
No segundo andar da Galeria do Rock, no centro de São Paulo, a loja 318 preserva uma história de quase meio século. Em 1978, o então farmacêutico Luiz Calanca resolveu se aventurar no ramo da música e fundou a Baratos Afins, que hoje ostenta o título de loja mais antiga em atividade no local, oferecendo mais de 100 mil discos e atuando também como selo independente.
Durante esses 48 anos, muitas lojas de discos encerraram suas atividades, o próprio ambiente da galeria foi se transformando e o perfil de quem procura vinil também mudou. A rotina de Luiz, contudo, continua a mesma. Ele segue atrás do balcão todos os dias e garante nunca ter tirado férias.
“Estou pagando minhas contas, mas trabalho por prazer, porque eu gosto disso aqui. A minha vida está aqui. Eu nunca tirei férias, só descanso por no máximo três ou quatro dias no Carnaval. Porque se tiro férias, fico doido pra voltar”, diz em entrevista à Noize.
A história de Luiz Calanca como comerciante teve início em outro ramo: o farmacêutico. Já nos finais de semana, dava vazão à paixão pela música botando seus discos para girar em bailinhos.
Com a esposa grávida, contudo, sentiu a necessidade de vender parte da coleção para comprar o enxoval do bebê, e foi aí que surgiu a ideia de abrir sua própria loja.
“Quando vendi os discos, fiquei pensando que, se estivesse do outro lado do balcão, poderia fazer um bom negócio. Aí ficou aquela obsessão na cabeça. Olhei uma tabela do sindicato que dizia ‘Associação de Lojistas e Varejistas de Discos e Afins de São Paulo’ e falei ‘pô, que barato!’ Pronto, já tinha achado um nome”.
Contrariando sua esposa, Vitória, Luiz abandonou o emprego na farmácia e, com a ajuda do cunhado, que já havia trabalhado no ramo de discos, conseguiu um ponto na Galeria do Rock.
“Quando ele me mostrou o ponto, fiquei horrorizado. A galeria era uma caverna, toda escura, as escadas rolantes não funcionavam…Mas era tudo o que eu podia ter naquele momento, então aceitei”.
Injeção no Jorge Mautner
Após a inauguração da loja, a experiência de Luiz como farmacêutico se mostraria útil para além do ofício de comerciante: teve uma vez em que o Calanca precisou até aplicar uma injeção em Jorge Mautner. Foi quando o músico lhe contou um pouco sobre os caminhos para produzir um disco.
Aquela conversa voltou à tona quando o proprietário da Baratos Afins decidiu transformar a loja em um selo musical por meio do lançamento de Singin' Alone (1982), de Arnaldo Baptista. Depois, ele ainda lançou as clássicas coletâneas Não São Paulo (Vol. 1 e Vol. 2), inspiradas na No New York de Brian Eno, mostrando o melhor do pós-punk paulista que pulsava na época.
A partir daí, a Baratos Afins passou a ser também uma casa para artistas que encontravam pouco espaço na indústria fonográfica: Patrulha do Espaço, Mixto Quente, Fellini, Coke Luxe, Mercenárias e Ratos de Porão são só alguns dos nomes que passaram pelo catálogo do selo.
“Eu já tinha uma certa experiência com drogas, mas eram drogas farmacêuticas. Depois eu vim trabalhar com esse outro tipo de droga, e hoje me sinto um traficante de drogas musicais”.
De geração em geração
Ao longo dessas quase cinco décadas, Calanca viu diferentes públicos passarem pela Baratos Afins, de acordo com os próprios ciclos da música: teve a época da discoteca, do punk, do heavy metal, do grunge, do emo…Hoje, artistas como Taylor Swift, Lana Del Rey, Lady Gaga e Beyoncé são algumas das mais procuradas.
Apesar de serem nomes que dialogam com uma geração mais nova, Luiz vê com desconfiança a ideia de que o vinil está voltando a ganhar espaço entre os jovens.
“Essa coisa de dizer que o disco voltou, eu não acredito, não. O disco morreu muito mesmo. Hoje eu acredito que as pessoas compram pelo algoritmo.”
Julgando pela capa
Um dos exemplos que mais chamaram sua atenção envolveu Rumours, do Fleetwood Mac. Após o vídeo de um skatista ao som da faixa “Dreams” viralizar nas redes sociais, a procura pelo disco aumentou, e um cliente apareceu interessado em comprar apenas a capa.
“Ele veio atrás do Rumours e nós só tínhamos uma cópia, que por acaso estava quebrada. Mas ele levou mesmo assim, dizendo que não tinha nem vitrola e queria só a capa para colocar numa parede”.
