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Cabo Verde fala português? Conheça a história da língua cabo-verdiana, exaltada na música de Mayra Andrade


Por:

Diogo Bachega

Fotos: Fabrice Bourgelle/Divulgação; Pixabay/Reprodução

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A estreia histórica de Cabo Verde em uma Copa do Mundo, que consagrou o goleiro Vozinha como herói, jogou os holofotes sobre o arquipélago africano e despertou curiosidade sobre uma cultura que, no Brasil, carrega uma familiaridade especial. Além das paisagens, da música — que tem Mayra Andrade como expoente — e da história, há um elemento que aproxima os dois países: a língua portuguesa.

Mas, em Cabo Verde, o português divide espaço com outro idioma fundamental para a identidade nacional: a língua cabo-verdiana. Também conhecida como crioulo, é a língua em que se canta a morna, gênero musical melancólico que cumpre na história daquele arquipélago um papel parecido com o do samba e do sertanejo na cultura brasileira. 

Numa das músicas mais emblemáticas do gênero, Cesária Évora, cantora cabo-verdiana que apresentou a morna ao mundo, canta sobre pessoas que emigraram em busca de condições melhores de vida. "Ken mostrá-be es kaminhu lonje?", diz a letra. "Sodade des nha térra Saniklau". 

"Quem te mostrou este caminho longe?", pergunta a cantora. Saudades de minha terra. Sãc Nicolau - uma das dez principais ilhas de Cabo Verde. Até a saudade, sempre tomada como uma palavra da língua portuguesa, aparece ali. A língua cabo-verdiana tem muito do português, mas não é apenas uma variante dele, como o brasileiro. Para entender como ela surgiu, é preciso conhecer um pouco da história do arquipélago. 

Língua da resistência

De acordo com a embaixada de Cabo Verde em Portugal, as ilhas que hoje formam o país foram descobertas por portugueses em 1460. Quando falamos de países como o Brasil, não dá para falar bem de descoberta, uma vez que já havia gente por aqui; o caso lá é outro. Ao que tudo indica, a região era deserta antes das primeiras naus desembarcarem por ali. 

As ilhas, especialmente Santiago, logo foram adotadas como entreposto comercial entre a África, a Europa e as Américas. E grande parte do que os portugueses comercializavam eram africanos escravizados, vindos da costa leste da África. O arquipélago passou a abrigar pessoas vindas de culturas diferentes e falantes de línguas diversas, deslocadas de seus países de origem e misturadas umas com as outras, bem como com os portugueses escravocratas.

"No que eles dividiam os grupos étnicos para não ter comunicação, os negros escravizados criaram sua própria língua, para poderem falar uns com os outros", explica a professora Geni Mendes de Brito, doutora em Estudos da Linguagem pela Universidade Federal do Rio Grande e autora do livro Morna: Identidade e Literatura em Cabo Verde (2025). 

Esse novo idioma sofreu influência da língua utilizada pelos colonizadores, já que muitas vezes ela era a única que os escravizados, de origens diversas, tinham em comum. Processos como esse, em que as línguas europeias, como o português ou o francês, são misturadas às africanas, criam as chamadas línguas crioulas.

Com o passar do tempo, o português e a nova língua passaram a coexistir no país, mas não em pé de igualdade. "A língua cabo-verdiana era a língua do povo que nunca gozou de status privilegiado. Durante a colonização, as pessoas tinham que deixar a sua cultura para incorporar a portuguesa à sua vida e sentir em seu espírito", afirma Brito.

Mesmo após a independência do país em 1975, o português continuou a ser a língua oficial. Mas há também a língua cabo-verdiana, falada nas ruas, nos comércios e no dia a dia. Ou, nas palavras de Brito, "a língua das histórias, dos provérbios e dos pensamentos mais íntimos."

Avani Souza Silva, doutora em Letras pela Universidade de São Paulo, autora da coletânea infantil Nós também falamos português (2023), conta uma história de uma amiga jornalista que ilustra bem a situação do país.

No dia a dia da emissora de televisão em que ela trabalha, todos se comunicam na língua cabo-verdiana. É com essa língua que os repórteres e outros funcionários organizam o dia a dia do trabalho e planejam os jornais. À frente da câmera, no entanto, as notícias são apresentadas em português. 

A Constituição de Cabo Verde — que passou a valer em 1992, após o país se tornar uma democracia — diz que a língua oficial por lá é o português, mas prevê a oficialização da língua materna. Hoje, existe um esforço no país para tirar isso do papel e garantir que os dois idiomas existam em pé de igualdade.

"Existe um movimento já antigo de professores, intelectuais, políticos e até do próprio governo de elevar a língua de Cabo Verde a um status parecido com o do português", afirma Silva. "Eles querem, por exemplo, correspondência oficial nas relações internacionais e no exterior." 

Apesar disso, muito da música cabo-verdiana é cantada na língua materna. Mayra Andrade continua o  trabalho de levar a língua ao mundo. Em reEncanto (2024), lançado em vinil pelo NRC+, é possível ouvir a beleza do idioma. Beleza essa que ora é bastante reconhecível para ouvintes brasileiros — "sódadi jardin di nha memória", ou "saudade do jardim da minha memória", diz "Ténpu Ki Bai".

Mas ora também mostra sua face estrangeira — "A-mi N Kre-u Txeu", que abre o álbum, quer dizer "eu te amo". Nas palavras de Silva, o crioulo de Cabo Verde é uma língua de afeto.  Não é à toa, já que ele sobreviveu, em grande parte, através das trocas familiares e do bate-papo entre amigos. Talvez esteja aí a sua ligação com o português brasileiro.

Por:

Diogo Bachega

Fotos: Fabrice Bourgelle/Divulgação; Pixabay/Reprodução

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