
A cantora e compositora Amanda Magalhães lançou no início de agosto seu terceiro álbum de estúdio, Era Uma Vez o Amanhã (2026), seu projeto mais bem-humorado, mas que também eleva o tom da conversa para trazer temas sérios como a maneira como as redes sociais nos afetam e os efeitos do capitalismo.
Representante da terceira geração musical da família — ela é neta do saxofonista Oberdan Magalhães, fundador da lendária Banda Black Rio e filha do pianista William Magalhães, atual nome à frente do grupo — Amanda Magalhães traz referências da black music, mas se permite brincar com outros estilos, como faz com o baião e o rap neste álbum. Nos discos anteriores, Fragma (2020) e Maré de Cheiro (2023), a artista trabalha linguagens mais românticas.
Amanda Magalhães é sobretudo, uma multiartista. Formada em Arte Dramática na USP, ela também vem ganhando destaque nas redes sociais com seus “memixes”. Ela vê esse alcance como uma ferramenta importante para divulgar o trabalho a partir de uma lógica que ela mesma criou: com remixes de vídeos e falas de personalidades, sempre com um toque cômico e teor político.
Conversamos com a artista sobre o atual momento da carreira e o lançamento. Confira abaixo:
Vamos começar falando do Doce Maravilha. Seu disco mal estreou e você já levou para o palco, como foi isso?
É bom quando a gente, nesse momento de lançamento, tem a oportunidade de já dar corpo àquilo que a gente vem idealizando nos meses anteriores. Foi todo um mergulho, o trabalho do Era Uma Vez o Amanhã e, de repente, poder nessa reta final, já tá construindo o que é aquilo no campo do presencial foi muito importante e muito legal. Foi uma experiência incrível, a recepção da galera foi muito boa e a gente se sentiu muito bem no palco assim, dando vida a esse trampo, então foi incrível.
Quando ouvimos o álbum, percebemos muitas camadas sonoras e as mensagens. Como é que é o trabalho de traduzir isso pro palco?
A gente contou com um time de profissionais incríveis, a minha empresária Mariana Bergel foi muito importante no processo, porque conseguiu trazer colaboradores, artistas que poderiam ajudar a gente a criar isso no palco.
Um nome se tornou uma peça central, no processo criativo desse trabalho é o Bruno Barbosa, o coreógrafo. Eu acho ele soube captar muito bem qual era a energia, a pulsação desse trabalho e trazer isso para dança, para o corpo. Então, eh se a gente conseguiu trazer isso para cena de alguma maneira, foi por conta dessas figuras.
Vamos falar então agora do disco em si, quanto tempo você ficou trabalhando nele?
Aconteceram algumas etapas, o tempo de produção foi relativamente curto. Em cerca de quatro meses levantei ele, essa é a verdade. Então foi tudo muito rápido. Mas antes desse processo de estúdio mesmo, eu já vinha num processo de um ano de começar a perceber que eu queria mudar mesmo o foco dos assuntos, das coisas sobre as quais eu compunha.
Eu li dois livros que me provocaram assim num lugar muito profundo mesmo, que foram Ideias para adiar o fim do mundo e A vida não é útil, ambos do Ailton Krenac. No ano passado, eu entrei em contato com essas leituras. E Futuro Ancestral também, mas depois de ter lido esses dois eu já estava em polvorosa pensando: "Caramba, eu tenho que trazer isso para a letra, quero compor sobre essas perguntas que agora eu saio daqui dessas leituras sem respostas, sabe?
Você reforça o seu discurso também com o que traz a Maria Homem, Anibal Quijano. Queria entender por onde passa essa sua pesquisa.
Olha, é, eu sou, eu sou uma millenial, né? [risos]. Eu posso não ser geração Z, mas o universo digital, tá muito presente também para mim, para minha geração.
Muitos dos materiais, os quais eu acabo me debruçando depois, às vezes são indicações ou falas de figuras que eu vejo na internet e penso: "Nossa, que interessante, quero me aprofundar mais no trabalho dessa pessoa". E assim vou indo. Então, a internet que acaba me trazendo muita coisa. Tanto que eu brinco, que eu tenho essa relação de amor e ódio com a internet, na mesma medida em que ela me adoece, me traz também acessos.
