
Pouco mais de uma década separa um curta feito entre amigos em Contagem, Minas Gerais, de um lançamento simultâneo em mais de 190 países. Vicentina Pede Desculpas, novo longa de Gabriel Martins, chega aos cinemas nesta quinta (5/11). É mais um passo da Filmes de Plástico, a produtora mineira que levou Marte Um (2022) a Sundance e à disputa por uma vaga no Oscar, e agora em parceria com a Netflix. Na trama, Rejane Faria vive uma mulher que sai em busca das famílias das vítimas para pedir perdão depois que o filho causa um acidente de ônibus num viaduto de BH. O filme levou mais de dez anos para ficar pronto. A escala é nova, mas o cinema é o mesmo que os quatro sócios e amigos mineiros fazem desde 2009.
Não é difícil identificar um longa da produtora Filmes de Plástico: ele pode ser reconhecido pela atuação espontânea, esmero estético e acentuado sotaque mineiro. Na dúvida, basta dar play em O Último Episódio (2025), O Dia que Te Conheci (2023) ou no premiado Marte Um (2022).
A produtora nasceu em 2009, em Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte, e hoje é formada por André Novais Oliveira, Gabriel Martins, Maurilio Martins e Thiago Macêdo Correia. Mas essa história começa antes, quando Maurilio Martins entrou na faculdade de Comunicação Social com habilitação em Cinema da UNA, em 2006.
Em uma universidade particular da região centro-sul de Belo Horizonte, vir da periferia de Contagem era raro naqueles tempos. Eles ingressaram na universidade com bolsas de estudo, no começo das políticas públicas de acesso à universidade, o que foi decisivo para que estivessem ali.
"É muita coincidência que três diretores com as mesmas ideias e referências cinematográficas tenham vindo de Contagem, uma cidade industrial que, durante muito tempo foi uma cidade-dormitório”, diz Maurilio, em entrevista à Noize.
“Também nos sentíamos diferentes no curso, na cidade. Isso acabou criando uma identificação forte entre nós”.
A popularização das tecnologias digitais também facilitou a produção audiovisual, inclusive fora do eixo Rio-São Paulo.
Gabriel apresentou Maurilio a André, que conheceu na Escola Livre de Cinema. Então, os três decidiram criar uma produtora que retratasse histórias calcadas no cotidiano.
O primeiro projeto foi o curta Filme de Sábado (2009) — foi desse jogo de palavras que surgiu o nome da produtora. Em 2011, foi a vez de Thiago, que também estudou na Escola Livre de Cinema, somar na sociedade.

Além de serem interpretados por atores locais, alguns filmes são, por vezes, inspirados na vida dos próprios idealizadores. Marte Um se relaciona à infância de Gabriel em Contagem; já Ela Volta na Quinta (2015), apesar dos aspectos ficcionais, conta com a família dele no elenco, enquanto O Último Episódio se passa no bairro onde Maurilio cresceu e vive até hoje.
Para o diretor, a relação com o Laguna vai além do afeto. Mesmo após períodos vivendo em outros países, ele sempre voltou a morar no bairro. "É minha casa", resume.
“Não consigo sair dessa terra que me cerca. Eu posso falar de Fausto; posso falar de literatura russa, mas esse lugar me aprisiona artisticamente nesse sentido. Eu preciso dessa terra e dessas pessoas pra falar com o mundo”.
Trilha sonora de um filme
O aspecto local não pauta todos os projetos da produtora, mas pode se dar na escolha do cenário, do elenco — por vezes, formado por atores sem experiência — e da música que também já foi feita por uma banda que fincou raízes em Minas Gerais.
É o caso de O Último Episódio. Ambientado em 1991, o filme acompanha amigos que tentam recriar o episódio final de Caverna do Dragão.
Maurilio lembra quando assistiu a um corte do filme ainda sem trilha, e ficou frustrado: sentia que ainda não tinha chegado lá. Gabriel então sugeriu que a trilha pudesse melhorar isso e perguntou qual banda ele gostaria que tocasse no longa. Maurilio não pensou duas vezes: “Pato Fu”.
Então, eles convidaram Richard Neves, que, por sua vez, chamou John Ulhoa para trabalharem juntos. Ulhoa, que já assinou trilhas sonoras e mostrava desde o Pato Fu vocação para a ambientação sonora, convidou Fernanda Takai para cantar uma das faixas, uma releitura delicada de “Qualquer Jeito”, versão de Erasmo e Roberto para a música de Robert Lee Mac Dill.
Para compor a trilha, John e Richard recorreram às lembranças musicais de Maurilio, que cresceu ouvindo o reggae de Jimmy Cliff, grupos de pagode e Bezerra da Silva ecoando pelos bares do bairro. Foi daí, por exemplo, que John e Richard criaram o “reggode”, trilha que ambienta uma partida de pelada no bairro.
Outro filme que relaciona música à narrativa é O dia que te conheci. O longa mostra espaços simbólicos da capital mineira, como o Viaduto Santa Tereza — debaixo dele, acontecia o Duelo de MC 's, que formou boa parte da geração atual do hip hop mineiro. O rap ainda atravessa a narrativa na trilha e na participação de FBC no elenco, reforçando a conexão da produtora com a cena cultural da cidade.

Navegando até a lua
O reconhecimento internacional da Filmes de Plástico veio com Marte Um (2022), de Gabriel Martins. A ideia nasceu após a derrota do Brasil na Copa de 2014, inspirada pela pergunta: como seria se uma promessa do futebol brasileiro, na verdade, sonhasse em ser um astrofísico?
A partir daí, o roteiro é pensado a partir do dia a dia de uma família, com seus sonhos realizáveis ou, talvez, impossíveis. É o caso de Deivinho (Cícero Lucas), que sonha em integrar a missão Marte Um enquanto o pai sonha que ele se torne um jogador do Cruzeiro.
Com um olhar sensível para as relações familiares e a vida na periferia, o filme estreou no Festival de Sundance, foi escolhido para representar o Brasil no Oscar de Melhor Filme Internacional e conquistou dezenas de prêmios, incluindo o de Melhor Filme no Festival de Gramado. “A recepção nos pegou de surpresa e, ao mesmo tempo, nos orgulha, porque acreditamos muito na mensagem desse filme", diz Gabriel.
O filme ainda foi eleito um dos melhores do século pelo jornal O Globo em 2025. Em entrevista ao jornal, André relembrou: “A Filmes de Plástico nasceu de conversas de mesa de bar sobre os filmes de que gostávamos”.
Marte Um foi ápice numa trajetória que segue rendendo louros: em 2025, foi ao ar pelo Canal Brasil a primeira série da produtora, O Natal dos Silva, enquanto Gabriel trabalhava com a Netflix. Se tivessem um spoiler, aqueles jovens de Contagem, torcedores do Cruzeiro e fãs de Radiohead, talvez não acreditassem que chegariam tão longe. “Vejo a gente como uma banda que se formou por pessoas que se sentiam deslocadas e encontraram afinidades. Antes da produtora, somos amigos”, resume Maurilio.
Gabriel complementa:
“A Filmes de Plástico é um projeto de vida. Representa o cinema que crescemos querendo ver: filmes com olhar periférico, voltados para personagens da classe trabalhadora, para o humor, o afeto e as tensões do cotidiano”
“É a nossa carta de amor ao cinema. Na produtora, me sinto protegido e livre. E isso é fundamental para a vida de um artista”.




