
Mais de 60 anos após seu lançamento, Embalo (1964), único disco solo de Tenório Jr., volta a soar como em sua primeira prensagem. A nova edição lançada pelo NRC+ preserva a mixagem original, em mono, mantendo a sonoridade e a textura que marcaram uma das obras mais importantes da era do samba-jazz.
“Estamos mantendo a originalidade de um material que foi lançado em mono. Não há registro de outra mixagem ou lançamento que tenha sido feito em estéreo”, explica Marcos Abreu, engenheiro de som do NRC.
Mas o que significa um disco em mono? Diferentemente do estéreo, no qual instrumentos e vozes são distribuídos entre os canais esquerdo e direito, o mono concentra todo o som em um único canal, de forma centralizada. É como se toda a música viesse de um ponto só, sem separação espacial.
Nos anos 1960, ainda que a tecnologia estéreo já existisse, o mono seguia sendo o formato mais utilizado nas gravações brasileiras. À época, a saída para garantir profundidade ao som era se valer de recursos espaciais práticos.
“Em alguns discos em mono, você consegue ouvir instrumentos mais à frente, outros mais ao fundo…Isso porque as gravações aconteciam com poucos microfones ou mesmo um só, e a mixagem era feita pela distância entre o instrumento e o microfone”, afirma Abreu.
Com o tempo, essa profundidade foi sendo aplicada de forma digital. Hoje, com inúmeros canais à disposição, é comum que os instrumentos sejam gravados separadamente, facilitando o trabalho de mixagem.
Assim, o ouvinte acostumado ao estéreo perceberá no mono uma experiência um pouco diferente no disco de Tenório Jr., com o som mais concentrado. Mas é importante ressaltar que isso não implica uma qualidade sonora inferior.
“Existe um charme em manter a originalidade da matriz: nada se perde no processo, já que o original é em mono.”
Marcos Abreu acrescenta: claro que um som estéreo impressiona mais, mas em relação à qualidade sonora, não há diferença”, garante Marcos Abreu.
O processo técnico de preparo do áudio e manutenção da autenticidade na nova edição de Embalo foi feito a partir de uma cópia do LP original, com ajuda de equipamentos da Cedar Audio, referência em tratamento sonoro.
“Foi feita a limpeza da forma mais conservativa possível, removendo clicks, ruídos e distorções que vieram da reprodução do disco. A meta é restaurar até o nível de ruído da fita original. Então podemos até ter um chiadinho de fita no fundo, mas ele está lá exatamente para preservar a informação integral da gravação”.
Para valorizar ao máximo a mixagem, Marcos Abreu recomenda ouvir o vinil em caixas acústicas, aproveitando a espacialidade da sala na qual o disco será reproduzido e a distância da escuta.
“Isso adiciona um ambiente extra, algo que fones de ouvido não reproduzem da mesma forma”, diz.
Ao resgatar Embalo em sua mixagem original, o NRC+ reforça o compromisso de preservar não apenas a música, mas a memória de Tenório Jr. Em mono, seu piano volta a ocupar o centro do palco, e sua arte volta a soar exatamente como foi criada.













