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O que a Baiana tem? Roberto Barreto revisita as origens do BaianaSystem


Por:

Giulia Cardoso

Fotos: Reprodução

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*por Roberto Barreto

“É um privilégio, em qualquer lugar do mundo, ter um instrumento criado, projetado e produzido em um determinado local, que seja utilizado para expressar sua música, criando com isso uma sonoridade específica, que traga elementos que ajudem a traduzir e contar um pouco da história desse lugar. Na Bahia, temos muitos exemplos, principalmente na área da percussão, de instrumentos que foram criados e/ou adaptados e que se incorporaram à cultura local, criando uma identidade. No geral, foram instrumentos que já existiam e que foram incorporados à nossa música, com exceção de um: a guitarra baiana".

Assim começava o texto “O que é que a Baiana tem?”, escrito em 2007, no início das minhas experimentações com um novo trabalho baseado na guitarra baiana, e que viria a se chamar BaianaSystem. Um projeto que partia de questionamentos e entendimentos de todo o universo que esse instrumento levantava na minha formação e memória musical. Esse mesmo texto acabou sendo um ponto de partida para o que fizemos no primeiro álbum de 2009.

E, nesse período, outra coisa me chamava a atenção: Ramiro Musotto. O músico estava viajando pelo mundo consolidando seu segundo álbum —o fundamental Civilização e Barbarye (2006) — baseado em sua pesquisa com percussão baiana e berimbau. Tanto no disco quanto no show, vale destacar a presença marcante de seu compatriota e amigo Mintcho Garramone, que tocava guitarra baiana de maneira incrível e acabou desenvolvendo um trabalho baseado no instrumento. Segundo as palavras do próprio Ramiro, um instrumento que “não era mais tocado em Salvador, com a exceção dos criadores do trio elétrico”.

Ele dizia: “Papito, no meu trabalho não entra guitarrão. Isso tem em todo lugar. Aqui só original: berimbau e guitarra baiana!”. E, aqui, vale uma breve explicação, só pra situar: “guitarrão” é uma expressão usada na Bahia para identificar a guitarra elétrica e diferenciar da guitarrinha, ou guitarra baiana, como depois passou a ser chamada esse cavaquinho elétrico que é afinado como um bandolim. 

Considero o trabalho de Ramiro essencial e revolucionário para a música produzida na Bahia. Sua mistura de instrumentos orgânicos com impecáveis bases e programações eletrônicas e sua visão e confiança na importância da guitarra baiana nesse contexto, abriram um novo caminho. Comecei a tocar com ele e fizemos alguns shows onde o papel da guitarrinha crescia cada vez mais. Nesse período, as novas composições que vinha fazendo com toda essa referência estavam se maturando e chegamos a tocar algumas das faixas que estariam no disco BaianaSystem num histórico carnaval em 2009 com o trio elétrico da Afrosudaka, que era a orquestra percussiva de Ramiro.

Quando o BaianaSystem começa a tocar o disco de estreia ao vivo, em seus primeiros shows no Pelourinho, Teatro Vila Velha, carnaval e, logo em seguida, uma inusitada viagem para a China, começamos a perceber que a guitarra baiana, assim como a máscara e a forma com que Russo cantava e achava espaços no diálogo com ela, trazia uma identidade e aproximava as pessoas daquele universo. Tínhamos então um desafio crescente de dar credibilidade e novas sonoridades à guitarra baiana dentro daquele ambiente que estávamos construindo sem que isso se tornasse necessariamente uma bandeira. A partir do momento em que conseguíssemos dar naturalidade ao fato de estarmos usando um instrumento com tanta tradição num trabalho autoral que dialogava com pop, reggae, eletrônico, trazendo-o para um novo cenário de música que vinha sendo produzida em muitas partes do mundo, conseguiríamos preservar verdadeiramente sua história. 

A guitarra baiana foi efetivamente meu primeiro instrumento (na verdade, foi um cavaquinho já devidamente afinado como tal) e sua característica essencialmente melódica ajudou a construir uma linguagem e um sotaque bem próprios que, acredito, fez parte da formação de muitos guitarristas daqui. Essa linguagem vai além do instrumento em si e passa por elementos fundamentais da música brasileira como o chorinho, frevo, samba e baião. Voltando aos questionamentos do inicio do texto e pensando sobre a contribuição desse e de qualquer outro instrumento para sua cultura, entendo que as experimentações e mudanças de paradigmas são essências para mantê-los vivos, evolutivos e distantes de um lugar somente no museu. O movimento os torna transformadores e recriadores de sua cultura.                                                             

Por:

Giulia Cardoso

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