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Da periferia para a vitrola: conheça a Made In Quebrada Discos


Por:

Guilherme Serrano

Fotos: Divulgação/Maria Isabel Oliveira, Marcelo Papa

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Dentre as 42 lojas de discos da Galeria Nova Barão, uma em especial tem como objetivo levar a periferia para o centro do mercado fonográfico paulistano e nacional. A Made In Quebrada Discos começou na internet e hoje, além de loja física, é também um selo fonográfico focado em artistas independentes e periféricos.

Essa história teve início em meados de 2010, quando Edvaldo Mariano e Marisa Reginatto Silva começaram a vender discos pela internet, principalmente por meio do Facebook. 

“A gente passou a vida toda na periferia de Embu das Artes, na divisa com Valo Velho, Capão Redondo…Nos grupos de venda e troca de discos, às vezes aparecíamos com raridades e a galera perguntava de onde vinham aqueles discos. Aí a gente falava: ‘pô, esse aqui é garimpo made in quebrada!’”, relembra Edvaldo Mariano em entrevista à Noize.

Inconscientemente, contudo, essa trajetória é muito mais antiga. Edvaldo e Marisa já estavam envolvidos com cultura desde os anos 1990, quando participavam do movimento hip-hop de Embu das Artes por meio das chamadas posses, coletivos que atuavam tanto na parte musical quanto na de militância e organização das comunidades.

Edvaldo chegou a se arriscar como MC, enquanto Marisa atuava na frente educacional, promovendo cursinhos pré-vestibular.

“O hip-hop é muito ligado às questões sociais e tem espaço pra várias coisas além da música. Essa era uma época que se estava falando muito de cotas, de Enem, e a gente começou a trabalhar com cursinho pré-vestibular. Era tudo voluntário, aquela coisa bem comunitária, e várias pessoas da periferia começaram a fazer faculdade a partir disso. Nós, inclusive”, conta Marisa.

A partir dessa formação, Marisa se tornou pedagoga com foco em alfabetização, e Edvaldo, professor de História. A essa altura, os discos, que já faziam parte do cotidiano como coleção, passaram a funcionar também como complemento de renda.

“Acho que muita gente começa assim: percebemos que dava pra pegar discos que não ouvíamos tanto e vender para comprar os que gostávamos. E aí isso começou a fazer parte de uma segunda renda”, diz Marisa. 

“Salário de professor nunca foi lá essas coisas, né? E aí naturalmente o negócio começou a tomar corpo sem que a gente nem percebesse”, completa Edvaldo.

Os garimpos do casal na região de Embu das Artes ganharam fama, e sebos e bazares passaram a procurá-los para vender discos em grandes quantidades ou abaixo do preço. Quando se deram conta, estavam vendendo lotes de discos e viajando o Brasil para participar de feiras. Conciliar as carreiras começou a ficar complicado, e Edvaldo abriu mão de um dos dois turnos nos quais atuava como professor.

Casa Nova

Em 2019, surgiu a oportunidade de ter um endereço físico na Galeria Nova Barão, no centro de São Paulo. Além de loja de discos, a ideia era que o lugar também funcionasse como ponto de encontro para quem vive a música. 

Pouco a pouco, o espaço passou a receber audições de álbuns, apresentações, exposições e sessões de autógrafos, e o casal trocou de vez de carreira.

“Por termos vindo dessa coisa das posses, que é algo também ligado à militância, nós sempre acreditamos que as coisas têm que estar interligadas: música, cultura, educação…Então a nossa loja é um grande ponto de encontro. Qualquer loja de discos, qualquer espaço como esses, é um espaço cultural”, afirma Edvaldo.

E foi a partir dessas trocas que a Made In Quebrada ampliou a sua atuação para o mercado fonográfico. O selo musical surgiu quando o músico Diego Estevam, frequentador da loja, procurou Edvaldo e Marisa sugerindo que eles gravassem sua banda, o Conde Favela Sexteto, grupo instrumental do ABC paulista.

O casal topou a ideia e passou a selecionar outros trabalhos para lançar em vinil, priorizando artistas independentes e, especialmente, nomes da periferia. Hoje, o catálogo chega à casa dos 40 títulos, com nomes como Murica, Puro Suco, Carlos Dafé, Janine Mathias e Flaira Ferro.

“Toda semana aparecem artistas independentes nos procurando para novos lançamentos”, comenta Marisa.

A escolha dos artistas não depende apenas da perspectiva de venda. Os dois procuram trabalhos com os quais se identifiquem e que, por diferentes razões, mereçam ganhar uma edição física. Às vezes, isso significa apostar em um disco mesmo sabendo que será difícil recuperar o investimento.

“Vamos vender o disco do Roberto Carlos para fazer o disco do Conde Favela”, brinca Edvaldo. “A nossa missão é criar espaços e fortalecer quem não é olhado pela grande indústria”.

“Eu acho que o mais importante é quando você é livre pra fazer. Nós estamos dentro disso porque queremos, então não tem impedimentos. Somos livres para fazer independentemente da perspectiva de lucro”, completa Marisa.

A aposta de Edvaldo e Marisa em artistas independentes e periféricos, portanto, ajuda a explicar por que a Made In Quebrada não pode ser entendida apenas como uma loja que criou um selo. A trajetória dos dois já era atravessada pela cultura muito antes de os discos se transformarem em fonte de renda, e hoje, tanto a loja quanto o selo oferecem outra maneira de colocar essa disposição em prática. 

“É uma realização. Optamos por trabalhar com educação por um tempo e vimos que a escola não era o único espaço possível para isso. Aqui, nós trabalhamos com algo tão importante para a humanidade quanto a escola e a educação formal. Aqui a gente trabalha com educação cultural”, diz Marisa.

“Acho que o selo da Made In Quebrada me dá a realização de algo que, lá nos anos 90, não conseguimos fazer plenamente. Então estamos concretizando algo que começou há 30 anos. É uma realização de vida inconsciente, quase uma extensão do que nós somos”, completa Edvaldo.

Por:

Guilherme Serrano

Fotos: Divulgação/Maria Isabel Oliveira, Marcelo Papa

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