Há ainda quem entre na Baratos Afins apenas para tirar fotos segurando os discos. Calanca diz permitir que os clientes façam isso, mesmo quando não compram nada. Para ele, trata-se de uma relação diferente com o objeto, própria de uma geração que não viveu a experiência do disco da mesma maneira que ele.
Mas para além dessa mudança de perfil do público, a percepção sobre uma suposta “morte do vinil” vem principalmente da diferença entre as tiragens que ele conseguia trabalhar no passado e as que consegue hoje.
Em determinados momentos, conta, era possível comprar mil cópias de lançamentos de artistas como Iron Maiden e U2 e vender tudo. Hoje, comprar dez exemplares de um título pode significar ficar com metade deles encalhada.

O preço da resistência
A longa história da Baratos Afins também acumula perdas. A mais recente delas aconteceu durante o Carnaval deste ano, quando o depósito da loja foi arrombado e milhares de discos foram levados.
Inicialmente, Calanca informou à polícia o desaparecimento de cerca de 2.200 peças. Depois, ao encontrar anúncios de discos na internet e conferir novamente o acervo, percebeu que o número era maior. Hoje, estima que tenham sido levados mais de 3 mil itens.
Entre eles estavam pelo menos 2 mil LPs importados e mais de 600 CDs. Só de discos que costumavam ter reposição frequente, foram levadas 490 peças. O prejuízo, porém, não foi apenas financeiro. Segundo Calanca, os responsáveis escolheram parte do material a dedo e levaram exemplares que tinham um valor sentimental para ele.
“Nem era disco tão vendido assim, mas era disco da minha coleção, que eu tinha um apreço muito especial. Então doeu demais.”
Depois, a polícia apreendeu discos com um dos receptadores e conseguiu reaver 150 peças, que ajudaram a identificar outras ausências no estoque.
Luiz afirma ainda que o receptador teria indicado à polícia quem seria o responsável pelo furto, mas o caso segue sem solução. Sua suspeita, inclusive, gira em torno de um ex-segurança da Galeria do Rock. “O cara era funcionário da casa e já saiu daqui. Mas não vale a minha palavra, eu preciso provar para o mundo, mesmo que o próprio receptador já tenha entregado”.

O episódio se soma a uma relação já desgastada com a própria galeria. Luiz conta que enfrentou três inundações, três incêndios e outros roubos ao longo das décadas. Depois do episódio mais recente, passou a considerar com mais força a possibilidade de deixar o endereço onde construiu toda a sua trajetória.
“Eu acho que a Galeria do Rock não tem mais nada a ver comigo. Eu tenho vontade de sair, foram muitas decepções com essa galeria. Mas aqui já está tão abandonado, que tenho receio de sair e não conseguir alugar pra ninguém”.
Ainda há discos para descobrir
Apesar das mudanças no mercado e das dificuldades acumuladas ao longo dos anos, Luiz Calanca segue firme rumo aos 50 anos de Baratos Afins.
A loja já chegou a ter 17 funcionários, mas hoje a operação bem menor é feita praticamente toda em família: desde sua esposa, Vitória, passando por Rafael, irmão de seu genro, até Tucho, antigo funcionário que, entre idas e vindas, já é considerado parente.
Além da paixão de Calanca pelo ofício, uma das coisas que mantêm a loja aberta, segundo ele, é a possibilidade de continuar descobrindo novos discos.
“Se fosse pra eu ir pra lua com 10 discos, preferia ficar na Terra. Porque até chegar lá, eu já estaria enjoado deles! Cada dia a gente está numa vibe, e eu gosto de ouvir tudo. Esse papo de música boa ou ruim não existe. Eu gosto de música ruim também!”
Luiz lembra que, no início de sua coleção, comprava muitos discos só pela capa, sem nem saber o que esperar do som. Alguns desses acabaram se tornando raridades, enquanto outros foram passados adiante rapidamente.
“Às vezes você pensa que não gosta daquele som e não dá atenção, mas em outro momento pode bater legal. Sempre que eu vendo um disco que eu não gosto, me arrependo na hora e tenho vontade de ouvi-lo novamente. É só vender que bate a saudade!”
Quase meio século depois, portanto, ainda há espaço para procurar, ouvir e se surpreender com um disco que passou despercebido.
“Eu acho que tudo é uma questão de apreciar a música. No momento certo, na hora certa, com o vinho certo e a maconha certa, tudo tem a ver”, brinca. “Tem muita coisa legal no mercado, ainda dá pra raspar o tacho. Acho que é por isso que a gente está resistindo”, completa.






