
Xuxa volta aos palcos este ano [saiba mais ao fim da matéria], mostrando que sua música segue viva no coração dos eternos "baixinhos". Contemplar a obra de uma artista dessa é um desafio imenso por inúmeros motivos. Ao mesmo tempo em que muito de sua produção já foi analisada e reanalisada exaustivamente, esse mesmo universo criativo é, também, um material precioso para que sejam propostas novas formas de se olhar para a artista. Assim, para além da rainha dos baixinhos, da xuxa-verde, da atriz de inúmeros filmes sucesso de bilheteria, dos programas top de audiência em diferentes emissoras, Xuxa é indiscutivelmente uma das vozes mais reconhecíveis do cancioneiro popular brasileiro.
Seja com o hit Ilariê, sua icônica versão de "Parabéns, ou até mesmo com a canção dos cinco patinhos que foram passear — o fato é que em algum momento das nossas vidas, as músicas da Xuxa estiveram lá para nos acompanhar. Entretanto, não devemos resumir suas músicas a apenas esta categoria de “música infantil”, uma vez que uma escuta atenta a sua produção musical dos 90/2000 revela que Xuxa é a rainha não apenas dos baixinhos, mas dos clubbers.
Infância Clubber
Após a estreia de Xuxa nos anos 1980, a década de 90 proporcionou a sua carreira um novo status. Com o sucesso internacional de Xuxa En Español (1990), ficou claro que ela era uma artista pop — e que isso significava uma abertura grande para as diferentes influências estéticas e sonoras do mercado.

Os primeiros discos e os famosos "Xous da Xuxa foram, em sua maioria, produzidos por Michael Sullivan, Paulo Massadas e Guto Graça Mello, nomes da indústria fonográfica brasileira que trabalharam com Gal Costa, Tim Maia, Sandra Sá entre outros. A visão criativa desses nomes, aliada à potência criativa de Xuxa, fez com que os ouvidos se voltassem para uma força estética cada vez mais poderosa: a música eletrônica.
Os gêneros e subgêneros de música eletrônica como house, techno, balearic, italo disco, drum'n'bass ganhavam mais força no cenário mundial e sua presença na música Pop era cada vez mais influente. O termo Eurodance juntava essa estética hedonista e em prol do bem-estar que casava perfeitamente com a energia que Xuxa sempre emanou. A linguagem da música eletrônica tinha muito em comum com a rainha dos baixinhos e é possível identificar diferentes momentos desse diálogo em sua trajetória profissional.
Em 1994, Xuxa convidou o grupo 20 Fingers & Gillette para apresentar sua famosa música “Short Dick Man” no programa Live Xuxa Hits. A influência do House energético para cima e a cômica contradição de se colocar uma faixa dessas em um programa com crianças — situação revivida pela internet anos depois — ilustram bem como o imaginário envolta da Xuxa se ancora muito na música eletrônica.
Os programas de TV da Xuxa se mantiveram bastante abertos à divulgação de artistas e grupos de diferentes estéticas sonoras da música eletrônica. A cantora italiana Alessia Aquilani, backing vocal de Ice MC e colega de gravadora da Corona e o grupo Aqua, famoso pelo hit "Barbie Girl" nos anos 90.
Mas Xuxa também deu espaço ao funk brasileiro — trazendo o gênero musical ainda mais em evidência, quando ele ainda era completamente marginalizado do debate público cultural. Apresentações de Bonde do Tigrão e MC Marcinho, mas também a incorporação da dança gunk em seu célebre filme Lua de Cristal (1990) — juntamente com o grupo Movimento Funk Clube.
A era eletrônica
Mas para além de uma série de curadorias e apresentações em seus programas de TV, Xuxa também deu grande ênfase na influência sonora eletrônica em suas próprias músicas. No final dos anos 80, com hits como “Bobeou, Dançou”, já era possível escutar uma abertura a ritmos e gêneros mais suingados e dançantes, como balearic e synthpop.
Mas foi com a sequência de discos do começo da década de 90 que a presença da música eletrônica ficou mais clara.
