Foi um longo caminho


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Revista NOIZE

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Fotos: Raphael Bispo O caminho que tive que percorrer para encontrar o Afghan Whigs em uma noite chuvosa de quinta-feira em São Paulo foi longo. Cresci e envelheci ouvindo os discos da banda, discos que hoje em dia são considerados clássicos. Cantando, berrando ou acompanhando com um balançar de cabeça as canções de 1965, usando Gentleman e Celebration como discos da redenção, tentando ver se com a ajuda deles encontrava sentindo nas cagadas feitas e nos corações que quebrei. Quando descobri a banda, eles tinham praticamente acabado. Não ia rolar mais vê-los ao vivo. Greg Dulli continuava com Gutter Twins e mais um par de projetos. Seria para sempre o ex-frontman do Afghan Whigs, mais uma grande banda falecida. Afghan Whigs - Raphael Bispo - E Virou uma das duas bandas que, apesar de serem essenciais para mim, pensei que nunca veria ao vivo - junto com o Morphine. Bandas de uma década que não vivi, que nasceram e morreram naquele espaço de tempo longínquo demais para um moleque como eu. Mas o caminho é longo e cheio de surpresas. O Morphine eu assisti numa madrugada fria, em uma Virada Cultural há alguns anos em São Paulo. Mesmo sem sua peça fundamental - o mestre supremo Mark Sandman - ainda foi a banda mais assustadora que tive a sorte de assistir ao vivo. Alguma coisa fundamental mudou em mim quando o sax terraplanante do Colley ecoou por aquelas ruas sujas, cheias de vidro quebrado e tomadas por arrastões constantes do centro de São Paulo. Parecia que tudo que eu tinha feito na minha vida acabou por me levar até aquele momento. Toma, aproveita esse som, te vira com os efeitos dele. Não era o Morphine daquela década de noventa. Mas era o Morphine que eu consegui encontrar em meu caminho. Ontem na Audio, havia ansiedade no ar. Era possível reconhecer pessoas que vieram da década de noventa, que esperaram mais do que eu para ver aquela banda. Afghan Whigs - Raphael Bispo - B Os Afghan Whigs entraram no palco, vestindo completo preto e botas pontudas. Não é a mesma banda que gravou os discos que tanto ouvi. Daquela banda sobraram apenas o capitão Greg Dulli e o baixista John Curley. Não havia seção de metais nem cantoras fazendo backing vocal feroz. Era outra encarnação do Afghan Whigs. Uma banda com três guitarras em sincronia, longe de querer emular um som antigo - estavam apresentando um som diferente, curtido, pesado, com casca de couro. As canções novas possuem uma classe diferente, não trazem mais aquele soul em chamas. São mais duras e pesadas. Não por isso deixam de soarem incríveis ao vivo. Tocaram com velocidade e peso canções que começavam com uma bateria seca ou um one two three four empolgado de Dulli. "Uptown Again" foi uma pedrada, "Gentleman" me deixará sorrindo por um bom tempo e aproveitei para perder a voz com a versão crua e inclemente de "Somethin' Hot" - sem corais, sem metais bombando, sem a sensualidade latente. Era apenas distorção, gritos e nenhum rebolado de Greg Dulli. Afghan Whigs - Raphael Bispo - F O Afghan Whigs de ontem parecia pronto para morrer mais uma vez. Morrer brigando e gritando. A banda fez um show de quem se destruiu e se encontrou novamente. Uma espécie de culto sombrio e resiliente, com momento silenciosos e fatais contrastando com destruição sonora. O objetivo parecia querer entrar no inferno caminhando pesado, olhando o diabo nos olhos e carregando um uísque na mão, entoando canções novas e antigas. É um caminho que só eles poderiam fazer e que felizmente cruzou com o meu. Afghan Whigs - Raphael Bispo - C
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