
O Garage Fuzz, lendário grupo de punk hardcore formado em Santos por Alexandre Cruz (vocal), Daniel Siqueira (bateria) e Fabrício de Souza (baixo) completou 35 anos de em 2026. Sob nova liderança nos vocais desde 2021, com a saída de Alexandre "Farofa”, Victor Franciscon foi a caneta responsável pelo mais novo EP da banda, intitulado POWERPLANT (2026), lançado em 14 de agosto.
O título, segundo Victor, remete ao momento atual da sociedade. “A gente vive conectado o tempo todo, consumindo e sendo consumido. Acho que as letras de Powerplant nasceram desse excesso: da pressão de continuar produzindo, da ansiedade que acelera a mente e da sensação de sempre estar funcionando no limite”, diz.
Com a peculiaridade de cantar em inglês, o Garage Fuzz marcou décadas no Brasil com uma sonoridade que remete aos velhos tempos do hardcore e da saudosa MTV, no auge das guitarras aceleradas combinadas com letras que refletiam uma juventude em ascensão, cheia de energia para gritar ao mundo seus impulsos e revoltas.
Pioneiros do hardcore melódico no Brasil, os anos iniciais, com o primeiro álbum, Relax in Your Favorite Chair (1995), remetem a bandas clássicas da época, como Green Day ou Nirvana, mas algumas das maiores referências e inspirações vêm de bandas mais alternativas, como Fugazi, Mudhoney ou Sonic Youth, muito ouvidas pelos fundadores na época.
Este é o segundo EP lançado com o novo vocalista depois de Grawlix (2024). Nos dois projetos, é possível ver como Victor soube cravar sua identidade na banda. Com uma lírica que envolve as relações entre o indivíduo e sua convivência diária em sociedade, o vocalista e compositor traça eixos pessoais em suas letras, que são entregues com um vocal bem destacado.
Na faixa que abre o disco, ‘Flashpoint”, a mensagem é ainda mais clara: "Precisei consumir todo combustível antes de entender que tava alimentando um ciclo que precisava ser interrompido".
Em meio a isso, as guitarras tão reconhecíveis junto da bateria de Daniel formam um projeto verdadeiramente ligado no 220v, pronto para encarar os desafios externos e internos da caminhada no underground. “Cada faixa faz parte de uma temática central, a eletricidade, que no fim das contas não é só metafórica”, completa Victor.
Confira o faixa a faixa completo com impressões do próprio Victor:
“POWERPLANT”: Uma música sobre desgaste, estagnação e, principalmente, sobre continuar funcionando apesar disso tudo. Essa faixa que abre e leva o nome do EP, em português, significa "usina de energia" e é meio que uma metáfora do ser humano atual, quase sempre funcionando como uma máquina no limite, com ansiedades, autocobranças e a pressão de continuar "ligada". Ao mesmo tempo em que existe a vontade de simplesmente desistir, a letra fala sobre a necessidade de continuar se movimentando, porque quando a gente fica parado, nada se transforma, e no fim das contas essa "máquina" que seríamos nós carrega a capacidade de catalisar esses sentimentos e transformar em energia pra continuar em movimento.
“FLASHPOINT”: A música parte de um período pessoal de inconsequência, de não saber dizer não, de abusar de certas coisas e não reconhecer a hora de parar. A ideia de colocar fogo na própria casa vem daí: eu precisei consumir todo o combustível antes de entender que estava alimentando um ciclo que precisava ser interrompido. Esse som, que foi o single do EP, significa "ponto de ignição" e fala sobre chegar ao limite e perceber que, às vezes, é preciso atravessar o fogo para entender o que estava nos queimando. Mas não é uma música sobre apagar o passado ou fingir que ele nunca existiu. As memórias não viram cinzas como diz na letra. Elas permanecem para que possamos aprender com elas.
“220V”: “220V” é uma tentativa de transformar em letra a experiência de viver com uma cabeça que parece estar sempre ligada na tomada. Começar uma coisa enquanto outras dez já apareceram pelo caminho, perder ligações e mensagens, criar planos demais e nunca conseguir desligar completamente. Os números aparecem o tempo todo justamente para dar essa sensação de organização dentro do caos — como se eu tentasse colocar alguma ordem em uma mente que tá sempre criando novos caminhos. Existe um pequeno easter egg escondido na letra: a soma de todos os números mencionados chega exatamente a 220. Foi uma espécie de obsessão particular, outro traço forte do meu TDAH e de tantas outras pessoas nos dias de hoje.
OVERCHARGE: “Overcharge” é uma música sobre pressão, sobre aquela sensação de carregar peso demais nos ombros até chegar ao ponto em que tudo o que você consegue pensar é em se libertar e respirar. É uma música muito emocional para mim porque parte de uma tentativa de falar diretamente com alguém que está preso nas próprias reações, repetindo os mesmos ciclos e tentando encontrar algum tipo de alívio. A metáfora da eletricidade que percorre cada faixa aparece aqui de maneira diferente. A carga não precisa necessariamente ser algo negativo: ela também pode ser energia, impulso, vontade de reagir.
“SYNERGY”: Essa é provavelmente a música mais simples e afetiva do EP. Escrevi pensando na minha companheira e nessa sensação de que, quando duas pessoas realmente conseguem caminhar juntas, existe uma força que não estaria presente se cada uma estivesse sozinha. É sobre confiança, cumplicidade e ter alguém com quem você pode contar quando a vida pesa demais.Mas não acho que esse sentimento precise estar necessariamente ligado a um relacionamento amoroso. Pode acontecer entre amigos, familiares, ou até mesmo na relação com um animal de estimação. É aquela presença que faz você sentir que não precisa enfrentar tudo sozinho.














