
Slipmami, NandaTsunami, Bia Soull e Barona são alguns dos nomes da cena do rap que estão colocando o prazer feminino como um dos protagonistas nas letras. Com lírica explícita, cenas descritivas e a satisfação feminina no centro, essas faixas são capazes de reforçar os desejos sexuais e fantasias femininas, além de ajudar outras meninas a entenderem mais sobre proteção e autoestima. A esse fenômeno, foi dado o nome de "rap putaria".
O sexo como temática no rap não é novidade. O assunto sempre foi abordado, principalmente do ponto de vista masculino - ou seja, a mulher era retratada como objeto de desejo ou para satisfazer o prazer masculino. Para a pesquisadora e diretora de comunicação do Museu do Hip-Hop, Nerie Bento, a mulher no rap, assim como na sociedade em geral, está condicionada a um modelo patriarcal, o que explica o fato de a sexualidade feminina ainda ser um tabu nesse meio.
“Tudo que traz poder feminino, sobre si e sobre o seu próprio corpo é visto com maus olhos pelo público majoritariamente masculino. O Femini Rap [rap feminista], por exemplo, já tratava de sexualidade, mas muito de pontos como gravidez precoce, ISTs e liberdade ao corpo. Era legitimado pelos homens, mas muito em um campo de educação. O sexo puramente, a putaria, ainda não era bem vista”, conta ela.
A 300Noise analisou as 50 músicas brasileiras mais tocadas no Spotify, durante um recorte de abril de 2026. Os dados apontam que, entre as letras, palavras como “puta”, “piranha” e “putinha” são algumas das mais recorrentes. Ao cantar explicitamente sobre sexo, as mulheres muitas vezes retomam esses nomes em uma posição de poder e como protagonistas dessa narrativa ao expressar o que lhes dá prazer e tesão.

Funk como berço da putaria (e do empoderamento)
Para Tamiris Coutinho, escritora do livro Cai de boca no meu b#c3t@o: O funk como potência do empoderamento feminino, essa apropriação do discurso é uma forma de reforçar a liberdade. “Cantar putaria tem esse tom muito libertador. Nesse contexto da música, falar uma coisa que talvez você não falaria se fosse em outro contexto. A música ajuda a explorar a liberdade que às vezes você não consegue assumir em certas condições sociais”.
Em sua obra, Tamiris analisa como cantoras como Mc Rebecca, Mc Sabrina e Deize Tigrona foram essenciais para a propagação de mulheres cantando putaria. À Noize, Deize Tigrona já falou como foi perceber que o discurso da putaria tambem era de empoderamento, especialmente num meio que ainda era muito masculino. "Quando a gente iniciou, não tínhamos essa noção de que a gente estava reivindicando um feminismo, de que seria um ato de empoderamento feminino. Mas o funk cantado por mulheres é libertador", contou ela.
Para Tamiris Coutinho, é importante entender que, apesar do caráter dominante masculino, nem sempre esse discurso é machista. “Ainda que homens tratem de questões sexuais nas músicas, é importante entender que nem tudo o que o homem está cantando é em uma posição de mulher subjugada. Isso porque mulher transa e gosta de transar. Não é porque o homem está retratando esse ponto de vista que a mulher não tenha atitude".
Vem pra me beijar, beija lá embaixo
Foi vendo Madonna e MC Carol que Bia Soull subverteu o imaginário erótico feminino. Neste ano, a artista lançou o disco Pornografia Auditiva, com influências do rap, trap e funk, para explorar o sexo de diversas perspectivas e linguagens e ressaltar que o sexo é sobre experimentações. “Quando eu fiz o disco, estava num momento em que precisava ver as coisas por essa ótica, por termos uma narrativa muito falocêntrica. Para mim, tem sido bonito ver outras pessoas mudarem a concepção sobre sexo".
Para Slipimami, a estética agressiva nas letras de rap sempre foi mandatória. Fã de filmes de terror, ela relembra que o modo como a Megan Thee Stallion e a Lil' Kim falam sobre sexualidade de uma forma agressiva e aberta foi referência para as suas letras. A artista reforça que é essencial debater a sexualidade feminina pelo olhar das mulheres.
“A sexualidade feminina não deveria existir só através do olhar do sexo masculino. As mulheres também fantasiam e desejam. Então, essa é uma forma de humanizar mesmo, tirar desse lugar de objeto e tirar o prazer feminino desse campo da vergonha”
Além de naturalizar o desejo feminino, as artistas trazem uma reflexão sobre como o prazer é encarado. Historicamente, o prazer feminino é pautado na satisfação masculina e, por muitas vezes, a descoberta sexual feminina parte das ações e atitudes que vão agradar o parceiro. Para NandaTsunami, desconstruir esse comportamento foi essencial para a construção das suas letras.
