uma música comigo, outra com Antonio Pinto, mas  não sabia muito bem como e com quem ela queria fazer o primeiro disco. A gente acabou ficando amigos, e mais próximos musicalmente. E por já ter feito o meu disco, isso também chamou a atenção do André Bourgeois, do selo Urban Jungle, que quis investir naquilo. A gente gostou muito de produzir junto, ela ainda estava entendendo para que lado o disco ia e a gente foi encontrando muitas afinidades no mood do disco", divide sobre a época.  

No início dos anos 2000, após um período em Nova York, Céu trouxe consigo um punhado de influências que estão presentes em sua música até hoje – em Novela (2024), por exemplo, ela conta com a colaboração de Ladybug Mecca, do Digable Planets, uma de suas referências captadas no período em que viveu no exterior. 

Beto conta que, durante a produção do álbum, a música americana se fundia aos ritmos brasileiros em uma série de sonoridades que resultaram no que ouvimos no álbum. “Ela tinha a música black americana, os boleros brasileiros mais antigos que ela escutou na casa dos pais, Dolores Duran e coisas que ela ficava no quarto aprendendo a imitar e essa mistura já é muito legal, né?”

Ele, por sua vez, gostava muito de reggae e tinha como suas inspirações artistas como Lauryn Hill, Morcheeba, Portishead e Massive Attack. “Eu trazia também a coisa do violão que ela gostava muito também, Baden Powell, Dorival Caymmi e jazz". 

Trabalho manual

O álbum foi gravado ao longo de um ano, e desde aquele momento, ele sentia que o que estava fazendo era especial: “A Céu é um bicho raro no sentido das influências, de como ela deixava uma ideia bonita, com fineza, com detalhes e um jeito de cantar também diferente, perigoso até pelos melismas, mas que dá certo.”

Beto entendia a qualidade do projeto antes mesmo de produzi-lo e afirma que um álbum incrível vem de uma demo incrível. “Antes de eu fazer qualquer coisa, ela compôs, abriu vozes, o Alec Haiat fez umas coisas em algumas músicas com o Lucas Martins e aquilo era muito legal. Se ela tivesse lançado aquilo, provavelmente, um monte de gente ia ouvir,” comenta que coube a ele não estragar o que já existia ali.

Em segundo lugar, o álbum foge do que o produtor classificou como “conselhos mercadológicos”: “Tem intros gigantes, tem coisas super melancólicas, tem o que a gente teve vontade de fazer – ele tem uma autenticidade. É o primeiro disco da Céu, que é uma cantora e compositora muito especial". 

“Ele tem essa mistura de melismas e coisas da black music com samba sem ficar forçado, na minha opinião, sem ficar esquisito, sem americanismos, porque tem um jeito dela ali que é difícil de imitar. Teve muita verdade: a gente brigou, a gente chorou, foi tudo isso por que estávamos envolvidos". 

Tudo isso, somado ao que o produtor atribui ao talento, sorte e perspicácia, transformaram o álbum em um clássico instantâneo. “Porque você pode fazer uma coisa muito especial e aquilo não sair pro mundo. Acho muito legal ver a Céu com o trabalho dela, na mão dela, do jeito que ela sempre quis e ter um tamanho que ela gostaria de ter". 

Ele se lembra que a cantora tinha muita confiança no que estavam fazendo e sabia o caminho por onde gostaria de seguir.  Isso se refletiu no sucesso que o álbum fez nos Estados Unidos, onde foi lançado antes do Brasil, e por aqui também. Os dois voltaram a trabalhar no segundo disco dela, Vagarosa (2009), que ele classifica como um projeto de sonoridade mais retrô. “Foi menos um trabalho de nós dois, embora tenha coisas assim, teve um começo onde a gente foi com a galera para um sítio, ficou compondo, gravando, achando harmonia de música”, recorda.

Por:

Pedro Figueiredo

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