
Foi nos bastidores de um show de Paulinho da Viola que o sambista e Marisa Monte se conheceram. Quem os apresentou foi o engenheiro Carlos Monte, pai da artista e diretor cultural da Portela. A escola é uma das paixões da dupla. Assim como Paulinho, que produziu o primeiro disco da Velha Guarda – Portela, Passado de Glória (1970) –, Marisa gravou Tudo Azul (2000) com músicas das décadas de 1940 e 1950.
“Muitas canções estavam presentes somente na tradição oral, na memória dos antigos bambas. Eu queria salvá-las do esquecimento”, conta Paulinho da Viola. Muita água rolou desde então, incluindo dividir os holofotes em 2025, quando desfilaram na escola mirim Filhos da Águia, que os homenageou com o enredo Quando penso no futuro, não esqueço o meu passado.
Em sua discografia, a cantora gravou três composições do amigo – “Para Ver As Meninas”, “Dança da Solidão” e “Para Mais Ninguém”. Em 2017 fizeram a turnê Paulinho da Viola Encontra Marisa Monte e também compuseram, junto de Arnaldo Antunes, “Talismã”, faixa gravada no disco acústico de 2007.
Sobre a admiração mútua, a artista revelou à Rolling Stone, em 2023: “Somos reverentes ao passado, gostamos de história. Um dos maiores prazeres foi passar algumas tardes ouvindo LPs na casa dele. Ele tem uma discoteca incrível e é um grande DJ".
O amor pelo Carnaval vem de outros tempos: na adolescência, ele fundou o bloco Foliões da Rua Anália Franco, na Vila Valqueire, bairro da sua tia Trindade. Ao tomar conhecimento do talento do músico, a escola União de Jacarepaguá o convidou para participar da agremiação.

Em 1964, Oscar Bigode – primo do cantor e mestre de bateria da Portela – o convidou para conhecer a sede da escola. Já no dia seguinte, o sambista apresentou a primeira parte de “Recado” a Casquinha e outros bambas, como Monarco e Candeia.
Incorporado à ala de compositores, em 1966, Paulinho teve um samba defendido na avenida: “Memórias de Um Sargento de Milícias” – baseado no romance de Manuel Antônio de Almeida – venceu o desfile e recebeu nota máxima. Mas foi em 1969 que o artista compôs a canção que marcaria para sempre seu nome na história: “Foi Um Rio Que Passou Em Minha Vida” foi eternizada como hino da Portela. Em 2017, com enredo inspirado na letra, a escola foi campeã e quebrou o jejum de 33 anos.
Caneta de ouro
Nascido em Botafogo, Paulo César Baptista de Faria foi influenciado pelo pai, Benedicto César Ramos de Faria, que, além de funcionário público, tocava violão em um dos grupos mais importantes da história do choro, o Época de Ouro. Nas reuniões, tinha contato com Pixinguinha, Dilermando Reis e Jacob do Bandolim. Anos mais tarde, passou a acompanhar Paulinho como violonista na sua banda.
Embora o pai ansiasse que o filho não seguisse esse caminho, não teve jeito, pois ele logo se interessou pelo violão e aprendeu a tocar o instrumento pelo método Matteo Carcassi e nas aulas de Zé Maria, zelador do prédio onde a família vivia. Em paralelo, estudou economia e foi bancário.
Neste período, conheceu o produtor musical Hermínio Bello de Carvalho, que o conectou a Cartola, Zé Kéti e Nelson Cavaquinho. Conforme a amizade se estreitou, a dupla fez suas primeiras parcerias: "Duvide-o-dó" e "Valsa da Solidão", gravadas por Isaurinha Garcia e Elizeth Cardoso.
Hermínio foi o responsável por levar o artista ao Zicartola, restaurante de Cartola e Dona Zica no Centro. Por lá, recebeu o primeiro cachê como músico das mãos do autor de “O Mundo É Um Moinho”: era o valor da passagem para casa.
Também foi ali que ganhou o nome artístico. Paulo César soava genérico, então o compositor Zé Keti e o jornalista Sérgio Cabral propuseram que adotasse o diminutivo e incluísse o instrumento como sobrenome. Nascia assim Paulinho da Viola.
Na segunda metade da década de 1960, estreou no mercado fonográfico como integrante do A Voz do Morro. Ao lado de Elton Medeiros fez o disco Samba Na Madrugada (1966) e, chegou gravou solo 16 discos. Os anos 1970 foram seu período áureo: lançou o homônimo de 1971, Dança da Solidão (1972), Nervos de Aço (1973) e Chorando e Cantando (1976). Também se destacam, nas décadas seguintes, Eu Canto Samba (1989) e Bebadosamba (1996).
Enquanto letrista, bebe da tradição do samba, mas também escreve sobre questões de sua época. Versa sobre desilusões amorosas, questões raciais, marginalidade e injustiças. Na sua obra, uniu referências do choro e do samba de morro com influência da bossa nova. Além de composições autorais, registrou parcerias com Elton Medeiros e José Carlos Capinam, e interpretações de Cartola, Lupicínio Rodrigues, Candeia e Nelson Cavaquinho.
O que o diferencia é o registro doce da voz, direcionado aos tons agudos. Mesmo com sua timidez e introversão, imprimiu um caráter sofisticado nas suas gravações. Atravessando gerações, ganhou o respeito pelos pares, contemporâneos – Chico Buarque, Elis Regina, Fagner e Maria Bethânia interpretaram suas canções – e novas gerações, sendo regravado por Criolo, Emicida e até Arrigo Barnabé.
Além de violonista, é um notável cavaquinista, com estilo bem característico. Alternando a ordem das palhetadas, o músico inaugurou uma escola: “É uma forma submetida à minha maneira de cantar e fazer divisões. É como um complemento e se associa ao que estou fazendo junto aos ritmistas que estão tocando comigo”, explicou em entrevista no canal Resistência Samba de Raiz, no YouTube.
Em 2026 completam-se 30 anos do último disco de inéditas, embora composições como “Sempre Se Pode Sonhar” – parceria com Eduardo Gudin – e “Ela Sabe Quem Eu Sou” tenham aparecido em discos ao vivo lançados posteriormente.
Sobre este artista que alcançou seu lugar no futuro, o crítico Tárik de Souza definiu em texto para fascículo da série História da MPB: “Paulinho da Viola revolucionou o samba, sem provocar hecatombes. Ao contrário, alterou os cânones do principal ritmo brasileiro, evitando desfigurá-lo”.
Hoje, aos 84 anos, o cantor mora com sua esposa, Lila Rabello – mãe de quatro de seus sete filhos –, no bairro do Itanhangá. A paixão pelo Vasco, a oficina de marcenaria e seu raríssimo Volkswagen Karmann-Guia de 1970 também habitam o imóvel, assim como os violões e cavaquinhos que dão voz a sua vasta obra que não perde o frescor.
No primeiro semestre de 2026, ele volta aos palcos com o show em que celebra suas oito décadas de vida, Quando O Samba Chama. Enquanto desfruta os eternos clássicos, o público segue sonhando com um novo álbum. “Um dia sai”, ele promete. As coisas seguem no mundo, e continuamos a aprendê-las com Paulinho.














