
Ney Matogrosso anunciou uma nova grande turnê. 85 Anos de Ousadia, série de dez shows que começa em janeiro de 2027 [veja ingressos], terá dez figurinos inspirados em looks marcantes da carreira do artista. As imagens de divulgação da tour são assinadas por ninguém menos que David LaChapelle. O renomado fotógrafo conta que assistiu a Homem com H e ficou encantado com a figura de Ney. "Passei uma semana linda em São Paulo, Brasil, fotografando Ney, um artista profundamente amado pelo povo brasileiro e muito além dele. Sua energia foi extraordinária: intensa, elétrica, generosa e gentil. Foi um privilégio", escreveu LaChapelle em seu Instagram. É a primeira vez que ele registra um artista brasileiro.
No filme Homem com H, a reconstrução dessa persona visual marcante exigiu um trabalho minucioso da figurinista Gabriela Marra, responsável por mais de 90 figurinos usados por Jesuíta Barbosa para atravessar diferentes fases da trajetória do artista. Releia a matéria publicada na Revista Noize #165, que acompanhou o vinil de Bandido, de Ney Matogrosso, e esmiuçou o trabalho de figurino do longa:
Uma borboleta azul-real no ombro de Jesuíta Barbosa durante as filmagens de Homem com H foi o ponto de partida para que a figurinista Gabriela Marra soubesse que havia algo mágico acontecendo. A cena, que retrata um dos momentos mais delicados da trajetória artística de Ney Matogrosso, ganhou uma dimensão poética que nem o roteiro mais elaborado poderia prever. “Foi muito simbólico. Se tivesse combinado, não ia ser tão especial assim”, relembra Gabriela, ainda emocionada com a coincidência.
Essa borboleta não estava ali por acaso. Originalmente, a equipe tentou reproduzir o icônico figurino do show em que Ney aparece com uma borboleta azul no ombro. Após consultar cinco artistas diferentes, todos declararam ser impossível recriar aquela tonalidade específica de azul. A solução veio de uma fonte inesperada: a rua 25 de Março.
“Fomos comprar um quadro com aquelas borboletas secas enquadradas e tiramos a borboleta morta do quadro para colocar no ombro dele”, conta a figurinista. Era uma borboleta real, já sem vida, preservada entre vidros como as que se vendem em lojas de decoração.
90 figurinos para uma vida
O trabalho de Gabriela Marra foi monumental: mais de 90 figurinos apenas para o protagonista, quase um por cena do filme. O desafio não era pequeno — recriar fielmente quatro décadas da carreira de um dos artistas mais performáticos e visuais da música brasileira, traduzindo em tecidos e texturas a evolução que vai do jovem Ney dos anos 1960 até o artista consagrado dos 2000, passando pelas transformações que acompanharam clássicos como “América do Sul”, “Viajante” e “Pro Dia Nascer Feliz”.
“Ney sempre foi elegante e sofisticado, mesmo quando ainda estava se descobrindo completamente.”
Para os primeiros anos da carreira, quando não havia registros fotográficos disponíveis, a equipe se baseou em referências masculinas da época, imaginando como seria o estilo de Ney antes de sua completa transformação artística.
O processo de pesquisa foi meticuloso. O diretor de arte Thales Junqueira construiu um arquivo extenso sobre a vida do cantor, com informações que iam muito além do óbvio. “Até o fim do filme, a gente tinha dúvidas sobre detalhes. Aí perguntávamos para o Ney: ‘E esse tamanco que você tinha nessa foto?’ E ele respondia: ‘Eu trouxe de Portugal. Era vermelho, de madeira”, conta Gabriela. Eram tamancos portugueses, franjas feitas com crina e rabo de cavalo importados de Portugal, ossos de tartaruga usados no figurino do “Homem de Neanderthal” — cada peça tinha uma história particular.

Entre o original e a reprodução
Quando a produção do filme sobre Ney Matogrosso começou, o artista já tinha doado seu acervo pessoal para o Senac de São Paulo. A equipe conseguiu autorização para estudar as peças originais de perto, um processo quase arqueológico. “Levei sete adereçistas lá no Senac. Medimos tudo: tem o cinturão aqui do ‘Bandido’, que é um cinturão de cobre, tipo uma coisa de decoração”, descreve Gabriela.