“É importante trazer outros pontos de vista em relação ao sexo. Para nós, enquanto pessoas, é preciso que a gente se pergunte qual é o sexo que gostamos, qual é aquele que nos é imposto, o que fazemos enquanto mulheres para agradar e o que é nosso mesmo. Eu tive que passar muito por esse questionamento depois que comecei a construir minha autoestima e me conhecer", conta ela. "
"Precisei entender o que eu realmente gostava. Sempre ouvimos o sexo no ponto de vista masculino. Quanto mais a gente explorar o olhar feminino, mais coisas vamos pautar”.
Tomar esse lugar de protagonismo nas letras faz com que a mulher se assuma como um ser sexual que pode buscar o próprio prazer. Slipmami diz:
“A mulher deixa de ser um objeto e vira um sujeito do próprio desejo. As pessoas estão acostumadas a consumir sexualização feminina, mas elas não estão acostumadas a ouvir mulheres narrando o próprio prazer de forma direta e intensa"
"Eu acho que isso incomoda homens e até outras mulheres", continua ela. "Incomoda muito quando a mulher não tenta suavizar a própria personalidade para parecer mais palatável", reflete.
Em seu livro, Tamiris Coutinho cita O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, para distinguir os impulsos eróticos entre homens e mulheres. Para os homens, os impulsos eróticos confirmam o orgulho do seu corpo e são sinais de transcendência do seu poder, sendo orientados para o domínio e a apropriação. Já para elas, os desejos podem ser assumidos, mas entram na esfera da vergonha e do embaraço, induzidas a agir de forma passiva e sem centralidade.
Falar abertamente sobre desejo impulsiona outras mulheres a investigarem as suas vontades. Para Barona, esse processo é essencial para o amadurecimento:
“Eu acho que é uma consequência natural do amadurecimento. Você cresce e entende os seus próprios desejos, fetiches e não se prende. É sobre sentir o que você quiser e assumir mesmo.”
Não quero descobrir amanhã qual IST cê tinha
Para Bia Soull, as músicas partem de temas ligados ao prazer e à sexualidade, mas acabam alcançando discussões mais amplas sobre gênero, relações de poder e comportamento. Em suas letras, ela aborda questões como masculinidade, desejo feminino, tabus sexuais, prostituição e a influência da moral cristã, sempre buscando provocar reflexões sobre a forma como esses temas são encarados socialmente.
“Além de fazer música, sexo é político. Quando falamos sobre prazer feminino, isso leva a outras escalas e movimentos que vão contra essa liberdade. Eu falo de preliminares de uma forma que o meu prazer tem que ser importante para mim e para quem está tendo relação comigo. Falo sobre explorar o prazer anal, que para os caras é um puta assunto delicado. Falo sobre prostituição porque os caras falam sobre as minas do job como um objeto, e eu senti a necessidade de trazer outra ótica. Falo sobre o medo e a culpa cristã. Então é importante questionar esses assuntos e como essas relações são encaradas”, reflete Bia Soull.
Tamiris ressalta que, ao debater sobre esses assuntos, cria-se um movimento de conscientização e prevenção de situações abusivas.
“O sexo e o prazer são um direito, e é um direito que precisa ser exercido pelas mulheres. O homem, quando vai falar de sexo, vai pensar muito em performance. Para as mulheres, os pontos são sobre as inseguranças com o corpo e a segurança física e sexual. Muitas mulheres se reprimem de viver e ter experiências sexuais por medo. Por isso é importante falar sobre, para que as mulheres consigam exercer esse direito e colocá-las na posição de destaque. Que também precisamos estar preocupadas em curtir”.
Esse movimento de transformar a sexualidade em um tema público garante o controle da narrativa de um assunto que já vai ser pautado para as mulheres de qualquer forma. “O sexo é apresentado para a gente desde muito novas. Ao cantar sobre isso, estamos trazendo essa conscientização de situações que já passamos e que é importante falar para outras mulheres não passarem", diz NandaTsunami.
"É importante se conscientizar de que é essencial entender os limites do seu corpo. As pessoas sempre estão invadindo o seu espaço, invadindo o seu corpo. Eu acho que incomoda quando isso sai de dentro de você.”
Ao reivindicar o direito à própria sexualidade e se assumir como um ser que também tem desejos, as artistas incentivam mais mulheres a fazer o mesmo. Para Slipmami, isso amplia as narrativas e gera identificação. “Sinto que estamos fazendo uma arte que realmente seja imperfeita, exagerada, sexual, agressiva, emocional. Justamente para ser humano”.






