
A bucólica Santo Antônio do Pinhal, conhecida como destino de inverno na Serra da Mantiqueira, em São Paulo, recebeu a 4ª edição do festival Jazz na Serra no último final de semana. Idealizado por Pedro Pimenta, ex-secretário de turismo e cultura do município, com curadoria do trombonista e produtor musical Joabe Reis, o evento reuniu nove atrações dedicadas a explorar as diferentes sonoridades do jazz e da música instrumental nacional. Com entrada gratuita, o festival se dividia em dois palcos instalados nas praças da cidade.
Na sexta-feira, 28/8, a cantora Giu Nogueira se apresentou em quarteto no show, cujo repertório foi dedicado aos clássicos do jazz, da bossa nova e do bolero. Segundo a artista, a sua maior influência vem do gypsy jazz, subgênero francês, que dispensa o uso da bateria, com o ritmo percussivo feito com as cordas.
Já o baixista Michael Pipoquinha encerrou a noite com uma apresentação que misturou o jazz e o R&B à música brasileira. Em conversa com a Noize, o músico lembra que a liberdade do jazz foi o que o fez se interessar pelo estilo musical: “Sempre enxerguei a música como algo livre, onde a criação surge da mistura. O Brasil tem muito disso. O jazz nunca foi uma coisa só para mim.”
O sábado começou com a Grande Banda do Sertão, big band formada por 16 músicos, vinda do Vale do Paraíba, que trouxe releituras de Elpídio dos Santos e canções autorais em tom de fanfarra no palco.
A pianista Eloá Gonçalves fez uma apresentação serena em formato de trio, acompanhada de bateria e contrabaixo. No repertório, a musicista apresentou canções dos álbuns Sobre O Que Move As Coisas (2023) e Casa (2026). O ponto alto foi a performance de ‘Graz nº1”, composta em homenagem à cidade austríaca de mesmo nome, onde morou.
A tarde quente seguiu com a apresentação de Jota P Quinteto, liderado pelo saxofonista que foi aprendiz de Hermeto Pascoal. Do alagoano, leva a espontaneidade musical: “A maior lição que eu aprendi com ele é de que a criatividade não tem limites".
Nos bastidores, o músico pontuou a importância de eventos dedicados ao estilo musical: “A cena jazzística brasileira é muito quente e efervescente. Tem muita gente criando coisas lindas e com pouco espaço para tocar. Mesmo nos bares que oferecem as piores condições para um músico, ainda falta espaço. Então uma parada dessa é muito boa porque ajuda a formar a aproximar o público.”
Fervo noturno
A Dejavu Session, festa mensal que acontece em São Paulo e no Rio de Janeiro, também marcou presença em um dos momentos mais animados do evento. A praça lotada se divertia ao som das canções, e nem mesmo a chuva, ou a temperatura que começava a cair, contiveram as pessoas.
À noite em Santo Antônio do Pinhal foi abrilhantada com a apresentação da cantora Juliane Gamboa, que apresentou seu álbum Jazzwoman (2024), que lhe rendeu uma indicação ao Grammy Latino de Artista Revelação. No show, a artista misturava elementos do jazz à música brasileira, como é o caso da percussão da ótima “Paracaê”, que flerta com o samba.
“Cada vez mais o Brasil, e as pessoas mais jovens, estão se apropriando do jazz. Trazer isso para uma praça pública, em um evento gratuito, é o meu sonho. O jazz tem que sair da casa fechada, com ingresso caro, não pode ser só isso. O jazz está muito próximo da vida, tem muito a ensinar, por isso tem que ser mais acessível.”
As apresentações da Praça Araucária se encerraram com o show animado da Banda Mantiqueira, que trabalhou releituras de Tom Jobim e Cartola, sempre em ritmo de jazz, concentrando um público considerável na apresentação.
E o último show do evento foi da lendária Banda Black Rio. Quem chegou cedo à Praça do Artesão, teve o privilégio de ver os artistas passando o som e dando um gostinho da performance. Se nas outras apresentações cadeiras de camping ou cangas no chão serviam de acomodação, aqui as pessoas dançavam antes mesmo da apresentação começar, pois o local se tornou um baile black enquanto os músicos se posicionavam no palco.
A apresentação passou pelo repertório da banda ao longo das 5 décadas de existência, tendo como ponto alto a performance de “Carrossel”, colaboração com o saudoso Cassiano e uma homenagem a Tim Maia. O líder da banda, o pianista e arranjador William Magalhães, lembrou como uma figura importante e revelou que “no Natal ele ligava para três pessoas: a mãe dele, meu pai (Oberdan Magalhães) para cumprimentar e o Roberto Carlos, para xingar.” O músico falou à Noize posteriormente que eventos como esse tem importante caráter formador de público.
“Esses shows são muito importantes pois conscientizam e atendem um público que é carente. O Brasil precisa de eventos desses, para que todas as pessoas tenham acesso, pessoas mais pobres, nas periferias, isso seria interessante.”
A quarta edição do Jazz na Serra levou ao público da cidade – e aos turistas – uma amostra do poder contagiante da música. Por dois dias, nada além disso importou e, se o objetivo era colocar a cidade na rota dos amantes do jazz, a missão foi cumprida.

















