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Livro prova que o punk é lugar de liberdade para a mulher, de Patti Smith ao Riot Grrrl 


Por:

Damy Coelho

Fotos: Divulgação/ Editora Barbante, Reprodução Michel Putland

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A (segura este currículo) jornalista, música e professora-adjunta de punk e reggae na New York University, Vivien Goldman, se encubiu de uma missão quando estava prestes a completar 70 anos: traçar uma história do punk reivindicando o lugar das mulheres como protagonistas. Esta é a premissa do mais recente livro da britânica, Revenge of the She-Punks... (2019) lançado no Brasil em 2025 como A Vingança das Punks: Uma História Feminista da Música, de Poly Styrene ao Pussy Riot, pela editora Barbante, com tradução de Emanuela Siqueira.

Para Vivien, o movimento punk era/é espaço proflíco para mulheres e pessoas queers expressarem suas identidades e se manifestarem politicamente. Isso porque, entre garotos brancos de origem abastada que faziam um som, também havia minorias que queriam levantar suas vozes. Ela mesma foi parte dessa minoria quando começou a frequentar shows nos anos 1970; quando lançou suas faixas com inspiração na cena dub londrina e, posteriormente, quando passou a escrever sobre música para a NME.

Logo notou que a cena musical estava envolta por homens que escreviam sobre outros homens. Para eles, mulheres não gostavam de música. Mas Vivien sabia que não era verdade. Então, passou ela mesma a cobrir bandas femininas e documentar uma história feminista do movimento. Buscou inspiração em outras pioneiras que não necessariamente se fincaram no movimento punk, mas que carregavam essa essência por se posicionarem à frente de um cenário machista e opressor, de Debbie Harry, do Blondie até a, veja só, Madonna.

Foi a partir desse mix de experiências dentro da cena que Viven começou a pesquisa, desembocando no livro em questão — um ensaio pautado em entrevistas e arquivos da autora. Entre os quatro capítulos, que refletem sobre identidade, dinheiro, amor e protesto numa perspectiva feminista do punk, tem até o relato de uma voltinha que a autora deu com Patti Smith por uma loja de roupas nos anos 70, passando por histórias de bandas como ESG e Splits. Todos os capítulos, aliás, acompanham playlists temáticas.

Em bom português

Como boa britânica, Vivien tem um humor peculiar que transparece na escrita — um desafio que a tradutora Emanuela Siqueira tirou de letra.  “É uma loucura que eu tenha traduzido esse livro”, conta ela à Noize. Isso porque Emanuela já tinha a versão em inglês do livro, comprada em 2019, na loja de discos onde ela trabalhava. 

“É muito doido, porque eu sou tradutora, tenho mestrado em tradução e literaturas, trabalho com isso há muito tempo. Já traduzi, sei lá, Virginia Woolf, muita teoria feminista… Mas traduzir um livro de música, que é algo que você lê, pensa e escuta desde a adolescência, é outra história, né? Acho que a imersão fica meio mágica, meio aventuresca, sabe? Você está traduzindo coisas que já fazem parte de você — playlists que você conhece, discos que já ouviu inúmeras vezes", conta ela, compartilhando uma experiência que pode ser comum a outras leitoras: a de uma garota que cresceu sendo fã de punk.

Punk-latina

Ainda que não dê conta de traçar toda a história feminista do punk, que abrange múltiplos territórios e culturas, Vivien pincela bandas fora do eixo EUA-Europa, como a Fertil Miseria, da Colômbia. Em nossa troca de e-mails, a autora confessa a dificuldade em encontrar outros materiais de pesquisa.

Comento com ela sobre algumas bandas decisivas do punk brasileiro, como as Mercenárias. Vivien então me diz ser fã de outras brasileiras que revolucionaram nossa música em outros estilos, de Astrud Gilberto a Rita Lee.

A missão da autora, no fim das contas, é mais que louvável. A portuguesa Ana da Silva, dos The Raincoats, diz que percebeu que o punk era mesmo coisa séria quando soube que Vivien dava aulas sobre o movimento musical em uma universidade.

Antes tido como um som marginal, levou um tempo para que o punk fosse reconhecido como lugar de transgressão para romper com todo e qualquer status quo, seja político ou religioso. E Vivien Goldman, sem dúvidas, é bastiã dessa mensagem.

Confira nossa entrevista com a autora:

O que te motivou a escrever este livro? Como foi o processo de reunir essas memórias e mergulhar nos seus próprios arquivos pessoais?

Escrevi um texto para a Pitchfork em 2016, quando fizeram uma matéria sobre punk feminista. Os editores da University of Texas Press gostaram tanto que me ofereceram um contrato para expandir aquilo no Revenge of the She-Punks!. Então, mergulhei nos meus arquivos para meu novo livro, uma antologia de 25 anos do meu período como jornalista musical, chamado Rebel Musix, Scribe on a Vibe.

