
A cidade de Olinda, frequentemente evocada como símbolo de tradição e memória, será palco de uma tentativa de reposicionar a percussão no centro do debate contemporâneo da música brasileira. Entre os dias 9 e 11 de abril, o Festival Ressonância acontece na cidade com uma aposta ambiciosa: não apenas reunir artistas, mas tensionar a forma como o país consome e valoriza um de seus pilares sonoros.
O evento apresenta shows e oficinas. Entre os destaques, estão os grupos que valorizam a matriz afro-brasileira, Aguidavi do Jêje e Repercuti, o uruguaio Lobo Núñez, referência do candombe afro-latino-americano; o projeto colombiano Alibombo y Los Sopladores, que explora instrumentos não convencionais em diálogo com sopros; e o grupo Cordel do Fogo Encantado, que recria o show histórico de seu álbum de estreia produzido por Naná Vasconcelos.
O resgate histórico da percussão como premissa
A proposta de um festival internacional dedicado exclusivamente à percussão expõe, por contraste, uma lacuna histórica. Embora ritmos e batidas sejam a espinha dorsal de gêneros que vão do maracatu ao samba, raramente ocupam o protagonismo em circuitos institucionais e festivais de grande escala. Ao apostar em shows, oficinas e masterclasses gratuitas, o evento busca romper essa lógica, ainda que esbarre no desafio de não transformar a percussão em um recorte folclorizado ou meramente didático.

A homenagem a Naná Vasconcelos, morto há dez anos, reforça esse ponto de tensão. Reverenciado internacionalmente, o músico simboliza justamente a potência inventiva da percussão brasileira quando deslocada do lugar de acompanhamento para o de linguagem central.
“A percussão está no fundamento da cultura musical brasileira. Percebemos que havia uma lacuna de festivais dedicados a esse universo no país. O Ressonância nasce justamente para celebrar a força e a importância da linguagem percussiva em nossa cultura, reunindo tradição e novas linguagens que fazem da percussão uma força permanente de invenção na música brasileira”, afirma Antonio Gutierrez, o Gutie, fundador e curador do evento, em entrevista à Revista Noize.

Ao ocupar a Praça do Carmo, no Sítio Histórico, o festival também se insere em um cenário simbólico: entre igrejas, ladeiras e o peso do passado, a percussão pode tanto reafirmar identidades quanto propor deslocamentos estéticos. Espera-se, assim, que o evento consiga produzir fricções — aquelas capazes de transformar o que, por muito tempo, foi ouvido apenas como base em linguagem protagonista.
RESSONÂNCIA - Festival Internacional de Percussão do Brasil
9 e 10 de abril - oficinas e masterclasses
11 de abril - shows musicais a partir das 16h na Praça do Carmo, Olinda/Pernambuco
Mais informações no site oficial.
SHOWS:
CORDEL DO FOGO ENCANTADO (PE)
REPERCUTI (PE)
AGUIDAVI DO JÊJE (BA)
ALIBOMBO Y LOS SOPLADORES (Colômbia)
LOBO NUÑEZ (Uruguai)
DJ SIDADE (PE)




