
Caminhando pela Rua Sete de Abril, logo depois de passar pela galeria das câmeras e antes de virar à esquerda na Praça Dom José Gaspar, tem uma galeria à direita, a Nova Barão. O endereço se tornou um reduto do vinil em São Paulo, sendo o andar superior inteiramente dedicado à venda de discos. Tem pra todo gosto e, mais importante, para todo tipo de coleção. De hyperpop a coletâneas de sambas-enredo da década de 1970, ali é o lugar para se estar quando o assunto é música.
Em maio de 2023, dois personagens importantes da vida noturna de São Paulo e, sobretudo, dois colecionadores de vinil abriram uma loja na galeria: a Petróleo Music. No mesmo ano, em dezembro, eles fecharam o endereço no térreo e reabriram em um espaço maior no segundo andar. Com sua fachada tomada por plantas, a Petróleo se destaca das demais lojas, dedicando sua maior parede, com três fileiras de 15 discos cada, às artistas mulheres.
Do outro lado da loja, uma parede de compactos divide espaço com um mural de 18 discos de música brasileira. Ao passear de olhos pelo espaço de dois cômodos, encontra retratos de Marvin Gaye, Erykah Badu, Curtis Mayfield e Emilio Santiago – sendo o único pôster que não está relacionado com música, revela Carlos Marighella com o punho em riste. Fora isso, os amigos têm também emoldurada na parede uma carta de um cliente de Nilópolis, o Venceslau, que eles prometeram que leria esta matéria, e um porta-retrato com uma foto do Sean Lalla, amigo, DJ e colecionador canadense que foi fundamental para dar partida na loja.
A Petróleo Music é Eduardo Brechó e Nyack. Idealizador da Discopédia, o produtor e DJ Nyack tornou-se um representante da cultura do vinil na noite paulistana. A festa dispensa apresentações: reunião semanal, quase religiosa, a Discopédia reúne a comunidade negra às terças em festas temáticas, que passam pelo creme do soul, hip-hop, r'n'b e samba rock. Com mais de dez anos na pista, a festa surgiu de um momento em que os DJs residentes viajavam com outros artistas: Nyack estava em turnê com o Emicida, Marco com a Céu e Dandan com Criolo, mas os três queriam encontrar tempo para trocar os discos que encontravam no garimpo. Nessa época, Nyack já conhecia Eduardo Brechó.
“A gente se conheceu na noite”, dizem quase em uníssono. “O Eduardo me viu crescendo”, completa Nyack. “Eu via ele tocando, via as músicas que ele tava tocando, aí eu falei: pô, é o melhor que tem”, diz Eduardo, sem medo de rasgar elogios ao amigo. “Porque eu tenho vontade de ser DJ”, revela. Daí começa aquela clássica anedota de amigos: “para com isso, cara, você é DJ; não, eu não sou; é sim” e por aí vai. É um toma lá, dá cá que sempre termina em risada ou em alguma história memorável desses dez anos de amizade.

Amizade em torno do garimpo
Eduardo Brechó é o cantor, compositor e idealizador por trás do Aláfia. Colecionador, ele já tinha trabalhado em lojas de vinil em duas ocasiões. A primeira foi quando tinha entre 19 e 20 anos em Ribeirão Preto, logo antes de vir pra São Paulo, e a segunda foi assim que chegou na capital, em 2004, lá na Galeria do Reggae.
Dez anos depois, o Aláfia mudou tudo. E, com mais dez anos na conta, Eduardo e Nyack se viram juntos em Nova York, fazendo uma residência aos domingos no clube Nublu, em Manhattan, que se chamava Petróleo – batizada em referência ao nome da festa que faziam em 2018.
Eduardo começou a pensar em abrir uma loja no Brasil que fosse um braço da loja nova-iorquina Human Head. Mas, enquanto tocavam, perceberam que tinham em comum a curadoria afinada e que, construíram mais do que um público, mas uma comunidade. O único problema era o acervo. Ninguém está pronto para abrir mão da própria coleção assim, do nada, e precisavam de volume para abrir.
Foi aí que o amigo em comum, o DJ e produtor Sean Lalla, resolveu a questão: “Ei, tô chegando no Brasil com 600 compactos pra vocês. A gente faz um esquema 50-50, pode ser?” No primeiro dia da loja aberta, Sean apareceu com os discos etiquetados e uma impressora para fazer as etiquetas com o logo e também deu a dica de inserirem curiosidades sobre cada disco. Até sua morte, em 2024, Sean continuou sendo um amigo presente, viajando o mundo e mandando mensagem toda vez que encontrava uma joia rara no garimpo.
A curadoria do estoque é organizada por cânones e também a partir de uma ideia global do que é essencial em uma boa loja de discos hoje. Eduardo afirma categoricamente que se você for pro Japão hoje e entrar em uma loja de discos, os discos vão ser parecidos com os que a Petróleo oferece.
E, como a cabeça do colecionador é muito diferente da do vendedor, foi preciso criar uma regra: os funcionários só podem comprar um vinil depois de dois meses dele na estante. “Tem discos que vendem muito rápido, aí dói mais”, conta Eduardo. “E são discos que a gente põe caríssimo e vende rápido. Apareceu um disco original do Don Blackman, por exemplo, que é um disco caro lá fora. A gente põe aqui e vende no preço que a gente colocar. Então, às vezes pega no meu coração porque eu sei que eu não vou ver esse disco tão cedo, entende?”

Por outro lado, vendeu Coisas (1965), do Moacir Santos, com a tranquilidade de ter mais um em casa. Por via das dúvidas, comprou outro – sempre bom ter um mono e um estéreo. “Mas esse eu não estou com pressa de vender, entende?”, confessa. Mas é claro que, quanto mais interessado o cliente, mais ele acessa o ouro da loja. Nyack ainda conta sobre a piada interna entre eles:
“Ah, tem uma brincadeira que nós temos a mala do apartamento. É a mala que tem os discos que a gente só mostra pra quem a gente sabe que vai comprar mesmo. É raro, mas acontece. A gente diz que é a mala do apartamento porque com aquela coleção ali dá pra comprar um apartamento.”
Promovendo festas na galeria e com um livro publicado sobre o hip-hop em São Paulo, a Petróleo virou um ponto de encontro, de troca e de música. Durante o tempo em que ficamos conversando ali, não raro as pessoas entravam na loja e diziam: “e aí, DJ?”, cumprimentando a dupla. Algumas figuras do hip-hop aparecem para tomar um café e jogar conversa fora ouvindo grandes discos. “A gente queria que fosse um centro cultural e virou mesmo”, diz Eduardo, ainda um pouco sem acreditar, mas acreditando muito.












