
O Brasil tem uma relação estreita com o reggae, desde estados mais tradicionalmente reconhecidos pelo estilo musical, como Maranhão (a capital nacional do reggae), Bahia e Pará –, e, mais recentemente, por São Paulo, que concentra a maioria dos principais shows do circuito. Agora, o Rio de Janeiro entra de vez nessa história, especialmente com a participação do lendário Ranking Joe nos 25 anos do Digitaldubs, no sábado (5/9), e no show do BaianaSystem no Rock In Rio, no domingo (6/9).
O jamaicano Ranking Joe é pilar fundamental do reggae desde os primórdios do movimento, seja como deejay (toaster), cantor ou produtor.
Neste 2026, Ranking Joe e Digitaldubs (com sound sSystem completo) vão repetir a dobradinha que dá certo há 20 anos Celebrando este momento, a Noize teve a chance de conversar com Marcus MPC (Marcus Vinicius) — produtor e DJ que fundou o DigitalDubs em 2001 — e com o próprio Ranking Joe. Aproveite o privilégio para dar uma espiada neste papo:
MPC, a conexão de vocês com o Ranking Joe começou em 2006. O que muda na pressão e na dinâmica do sound system quando vocês têm no controle do microfone um mestre que vivenciou os anos de ouro de Kingston?
Eu e o Ranking realmente criamos uma sintonia e confiança, tocando juntos diversas vezes. Isso torna a apresentação única, com muita abertura, improvisação e espontaneidade. E o Ranking por toda história dele, faz o lance ser uma viagem no tempo de estilo original dos anos 70 até as coisas mais atuais, mirando no futuro.0
Ranking Joe, o que você encontrou no Rio de Janeiro e na cultura de rua carioca que mais se assemelha à energia e à resistência das periferias de Kingston?
O Brasil ama música.
Quando estou no Brasil, sinto como se estivesse na Jamaica, porque você recebe a vibração das pessoas e o sound system do Digitaldubs cria aquela atmosfera, sabe?
Quando tocamos em um grande sound system que proporciona a vibração, assim como os grandes sistemas de som de Kingston, com aquelas grandes caixas e alto-falantes.
E as pessoas no Brasil sempre me demonstram amor e dão boas vibrações. Nós temos o Digitaldubs, temos boas vibrações, porque temos uma boa história de gravações, com “Fya Bun”, um grande sucesso!
E temos um novo lançamento chegando agora, sabe? (O single “Wicked Ago Feel It” (1984), que saiu em 29 de agosto em vinil compacto e streaming.)
MPC, na tradição jamaicana de estúdios como o Channel One, os produtores moldavam o riddim [uma base instrumental que se repete para várias canções de diferentes artistas] para o peso da voz do deejay. Como vocês lidaram com a engenharia de produção para conciliar as linhas digitais modernas com a metralhadora de sílabas do Joe?
O Ranking nunca parou no tempo, sempre esteve conectado com as novas gerações e foi se reinventando, ao mesmo tempo que mantém a essência original. Quando gravamos “Fyah Bun Dem” [de 2011], tudo fluiu muito naturalmente. Depois, virou hit e isso nos deixou animados pra gravar mais juntos.
Agora estamos lançando “Wicked Ago Feel It”. A gravação estava guardada há alguns anos, mas já tocávamos como dubplate nos bailes. Sei que estamos lançando no melhor momento.
Ranking Joe, além de estar à frente do microfone, você tem uma sólida carreira como produtor e trabalhou no lendário estúdio de King Tubby. Como sua perspectiva de produtor influencia sua performance ao vivo?
O sound system ajuda a moldar você como produtor, sabe? Porque você precisa produzir a música que sente que as pessoas querem, o tipo de batida que está em alta naquele momento. Ou você pode pensar à frente e dizer: “ah, vou fazer alguma coisa que eles vão gostar de dançar”.
Mas o sound system é a chave! O sound system é a chave para tudo, porque grandes produtores como Coxsone, Duke Reid, até Junjo, Channel One…. todos eles tinham um sound system, e o sound system também servia para promover a música.
As estações de rádio não podiam fazer esse tipo de coisa. Naquela época, as rádios tocavam mais música uptown ou R&B e coisas desse tipo, enquanto os jovens da periferia tinham o sound system.
Aproveitando, MPC, o sound system é uma ferramenta de união comunitária e resistência cultural. Olhando para a trajetória do coletivo nessas duas décadas e meia, qual foi o maior impacto social que o Digitaldubs cravou na cena musical brasileira?
Acho que nas produções musicais ajudamos a difundir várias linguagens da música jamaicana aqui no Brasil. Por exemplo, nosso primeiro álbum Brasil Riddims (2001) foi o primeiro que tenho notícia que usou o conceito de riddims produzidos no Brasil. Também ajudamos a conectar com a cena internacional do reggae e dub, tanto produzindo parcerias com artistas jamaicanos, e de vários países, ou indo tocar fora, ou ajudando a trazer artistas e sound system para o Brasil pela primeira vez.
Acho que também conseguimos imprimir uma personalidade nossa nas produções e na forma de tocar, com elementos brasileiros misturados sem forçar a barra.
Hoje em dia o que eu mais gosto de fazer é tocar nas nossas caixas, nosso sistema, e fazer a conexão direta com o público.
Ranking Joe, como você avalia o papel do Digitaldubs na manutenção da conexão do reggae de Kingston com a América do Sul?
O futuro é brilhante! A música cresceu ao longo dos anos, desde quando o Digitaldubs começou, e tudo cresceu. E a cultura sound system se espalhou por toda parte, na América do Norte, na América do Sul, em países como Peru, Chile, México e Colômbia.
E o Digitaldubs representa isso. Representa o original rub-a-dub, as raízes jamaicanas, a cultura dancehall. Quando se trata de roots, cultura e tudo mais, eles conseguem ver que é uma vibração Rasta, uma inspiração, sabe?
Estou ansioso para celebrar os 25 anos do Digitaldubs.Um grande salve para todos de São Paulo e Rio de Janeiro. O original bang-diddle-bang-bang-diddle-bang-bang... Boom!
Digitaldubs Sound System + Ranking Joe
Dia 05 de setembro
Local: Praça XV
Horário: 23h às 5h (ao lado da estação do VLT)














