
A Bárbara já havia sido uma musa para você no Estado de Poesia, correto? Correto, quase todas as músicas do Estado de Poesia são escritas pra ela, com exceção da própria "Estado de Poesia", que é anterior e já havia sido gravada por Maria Bethânia e tem aquelas que obviamente não seriam pra ela, como "Reis do Agronegócio", "No Sumaré", que conta a história de dois caras, um casal homoafetivo que morava aqui perto de casa. Todas as outras canções foram escritas pra ela. Muitas vezes a gente tinha se encontrado, ela voltava pra casa dela, e eu mandava um email com a letra da música. No dia seguinte, eu já estava com a música gravada com voz e violão. É uma relação que tem esse atrito artístico e amoroso que é muito fértil, muito potente. Como é a sua relação com uma musa e como você se sente agora, dividindo o palco com ela? Essa situação da musa para uma parceria é algo muito benéfico pra mim, é uma evolução da própria relação. Isso continua, e de um modo muito mais profundo, sendo muito estimulante, pra mim, como criador, poder viver um novo patamar da relação de criatividade. Ali, com os dois trocando, não há mais o passivo, é a atividade de dois criadores. No texto de apresentação do show Camaradas, você fala na poesia enquanto manifestação da libido. Penso que a poesia está muito ligada à liberdade. E liberdade e libido são substantivos muito próximos. Acho que a liberdade é essencial pro exercício do prazer, da vontade, do desejo do indivíduo, e também dos desejos coletivos, das utopias coletivas. A libido é essa potência revolucionária. Quando, em outubro de 1917, na Rússia, uma multidão vai para as ruas e toma as estruturas arcaicas, isso é libido. Quando você reúne em torno de Antônio Conselheiro, em Canudos, várias pessoas que antes estavam submetidas a senhores de terras, isso é libido. É desejo de prazer, de gozo, às vezes de transcendência religiosa, que também está próxima disso, é também libido. O corpo enquanto espaço simbólico de ressignificação de valores é um dos pontos que você tem abordado muito. Como a arte pode ajudar a dissolver medos e tabus que existem sobre essa coisa tão básica da vida que é o corpo? No meu primeiro disco, Aos Vivos (1995), tem uma canção que se chama "Mulher Eu Sei", que diz: "Já fui mulher, eu sei". Esse trânsito, que é trânsito e é também transe e é também transa, existe na psique de toda pessoa. E, na arte, você é menino e pode fazer papel de um velho, é mulher e pode fazer papel de uma aranha, a arte é o espaço em que nós podemos ser o que quisermos. Nesse sentido, a arte e a sexualidade, que também é um local onde nós podemos ser o que nós quisermos, isso tudo vai junto. Tá muito próximo. Eu percebo que não é uma coisa de agora, no meu primeiro disco eu coloco essa questão do trânsito de um corpo masculino pra feminino e vice-versa. Isso é algo que acontece muito naturalmente na minha manifestação artística e encontrou eco de uma forma surpreendente no show, à medida em que recebemos esse convite do Camaradas.
No texto de apresentação do show, você também cita o conceito de "arteamor / amorarte". Como você se sente enquanto vetor desse sentimento para o público? Nós fomos buscar inspiração em Lennon e Yoko desde o momento em que nos encontramos e quisemos deixar isso mais claro nas fotos na cama, reverenciando e fazendo referência ao Bed In. Quando você junta um casal, isso pode ser muito potente, cada um de nós tem sua própria força, mas quando junta.... Começo a me lembrar de outros casais, Rita Lee e Roberto de Carvalho, que também tinham um componente de sensualidade e amorarte muito forte, Jorge Mautner e Nelson Jacobina, que também sempre tiveram isso na relação deles. Tem muito disso, quando os artistas se juntam sempre tem essa força. Acho que amorarte é isso, quando dois, três, oito se encontram. Todo trabalho de grupo acaba sendo um trabalho de amorarte. Às vezes você passa mais tempo com as pessoas com quem você produz do que com a sua própria família. No nosso caso, a felicidade reside em que nós somos a nossa própria família.