A reprodução do cinturão dourado foi feita em impressão 3D, uma técnica que a própria figurinista nunca havia utilizado. O resultado foi idêntico ao original. Para o osso de tartaruga usado no “Homem de Neanderthal”, um aderecista passou horas medindo cada milímetro, fotografando para capturar exatamente a cor e estudando até mesmo o tipo de linha usada na costura.
Das peças originais, apenas três puderam ser usadas nas filmagens. O figurino do “Flores Astrais” coube perfeitamente em Jesuíta Barbosa, que passou meses emagrecendo para se aproximar do físico de Ney. “Conseguimos usar nele e caiu perfeito, igual, assim, incrível”, celebra Gabriela.

A alquimia dos materiais
O figurino mais trabalhoso foi o do “Homem de Neanderthal”, aquele com as franjas de crina de cavalo que acompanha uma das performances mais marcantes e primitivas de Ney. “O meu motorista conseguiu as crinas nos haras todos de São Paulo”, conta Gabriela. O processo foi complexo porque ninguém queria cortar completamente os cabelos dos cavalos — era preciso pegar um pouco de cada animal, já que o rabo serve para espantar moscas no verão e é parte da beleza do cavalo.
“Precisou de muitos pedacinhos de cabelos de cavalos variados”, lembra. A montagem levou um mês inteiro, com ela atenta com a confecção. Era uma técnica artesanal que dialogava com o próprio processo criativo de Ney nos anos 1970, quando o cantor importava materiais específicos para suas criações.
Para outros looks emblemáticos, como os tamancos vermelhos portugueses ou a pele inteira de jacaré que aparece no camarim, a equipe mergulhou em uma pesquisa que revelava o cuidado obsessivo de Ney com cada detalhe de sua imagem.
A transformação do ator
Para Jesuíta Barbosa, o figurino foi fundamental na construção do personagem, como explica Gabriela.
“Jesuíta mudava completamente a fisionomia do rosto e do corpo quando colocava as roupas. Era uma coisa assim, muito linda."
A equipe organizou mais de cinco provas de roupa ao longo das filmagens, permitindo que o ator crescesse junto com o personagem à medida que os figurinos ficavam prontos.
Gabriela compara esse processo à experiência que teve trabalhando com Fernanda Montenegro em outro filme. “Ela provou o primeiro figurino, se olhou no espelho. Fisiologia normal, olhar normal. No terceiro look, olhei para ela se olhando no espelho e todo o rosto mudou. Ela se viu ali”, conta.
Essa transformação química entre ator e figurino é o que move o trabalho de Gabriela. “Acho que o figurino é uma das maiores coisas que ajudam nesse processo do ator na construção de conseguir se transformar em outra pessoa”, reflete.
O legado visual de uma era
Homem com H mergulha na construção visual de um dos artistas mais influentes da música brasileira. Cada figurino dialoga com as canções que marcaram épocas: os primeiros anos de descoberta sexual embalam “Sangue Latino” e “Poema”, a explosão criativa dos 1970 ganha forma nos looks de “Homem de Neanderthal” e “Flores Astrais”, enquanto a sofisticação dos 1980 ressoa em “Pecado” e “Olhos de Farol”. A reinvenção constante de Ney, que atravessa “Bandido” até “Beija-Flor”, encontra no figurino um aliado fundamental para contar essa jornada sonora e visual.
O filme de Esmir Filho, com direção de arte de Edmilson Thales, conseguiu capturar não apenas a evolução estética de Ney Matogrosso, mas também a importância do figurino como elemento narrativo na construção de uma persona artística. Como diz Gabriela, foi “um dos melhores diretores que eu já trabalhei” na delicadeza do processo criativo.
Quando aquela borboleta azul voou do ombro de Jesuíta e caiu no chão, ela carregava consigo décadas de história da música brasileira, materializadas em tecidos, couros, franjas e sonhos. Era Ney Matogrosso sendo eternizado não apenas em sua música, mas em cada detalhe visual que o tornou inesquecível.