E também pessoas que eu tenho ao meu redor, assim, eu me sinto muito bem cercada, assim, por pessoas muito lúcidas, muito interessadas em sempre estar aprendendo. Os movimentos sociais estão sempre em movimento. E eu venho de um lugar assim de família, mas também talvez universitário, no sentido de buscar sempre a politização, assim. Eu aprendi isso muito no espaço universitário.
E musicalmente, o que te influencia?
O que eu vinha ouvindo bastante nos meses que antecederam essa “intensão” de estúdiomuito BaianaSystem, bastante Manu Chao, voltei a ouvir aquele álbum Clandestino (1998), que anos atrás havia me pegado e de repente voltei a escutar bastante. Revisitei alguns trabalhos que me influenciaram na juventude, Nação Zumbi. Eu gosto muito dessa banda Hiatus Kaiyote, de New Soul, mas eu acho que a música preta como um todo.
A música negra sempre foi, assim, um norte muito grande, por causa da história mesmo da minha família. Meu avô foi fundador da banda Black Rio, o meu pai é atualmente a liderança do projeto. Então, desde muito cedo eu tive essaa influência,
Vamos falar sobre as letras. Você não evita nenhum assunto ali mas, ao mesmo tempo, tem um toque de humor. Equilibrar essas duas abordagens ajuda a mensagem a ir mais longe?
Eu acredito que sim. Primeiro porque, na minha vida pessoal, o humor está sempre permeando tudo. É quase que minha maneira de encarar a vida. É um mecanismo de sobrevivência.
Eu procuro olhar as coisas de forma que eu possa rir das minhas próprias tragédias.
E a escolha de trazer isso para o meu som vem de dois lugares: m é entender o humor como uma ferramenta de aproximação. Quando você aborda um assunto espinhoso ou denso, mas você traz alguma camada seja de ironia ou de sarcasmo para aquilo, essa ferramenta do humor tem um poder de conexão forte assim com as pessoas. E todo mundo gosta de rir.
As pessoas tendem a parar e prestar um pouco mais atenção naquele discurso ou naquela história, se existe algum alívio cômico ou se existe algum respiro mesmo que o riso é capaz de trazer. Eu acho isso revolucionário. Segundo por isso assim, porque eu trago muito na minha vida pessoal essa coisa.
E sobre as redes sociais? Quando você percebeu que podia ser uma ferramenta importante?
Eu percebi quando o primeiro vídeo viralizou assim, acque era da Christiane Torloni. E era um um um vídeo assim bem simples dela falando: "Somos amigas, somos irmãs, somos mulheres".
Na hora que eu percebi que tava rolando ali uma linguagem que as pessoas estavam se interessando por eu eu falei: "Putz, tem alguma aqui.” E eu me diverti muito no processo. Então, quando eu percebi que eu tava me divertindo fazendo umas uma coisa que as pessoas estavam gostando, eu acho que eu eu senti que que era o começo de de de uma nova história.
Você fez um remix de uma fala do Flávio Bolsonaro com o Intercept, imagino que isso tenha gerado ataques. Como você lida com isso?
Eu não lido, porque não entro em contato. E no geral, esses remixes, essas colagens que eu faço, elas desempenham muito bem, mas isso não significa que são todos os vídeos, os remixes que eu faço que tem o mesmo nível de alcance.
Quando a gente tá falando de alcances como o deste que você tá citando, que teve um alcance muito massivo, é tanto comentário, que nem que eu quisesse eu daria conta de ler tudo. Então, quando eu digo que eu acabo não lidando, é porque eu não consigo ver a grande maioria das interações ali.
De modo que, seja por sorte ou sei lá, por algum motivo algorítmico que eu desconheça, o que chega para mim é felizmente muito mais reações positivas e comentários legais do que a gente me atacando ou qualquer coisa do tipo.















