PEDRO SOARES - 1744 (1)

VANDAL revela como foram construídas as canções de “VANGUARDAH”


Por:

Pedro Figueiredo

Fotos: Pedro Soares

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VANGUARDAH (2026) representa um momento especial na carreira de VANDAL, além de ser o primeiro álbum do rapper, o projeto é, ainda, uma homenagem a duas figuras que moldaram seu caráter e sua fé, sua avó e a Santa Dulce dos Pobres. O projeto é uma grande homenagem também à cultura baiana, abordando festas de largo e a musicalidade da região de Salvador. O disco ganha agora uma uma edição especial em vinil pelo NRC+.

Confira abaixo uma descrição de cada faixa do álbum, com as referências e explicações, feita pelo próprio artista:

"SAVEIROZH": Um fato que pouca gente sabe é que ela tem um sample do nosso saudoso Dorival Caymmi, além do sample de abertura. A faixa é uma saudação a cultura dos saveiros que é muito rica e que não estava sendo olhada de uma forma que nós entendemos que tem que ser. Eu quis fazer essa saudação a esse processo das embarcações, porque eu sempre vi essa movimentação. Então, pra abrir o disco, eu precisava dessa contundência.

"VANGUARDAH": Essa música deu sentido pra gente desenvolver o disco em si.
A gente pensava em ter essa faixa como um rock dentro das histórias. Utilizar muitas guitarras... E a faixa foi buscando para ela esse sentido que, num determinado momento, soou meio que como um tribal. Partiu para as percussões, e dentro dessas buscas da própria canção, a gente foi entendendo as possibilidades que a gente tinha nela. Quando a gente conseguiu encaixar ali os instrumentais, principalmente a guitarra do Colibri, ela deu essa nuance que precisava, e a partir disso a gente conseguiu fazer soar meio que como um drill, que também flerta com o tribal pagode baiano antigo.

"PONTOH DEH REVOLTAH": Eu precisava fazer essa junção entre os Racionais e o samba-reggae. Essa canção vem para pontuar isso; entender o que o samba-reggae fez por mim e o que os Racionais fizeram pelo país inteiro, através de uma música de contundência e de letramento preto. Depois que a faixa ganhou o corpo que ganhou, ela acabou pedindo aquele final que saúda as cordas. Depois da entrega que fizemos para o KLJay, ele nos devolveu a faixa já com esse corpo mais definido e também, com o sample dos Racionais MC's, o que é muito significativo: ter os Racionais dentro de uma faixa capitaneada pelo nosso saudoso DJ KLJay.

"AH VERDADEH DAH CIDADEH": É uma ode ao pagode baiano antigo. E faz referência direta ao disco A Verdade da Cidade (2007), do Parangolé, capitaneado por Bambam e Nenel. O nosso grande Bambam é o maior cantor de pagode baiano e também um amigo pessoal. Quando colocamos as guitarras de Jaguar, que é quem toca as guitarras dessa faixa, ela ganhou outra dimensão.Ela também homenageia o nosso saudoso Calibre MC, grande produtor, fundador do BAtfun Beat, um dos primeiros movimentos a unir a música percussiva com música eletrônica, trazendo o pagode e o samba-reggae para esse universo.

"AVEMARIAH": Na periferia de Salvador, existe uma cultura de caixas de som dentro das geladeiras. É um sistema de som improvisado. Então, era muito habitual ver um vizinho com sua geladeira recheada de caixas tocando de tudo, de samba-reggae a pagodão baiano e axé. Só que existe um momento, às 18h, em que se toca “Ave Maria”.Eu sempre tive essa vontade de homenagear esse momento, de fazer com que o mundo ouvisse isso. É como se eu voltasse para diferentes épocas da minha vida em Salvador, para minha infância, para minha história antiga e também para o presente. Ali, a gente tem essas vozes líricas da Liz Reis, e também das crianças; são de pessoas próximas.

"ANJOH BOMH DAH BAHIAH": É a grande continuidade da reza “AVEMARIAH”. É uma segunda oração, que dá sequência a esse momento de fé dentro do disco, mas, agora a partir da minha própria devoção a Santa Dulce dos Pobres. É a voz da Santa que está dentro do disco, dentro dessa oração. Essa voz vem ambientada pela Orquestra Afro-Sinfônica, com as vozes maravilhosas das cantoras da Orquestra, sob a regência do maestro Ubiratan Marques.

"SUPEREH": Inicialmente, a intenção era que ela fosse uma faixa a capela. Mas, mais uma vez, a música foi buscando as próprias possibilidades. Depois de algumas experimentações, o Tiago Simões, de uma forma majestosa, entregou um instrumental que me convenceu de que era pra ser dela. Era exatamente o discurso que a faixa precisava, esperança, superação e a ideia de que é possível seguir em frente. Esse discurso é ambientado pelo instrumental do Tiago Simões e, depois, ganha o corpo dos músicos, com as cordas regidas pelo maestro Ubiratan Marques e a percussão regida pelo Ícaro Sá.

"RÉQUIEMH PARAH UMH SONHOH": Sou muito fã de Réquiem para um Sonho (2000). O filme aborda o abuso de drogas, mas também flerta com o lúdico, com o fantasioso e, principalmente, com os sonhos. Mais do que simplesmente homenageá-lo, eu queria que a faixa funcionasse como uma espécie de trilha para ele. Eu sempre quis, de alguma forma, trilhar esse filme. Essa faixa nasce desse desejo de criar uma atmosfera que dialogue com aquele universo. Ao mesmo tempo, Salvador sempre teve uma relação muito forte com a música caribenha. A gente teve em outros momentos, bandas como Salsalitro e Mambolada, que fizeram história pela cidade e pela Bahia. Salvador sempre flertou com o Mambo, com a Mambolada, com Merengue, com a Salsa e com toda essa sonoridade latina, e eu precisava homenagear isso. A faia também tem participação da Josyara.

"MULHEREZH DAH MINHAH VIDAH": Essa faixa não tinha participações. Foi depois de um encontro com Giovani Cidreira que tudo começou a mudar. Ele se identificou imediatamente com a música, tanto que entregou, no dia seguinte, aquele verso e todos nós ficamos maravilhados. A faixa já tinha aquelas guitarras mais etéreas, com uma sonoridade meio espacial e diferenciada. Eu sempre quis que o final de VANGUARDAH tivesse essa sensação de sonho. A gente passa por momentos muito contundentes ao longo do disco, depois entra nas rezas, e então chega nesse lugar de sonho, sonho de vida. Eu acredito muito no ato de sonhar. É o sonho que faz a gente buscar, continuar tentando, imaginar possibilidades e seguir em frente.

"SONÄNBULOH": Essa tem quase dez anos. Surgiu a partir das minhas experimentações com Livia Nery, Russo Passapusso e SekoBass. Ela já tinha esse desejo de falar sobre o sonambulismo. Ao mesmo tempo, o Russo já pesquisava esse universo por meio de vinis que falam sobre sonambulismo e sonhos. De alguma forma, esse universo já estava presente na pesquisa. Eu também já queria falar sobre um amor que eu não consegui viver, ou que me prendia, mas que, ao mesmo tempo, parecia que eu amava. Era como estar sonâmbulo dentro das exigências daquele amor, vivendo uma relação sem conseguir enxergar completamente onde aquilo estava me levando. Eram situações vividas, experiências reais. Eu já tinha essa letra. Então, há quase dez anos, esses desejos, essas experiências e essas nuances se encaixaram e deram origem a “SONÄNBULOH”.

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Pedro Figueiredo

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