
Quando pensam no cancioneiro de Dorival Caymmi (1914-2008), os brasileiros enxergam uma herança nacional. Mas antes de ser compartilhada com o país inteiro, essa também é uma herança de família.
Alice Caymmi – neta de Dorival, filha do caçula Danilo e sobrinha de Nana – cresceu ciente disso. Com mais de dez anos de carreira, ela esperou o momento certo para mergulhar no mar da obra do avô. Daí surge CAYMMI (2026), com releituras das canções dele. Em pré-venda na loja do NRC+, o kit vem com vinil amarelo translúcido, encarte e photobook com conteúdos especiais.
“É como se eu estivesse construindo a fundação da casa só agora”, Alice fala à Noize. Casa essa que, ainda assim, parava em pé. A estreia dela na música aconteceu em 2012, com um álbum intitulado, seguido de Rainha dos Raios (2014), Alice (2018), ELECTRA (2019) e Imaculada (2021).
Nos últimos anos, lançou alguns singles, incluindo parcerias com Rachel Reis, Josyara e Chico César, além de levar para os palcos, em 2025, o show “Para Minha Tia Nana”, homenageando a irmã de seu pai, que morreu no ano passado.
CAYMMI chega em maiúsculas, assinado à caneta, sem medo de rasuras. “É voltar para as minhas origens. É colocar força na fundação da minha casa enquanto artista. É trazer estrutura para a minha discografia. Um pouco tarde, porém, chegou”, analisa.
Águas passadas e do presente
Clássicos como “O Que é Que a Baiana Tem”, “Maracangalha” e “Modinha Para Gabriela” estão entre as 12 faixas do disco. O mar, sempre presente no canto do avô Dorival, marca presença em CAYMMI em músicas como “Dois de Fevereiro” e “Morena do Mar”, que exaltam Iemanjá, a rainha das águas no candomblé; e também em “O Bem do Mar” e “Canção da Partida”, hinos dos pescadores.
Outro amor de Dorival, sua família, figura no álbum de forma metalinguística. Uma canção de ninar, “Acalanto” foi escrita para Nana Caymmi: “É tão tarde, a manhã já vem / Todos dormem, a noite também / Só eu velo por você, meu bem”.
Já “Canto de Obá" pede para que Xangô proteja Stella, também cantora e esposa de Dorival, e os filhos deles. Apesar de tão íntima, a música foi escrita a quatro mãos, junto com o escritor Jorge Amado. Os dois foram grandes amigos e são incontornáveis quando se trata do imaginário da cultura baiana.
Para chegar nas faixas do disco, a cantora primeiro escolheu aquelas com que tinha maior conexão emocional. Depois, filtrou de maneira mais espontânea. “Conforme a gente ia montando os arranjos e a produção de cada canção, ia entendendo o rumo que o disco estava tomando e o que faltava nele.”
Iuri Rio Branco foi uma peça fundamental nesse processo. O produtor musical, que em 2022 recebeu uma indicação ao Grammy Latino e já trabalhou com artistas como Marina Sena, Urias, Liniker e também com a própria Alice, ajudou a trazer o frescor para CAYMMI.
Reggae, trip hop, salsa e beats eletrônicos coexistem no disco, trazendo a sonoridade direto para 2026. Assim, as canções que marcaram as décadas de um outro Brasil, encontram espaço no de agora. Quanto às composições, Alice as vê como atemporais. “São canções sucintas. Simples. Certeiras”, afirma. “São canções que atravessam o tempo.”
Ouvindo Alice cantar as músicas do avô, há quem lembre das versões originais de Dorival, com a voz grave, suave e imperturbável. Enquanto há quem dê o play em CAYMMI sem reconhecer nenhuma das músicas do avô dela. “O mais engraçado dessa história toda foi a quantidade de gente que achou que essas músicas eram minhas”, ri. É assim que Alice assume um papel que vai além do seu trabalho enquanto artista: o de guardiã do legado de sua família.














