SnapInsta-Ai_3918866259412245942 (1) (1) (1) (1) (1)

Ebony e AJULIACOSTA inflamam Decade Tour, que celebrou a YOLO e Africanize em São Paulo


Por:

Giulia Cardoso

Fotos: Reprodução/Leandro Godoi

COMPARTILHE:

"You Only Live Once" — você só vive uma vez. O lema que carrega a essência da YOLO Love Party ganhou contornos ainda mais profundos na última sexta-feira (12/06), em São Paulo. Em um encontro que uniu os dez anos da tradicional festa carioca aos 12 anos de estrada do Africanize, o público paulistano testemunhou a Decade Tour, que teve como atrações Spark, Ebony e AJULIACOSTA, além de DJ sets. Elaborada como uma turnê nacional, desenhada de forma independente pelas duas marcas, tem o objetivo político e cultural de colocar majoritariamente mulheres pretas no topo dos festivais, transformando a pista de dança em uma plataforma de visibilidade, excelência estética e emancipação da juventude negra.

Este já é o terceiro projeto em que YOLO e Africanize caminham lado a lado. "Existe uma sinergia muito forte entre os dois projetos. São iniciativas criadas por pessoas negras e pensadas para dialogar com pessoas negras", destaca a produção do evento, apontando como a moda, o comportamento e a música se entrelaçam nessa caminhada.

Celebrando o amor

A escolha de São Paulo para receber a turnê nacional carregava uma mística particular: o evento aconteceu em pleno Dia dos Namorados. No entanto, quem cruzou as portas da Audio por volta da meia-noite percebeu que a atmosfera passava longe dos clichês românticos comerciais. 

Sob as letras do cantor Spark, que já acumulava um público fiel na grade, a pista celebrava rituais muito mais amplos. Fosse entre solteiros convictos ou "casados" (termo carinhoso que dita o ritmo dos namoros contemporâneos), a noite foi desenhada para exaltar a liberdade.

O espaço escolhido refletiu a ambição da empreitada. Proporcionando uma experiência expansiva com ambientes distintos — entre áreas de convivência, pista e gastronomia —, o local serviu de moldura para a verdadeira obra de arte da noite: a reunião de corpos pretos, plurais e diversos.

O DNA de uma união orgânica

Para Wanessa Fernandes (Wanna), CEO da Africanize, a conexão com a pista carioca é antiga. "Eu acompanho a festa desde 2017 e foi muito bonito ver o projeto crescer ao longo dos anos", conta. "Sempre admirei a forma como a YOLO construiu uma comunidade forte e uma experiência única". 

Desenhar uma turnê nacional em meio aos desafios de infraestrutura e escassez de grandes patrocínios para o entretenimento preto exigiu uma logística complexa. Para manter o DNA intacto, a liderança da Africanize — capitaneada por Wanna e pelo diretor executivo Christian Akawi— fez questão de transportar sua própria equipe para cada praça da Decade Tour, garantindo que a identidade visual forte e a direção artística milimetricamente pensada fossem respeitadas em cada detalhe.


Mulheres no topo

Historicamente, a YOLO nunca tratou a representatividade feminina como uma tendência de mercado. Nomes de peso como Ludmilla, IZA, Fat Family, MC Carol e Budah fazem parte das páginas do projeto. Na Decade Tour, o norte político-cultural manteve-se firme: colocar as mulheres negras no topo absoluto do line-up. "Celebrar é existir em voz alta", pontua Wanessa, sintetizando o conceito da curadoria. "A turnê nasce desse entendimento de que representatividade precisa ir além do discurso. É sobre criar espaços reais de visibilidade e potência para artistas negras que movimentam a cultura contemporânea brasileira."

Na prática, o palco paulistano estremeceu sob o comando de duas das maiores forças da atual cena do rap nacional: Ebony e AJULIACOSTA. Embora as transformações estruturais do hip-hop brasileiro já sejam um fato consolidado no ecossistema da música, vê-las em ação é um lembrete de que a vanguarda do gênero é feminina. A postura adotada nos palcos ecoou diretamente na plateia, funcionando como um combustível direto para inflar a autoestima das mulheres que assistiam ao espetáculo.

Ebony elevou de imediato a temperatura da Decade Tour ao fincar as bases de sua performance no aclamado Terapia (2023). Conhecida por subverter as estruturas tradicionalmente masculinas do gênero com um deboche cirúrgico e muita lírica, a carioca dominou o palco com passos coreografados e uma presença cênica irretocável. Além disso, bastou a introdução de hits de seu último álbum KM2 (De Luxo) (2026) como "Extraordinária" e a provocativa "Gin com suco de Laranja" para que o público paulistano respondesse com uma catarse visceral, consolidando a abertura dessa sequência como um dos pontos altos do show.

Em seguida, foi a vez de AJULIACOSTA transformar a pista em uma extensão de suas vivências urbanas ao priorizar o repertório de Novo Testamento. Cria de São Paulo, a rapper jogou em casa e descarregou uma sequência de rimas afiadas que colocam a autonomia e a correria da mulher negra em primeiro plano. Um dos momentos de maior conexão coletiva na Decade Tour aconteceu quando as batidas marcantes de faixas indispensáveis como "Dharma" e o hino "O Que a Julia vai Ser" ecoaram pelo sistema de som.

Entre os perrengues clássicos de estrada — como as tempestades intensas enfrentadas pela produção na perna anterior da tour, em Salvador, no dia 30 de maio — e encontros carregados de afeto nos camarins, a passagem da Decade Tour por São Paulo cumpriu seu maior objetivo: provar que a cultura preta merece ocupar os maiores espaços do entretenimento e que ela dita a excelência e a sofisticação do mercado atual.

Por:

Giulia Cardoso

Fotos: Reprodução/Leandro Godoi

COMPARTILHE:

RECEBA NOVIDADES POR E-MAIL!

Inscreva-se na nossa newsletter.