Olivia Rodrigo

O punk rock feminista nunca foi tão mainstream graças a Olivia Rodrigo


Por:

Damy Coelho

Fotos: Reprodução/Daisy Chain Fields Festival

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Nos últimos dias, as redes foram tomadas por vídeos do Daisy Chain Fields Festival — famoso como “o festival da Olivia Rodrigo”, que rolou no sábado (29/8). Com um line-up 100% feminino, o palco do evento recebeu nomes relevantes da cena pop atual, como Chappell Roan, Doechii, Mitski; mas, especialmente, reiterou a importância de gerações anteriores que pavimentaram caminhos: é o caso de Alanis Morissette, Bikini Kill, Garbage e até a musa soberana Stevie Nicks

Elas e outros nomes como Sarah McLachlan (com quem Olivia fez uma linda homenagem a Dolly Parton) toparam de prontidão o convite de Olivia, mostrando a relevância que a artista tem no mercado musical, sendo um nome, como poucos, capaz de agradar diferentes gerações. Mas o principal ainda estaria por vir: toda a renda do evento — mais de 10 milhões de dólares — foi revertida em doações para instituições que protegem os direitos de mulheres, como Planned Parenthood e a National Domestic Workers Alliance. 

Entre cancelamentos — como o de Karen O, líder do Yeah Yeah Yeahs, que participaria do show da cantora e foi prontamente substituída por Alanis —, o festival fluiu muito bem, apesar do calor que assola o sul da Califórnia com o El Niño. Mais de 45 mil pessoas lotaram o Great Park para ver as 14 atrações. Alguns dos momentos mais marcantes ficaram com Olivia dividindo o microfone com Alanis Morissette em “Ironic” e com Stevie Nicks em “Landslide”. No palco, Stevie brincou: “Olivia se parece um pouco comigo quando eu tinha a idade dela... há cem anos”.

Olivia Rodrigo fechou o line em grande estilo cantando os sucessos de seu novo disco, You Seem Pretty Sad for a Girl So in Love, acompanhada pela multidão. “Isso parece um sonho”, disse ela no palco. “Esse é o melhor dia da minha vida”. Vendo tudo o que o festival conquistou, entre a celebração da girlhood na plateia e o encontro de mulheres poderosas no palco, para além do movimento social que o evento impulsionou, não tenho dúvidas de que ela estava sendo sincera.

Do jeito dela

Desde SOUR, de 2021, todos os lançamentos de Olivia Rodrigo são sucesso. O disco mais recente estreou em 1º lugar na Billboard 200, por exemplo. A cantora também investe na mídia física, o que, no caso dela, não parece efeito de modinha: a persona de Olivia Rodrigo é a de uma jovem muito ligada a seu tempo, mas que, especialmente, soube olhar para trás e trazer referências sonoras e do mercado musical dos anos 90 em sua obra, sem que soasse nostálgica ou com cheiro de naftalina.

Idealizar um festival como o Daisy Chain Fields, que traz à tona o protagonismo feminino, é um passo coerente de uma cantora que sempre se posicionou em favor dos direitos das mulheres. Em 2022, Olivia pegou seu microfone durante o megafestival Glastonbury e se manifestou contra a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos de retirar a proteção constitucional ao direito ao aborto: “Muitas mulheres vão morrer com isso”, lamentou a cantora. Ela dedicou a música “Fuck You”, que apresentou ao lado de Lily Allen, aos cinco ministros que votaram pela derrubada da proteção constitucional ao aborto.

Recentemente, Olivia também lançou “Serena Joy”, faixa que leva o nome de uma personagem de O Conto da Aia, de Margaret Atwood. Na narrativa, Serena Joy ajuda a construir um regime que controla a reprodução e tira das mulheres o direito sobre seus próprios corpos, mas acaba também sendo vítima desse sistema.

“Não acho que exigir que mulheres e meninas estejam seguras e tenham autonomia sobre seus próprios corpos seja uma ideia radical”, disse Olivia ao Los Angeles Times. “Fui criada por pais que me incentivaram a acreditar nisso.”

Feminismo de ontem e hoje

Até mesmo a decisão de apoiar instituições que protegem direitos reprodutivos de mulheres mostra um aceno de Olivia àquelas que vieram antes dela: Kathleen Hanna, patrona do movimento Riot Grrrl, foi voluntária em um centro de atendimento a vítimas de estupro, experiência que ajudou a moldar sua atuação feminista. Não à toa, o Riot Grrrl nasceu ligado na defesa dos direitos das mulheres, levando para seus zines discussões sobre misoginia, assédio e autonomia das mulheres.

McLachlan também inspirou Olivia ao idealizar, ainda nos anos 90, o Lilith Fair, festival itinerante do fim dos anos 1990. Criado como resposta à resistência da indústria em colocar mulheres em grandes festivais, o evento se tornou um fenômeno comercial, além de arrecadar US$ 10 milhões para instituições voltadas às mulheres.

Durante o Daisy Festival, uma outra mulher influente, a cientista Melinda Gates, dobrou a aposta e doou mais 10 milhões de dólares ao evento. Esses valores, longe de serem irrisórios, ganham outra dimensão quando lembramos dos anos 90, quando tudo era mato e mulheres como Kathleen Hanna, McLachlan ou Courtney Love pavimentavam caminhos pelos direitos das mulheres e pelo direito próprio de pegarem suas guitarras e fazerem rock, ainda que fossem descredibilizadas. Antes tínhamos elas; hoje, a geração atual pode ter outros exemplos de mulheres que lutam para que outras também possam brilhar.

“Quando mulheres e meninas se unem para sonhar e liderar, nós mudamos o mundo. E, muito depois das luzes deste festival se apagarem, as organizações que realizam este trabalho continuarão a fazê-lo porque vocês estão aqui”, disse Olivia Rodrigo durante seu próprio festival. 

Olivia tem como referência uma tradição de ativismo feminista que passa pelo Riot Grrrl, mas consegue levá-la a uma escala mainstream que aquelas artistas não tinham — usando sua audiência para colocar outras mulheres no palco e transformar sua visibilidade em apoio direto a causas feministas.

Assim, a exemplo de suas precursoras, Olivia apresenta para uma nova geração uma história de irmandade que começou antes dela — a de mulheres que entenderam que música também pode ser ferramenta de mobilização, liberdade e, por que não, uma forma de mudar a realidade em que vivem.

Por:

Damy Coelho

Fotos: Reprodução/Daisy Chain Fields Festival

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