Começando com o disco Sexto Sentido (1994). Este é o álbum "clubber" da Xuxa em que Michael Sullivan imergiu Xuxa no eurodance que tomava as rádios (como culture beat e real mccoy). A faixa "Hey DJ" é um marco, utilizando batidas eletrônicas secas e loops que remetem diretamente às pistas de dança. Foi gravado nos estúdios da Som Livre e contou com engenheiros de som que buscavam o "punch" das produções americanas, focando em graves potentes para serem tocados em grandes sistemas de som.
O house é predominante, mas o BPM ainda mais alto que o de costume mostra que essa não é uma faixa apenas para curtir, mas sim para se esbaldar nas pistas de dança. Ainda nesse disco, temos uma versão House de “É de Chocolate” envolta na energia Xuxa de ser: elétrica e eternamente jovem.
A evolução continuou com Luz no Meu Caminho (1995), onde a produção de Sullivan tornou-se ainda mais urbana e direta. Flertando com o techno-pop e o balearic beat, o disco trouxe uma Xuxa mais próxima do pop adulto, com batidas rápidas e uma instrumentação complexa que refletia a maturidade da artista.
Algumas das faixas do disco, como “Brasileira” e “Ritmos” , tiveram versões audiovisuais produzidas para o especial de Natal, Deu a Louca na Fantasia (1995) — uma espécie de versão de O Labirinto, de David Bowie, em que Xuxa cantava sobre as questões e problemas sociais brasileiros.
Para coroar essa década de inovação, a compilação “Xuxa 10 Anos”, lançada em 1996, não foi apenas uma coletânea, mas um manifesto sonoro. Muitos sucessos dos anos 80 passaram por novas mixagens e remasterizações para que o brilho digital dos anos 90 fosse injetado nos clássicos, uniformizando a sonoridade eletrônica da obra. DJs famosos foram convidados para revisitar esses clássicos, como DJ Memê, DJ Cuca e Mellos.
Xuxa Hits
O legado musical de Xuxa, portanto, deve ser compreendido como um reflexo da excelência técnica e da capacidade de adaptação da indústria fonográfica brasileira nos anos 90. A transição do som acústico e lúdico dos primeiros álbuns para a densidade eletrônica observada em obras como Sexto Sentido e Luz no Meu Caminho não foi acidental.
Ela representou uma convergência de interesses entre produtores como Guto Graça Mello e Michael Sullivan, que buscavam replicar o rigor das produções europeias e americanas, e uma artista que possuía o carisma necessário para introduzir sintetizadores e batidas de club no cotidiano das famílias brasileiras.
Sua importância para a música eletrônica nacional reside na sua função de interface. Com o programa e de seus discos, ela serviu como porta de entrada para estéticas que, de outra forma, ficariam restritas a nichos urbanos ou clubes noturnos. Ao dar visibilidade a gêneros como o eurodance e ao validar o funk carioca em seus estágios iniciais, ela ajudou a moldar a percepção rítmica de uma geração, acostumando os ouvidos do grande público a timbres digitais e frequências graves que definiriam o pop do novo milênio.
A discografia de Xuxa nesse período é um documento histórico de como o Brasil absorveu e processou a revolução digital da música. Longe de ser apenas um fenômeno de entretenimento infantil, sua trajetória revela uma curadoria atenta às tendências globais.
Ao integrar a tecnologia de estúdio de ponta à sua marca multimídia, Xuxa não apenas acompanhou a evolução do pop; ela consolidou uma sonoridade eletrônica acessível, garantindo que a modernidade musical chegasse, de forma orgânica, a todos os cantos do país.
Xuxa - O Último Voo da Nave em SÃO PAULO
Data: 25 de julho de 2026/ Data extra: 31 de julho de 2026
Ingressos via Eventim
Local: Allianz Parque – Av. Francisco Matarazzo, 1705 – Água Branca, São Paulo
Classificação Etária: Entrada e permanência de crianças/adolescentes de 05 a 15 anos de idade, acompanhados dos pais ou responsáveis, e de 16 a 17 anos, desacompanhados dos pais ou responsáveis legais.




