Resenha | A Letter Home – Neil Young


Por:

Revista NOIZE

Fotos:

COMPARTILHE:

A Cápsula da Paixão Adentramos uma máquina do tempo logo ao primeiro clique em A Letter Home, novo disco do pai de todos, Neil Young. Lançado pelo selo Third Man, de Jack White, o álbum de canções covers e acústicas foi gravado em uma geringonça lo-fi dos anos 40 chamada Voice-O-Graph - que mais parece uma cabine telefônica – onde chiados, ruídos e estática duelam com belas e tradicionais melodias. O jovial Neil, famoso por investir rios de dinheiro na tecnologia Pono, a qual visa melhorar a qualidade dos áudios digitais que permeiam os headphones dos amantes da música em todo o planeta, parece dar um tiro no próprio pé ao lançar um álbum tão fora de contexto. A parábola de Young dá margem a um resultado um tanto inusitado: é impossível escutar A Letter Home em fones de ouvido. Mesmo as caixas de computador não conseguem reproduzir a mensagem que o irreverente artista insiste em passar: não escutem boa música em MP3! Quando embutido no ouvido, o material gravado diretamente em vinil soa como um pacote desembrulhando-se num cubo de açúcar. As lindas composições, muitas delas primordialmente executadas, devem propagar-se no ar, ao léu, onde os chiados dão sentido para que as longínquas harmonias penetrem com toda sua vitalidade em nossa memória transgeracional. letterhome2 (1) Na faixa de abertura do álbum, uma carta fictícia destinada a sua mãe, Young explica que ali estão canções que eles costumavam ouvir juntos, num tempo remoto e surpreendentemente presente. Dentre pérolas e pedras, a mais reluzente é “Needle of Death”, do underrated Bert Jansch, a qual poderia ter sido composta para a execução do dinossauro canadense. A bela “Changes”, de Phil Ochs, a consagrada “Girl From the North Country”, do irascível Freewheelin’ Bob Zimmerman e as superfolks “Early Morning Rain” e “If you Could Read my Mind”, de Gordon Lightfoot, comprovam que bom gosto e boa música não são reféns das contingências temporais. Habitualmente, Neil Young traça a linha tênue entre o genial e o brega. Composições como a batida “Crazy”, o lado B de Bruce Springsteen “My Hometown” e o malfadado duo com White em “On the Road Again”, atravessam esse limiar e contrastam de modo tão abrasivo com a sutileza de “Needle of Death” que indagamo-nos o que poderia ter acontecido se Young tivesse, à la Johnny Cash, conduzido covers mais contemporâneas, como “Butterfly” do Weezer ou “Weird Sisters” do Sparklehorse. Contudo, esse é um movimento que o ativista ainda há de fazer. Visto que as canções de A Letter Home são dedicadas a sua falecida mãe, a receita para apreciá-las é esconder seus headphones debaixo do travesseiro, retirar do armário aquele chambre amarelo do seu avô, recostar-se numa poltrona empoeirada com um pito e uma xícara de chá na mão e adentrar livremente essa cápsula do tempo, onde a nostalgia e as memórias encontram-se atreladas ao coração.
Por:

Revista NOIZE

Fotos:

COMPARTILHE:

RECEBA NOVIDADES POR E-MAIL!

Inscreva-se na nossa newsletter.