O Sonho da Vírgula | Chico César: poeta na música e na página


Por:

Lucas Krüger

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vejo dor de gente adulta no invisível que se avulta e na vulva das quimeras vejo oitocentas megeras disputando um consolo catapio e fura-bolo velam o cadáver do cão alaúde e violão cadenciando o embalo enxergo tudo e me calo não vejo minha paixão Poema 61, de Cantáteis (1995) Dispensarei apresentar a carreira musical de Chico César. Vamos direto ao ponto: A beleza de suas composições e de sua voz bebem (e sempre beberam) poesia. A arte poética se faz presente em toda boa música, mas Chico César não se contentou apenas em cantá-la loansonlineusa.net. Foi além e publicou-a em livro. E tudo isso começa, justamente, pelo começo, quando Chico recém estava lançando o primeiro disco. Jornalista de formação, já tinha a escrita enraizada em si. E, em 1995, lança concomitantemente o disco Aos vivos e o livro Cantáteis: Cantos Elegíacos de Amozade. [youtube https://www.youtube.com/watch?v=QlXD1BDiZCk] "Beradêro", Chico César. Versão de 2011, originalmente lançada em 1995. "Beradêro" abre o primeiro disco de Chico César como quem diz: ''sou poeta''. Poema cantado à capela, "Beradêro" coloca o cordel nordestino na ponta de sua língua, sem deixar de homenagear sua cidade Natal, Catolé do Rocha-PB, e incluir belíssimas percussões vocálicas. Aliás, a literatura de cordel é o que alicerça seu primeiro livro de poemas, escrito em 1993, mas publicado também em 1995. Cantáteis bebe na tradição nordestina e na poesia concreta, é caseiro e cosmopolita, transitando na aridez e na tecnologia. Numa vertigem de imagens, o livro consolida-se em 141 poemas e uma belíssima edição ilustrada. eu pra cantar não vacilo digo isso digo aquilo digo tudo que se disse digo veneza recife fortaleza que se abre quero que o mundo se acabe se não disser o que sinto digo a verdade, minto vertente me arrebata minha voz é serenata labareda e labirinto Poema 2, de Cantáteis (1995) Curiosamente, a dobradinha de lançamentos disco-livro se repete 20 anos depois. Em 2015 saíram o disco Estado de Poesia e o livro Versos Pornográficos. Quanto ao disco, o título já indica a preocupação poética de Chico, que inunda-o de belas canções, aliadas a um refinado trato da palavra. [youtube https://www.youtube.com/watch?v=y38sxf9aJcs] "Caracajus", Chico César (2015) Versos Pornográficos traz uma poesia adornada feito musa mulher mas, essencialmente, crua como a pele. Neste livro, o ato sexual se coloca em primeiro plano e apenas alguns poucos poemas desviam dessa diretriz. Deixarei para que procurem por conta os poemas mais explícitos, e abaixo vai um poema mais voador: margarideise onde flores butterflies bater asas meu coração vai Poema ''o voo'', de Versos Pornográficos (2015) Chico César, um poeta na música, um artista da palavra. Resta-nos esperar para ver em que formato se manifestará a sua poesia no futuro. Lucas Krüger é psicólogo, psicanalista e poeta, autor do livro O sonho da vírgula (2015): www.lucaskruger.com | arteseecos@lucaskruger.com
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