Já o Revenge of the She-Punks começou como uma ideia — queria provar que o punk ia muito além do eixo dominado por homens do CBGB's e que a maior importância do movimento foi ter criado um espaço para mulheres musicistas que gerial a própria carreira, literalmente pela primeira vez na história.

Então, em vez de usar meu arquivo, busquei artistas mulheres de vários países, usando o YouTube e também minhas conexões pessoais. O mais surpreendente no processo foi perceber o quanto eu estava irritada ao constatar que, não só na música, mas em todas as artes, as mulheres nunca tiveram uma chance justa, e que fomos reprimidas criativamente (assim como financeiramente) desde os tempos em que a Deusa era cultuada — há muitos e muitos séculos!

O equilíbrio de gênero nas artes ainda está dolorosamente longe do ideal, mas certamente melhorou desde quando comecei, em meados dos anos 1970. Eu percebo isso especialmente nas artes visuais.

Você não viveu o punk apenas como ouvinte, mas como parte ativa da cena — escrevendo, tocando, pesquisando, documentando. Como essa experiência moldou sua perspectiva crítica ao longo das décadas? O que mudou e o que permaneceu?

Muita coisa mudou. Quando eu escrevia regularmente sobre música, não havia “cordões de isolamento”. Escritores e músicos faziam parte do mesmo time. Toda a minha escrita foi moldada por fazer parte de uma comunidade artística junto com músicos, alguns dos quais me incentivaram a cantar além de escrever.

Ao longo da sua carreira, você acompanhou de perto cenas emergentes que depois se tornaram "canônicas". O que o tempo te ensinou sobre quem é lembrado na história e quem costuma ficar de fora?

A internet mudou tudo, e agora artistas antes obscuros conseguem reviver suas carreiras porque podem alcançar seu público de nicho com mais facilidade. (Eu sou uma delas!) Eu vivi o período pop após o pós-punk, nos anos 1980, quando, no Reino Unido, artistas mulheres eram frequentemente apagadas da história… mas, com o tempo, suas contribuições começaram a ser reconhecidas.

O livro conecta o punk a questões de gênero, etinia e política que ainda são extremamente urgentes hoje. Ao olhar para artistas contemporâneos e novas cenas, você sente que a “vingança dos punks” finalmente está acontecendo?

La luta continua! Acabei de ver que as as meninas do Blackpink fizeram uma parceria com a Disney para criar uma linha de roupas punk... então, o punk virou parte do vocabulário cultural global, mediado por um gênero altamente controlado pela indústria.

Mas isso não significa que a música agora seja um campo igualitário para as garotas. Ainda precisamos continuar pressionando.

Por que você vê o punk como uma plataforma tão vital para a expressão das mulheres? E quais critérios orientaram a seleção das músicas para a playlist que acompanha o livro?

O punk abriu a porta para mulheres musicistas, já que era voltado para outsiders e rebeldes. Antes do punk, havia pouquíssimas artistas mulheres (fora do folk e do jazz) que tinham verdadeiro controle sobre seu som, sua imagem e sua estética.

Já sobre a playlist, fui simplesmente escolhendo minhas músicas favoritas das artistas sobre as quais escrevi. Ela é estruturada em torno de faixas específicas — as músicas que eu mais gosto.

Você já teve a chance de explorar a música brasileira ou cenas punk do Brasil?

Sou uma grande fã da música brasileira, especialmente da época em que cresci. Minha irmã mais velha comprou um LP de sucessos da Astrud Gilberto, e ela continua sendo extremamente importante para mim. Meu single "Launderette" tem uma pegada de samba por causa da percussão de Robert Wyatt.

Quando componho, geralmente acabo indo para uma atmosfera de samba/bossa nova — esse é meu ritmo interno padrão. E eu gosto d'Os Mutantes!

Há alguma fase do movimento punk que você considera especialmente efervescente do ponto de vista feminista? Além do Riot Grrrl, é possível falar também da cena atual?

Talvez sem surpresa, tenho um carinho especial pela cena do Reino Unido da qual fiz parte. Eu já era jornalista musical antes do punk começar, e aquilo era totalmente um “clube do bolinha”. Meus colegas de redação, cheios de desdém, desprezavam mulheres fazendo música e não queriam cobrir isso — mesmo quando eu já tinha me tornado editora de reportagens!

Ainda assim, uma geração forte abriu caminho à força… gente como The Slits, The Raincoats, Delta 5. Foi uma mudança cultural sísmica cuja energia ainda me move hoje.

*A Vingança das Punks: Uma História Feminista da Música, de Poly Styrene ao Pussy Riot, pela editora Barbante. Saiba mais sobre o livro aqui.

Por:

Damy Coelho

Fotos: Divulgação/ Editora Barbante, Reprodução Michel Putland

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