
A década de 1990 foi fundamental para a carreira de Marisa Monte. Foi ali que a voz dela se solidificou como uma das mais conhecidas no país, marcando presença nas listas de álbuns mais vendidos, nas paradas dos rádios e em shows lotados.
Foi quando também a artista lançou, consecutivamente, três álbuns marcantes na sua discografia, sendo o último deles Barulhinho Bom – Uma Viagem Musical (1996), prensado pela primeira vez em vinil pelo NRC+. Listamos cinco curiosidades que explicam a importância desse disco e como ele ainda ecoa em alto e bom som mesmo 30 anos após o seu lançamento.
Uma viagem audiovisual
Além de levar a experiência do ao vivo e do estúdio para Barulhinho Bom, Marisa Monte também quis registrar esse período em vídeo. “O ano era 1996. A ideia era promover encontros musicais com parceiros e amigos sem ensaio e com total liberdade para serem filmados para o DVD de Barulhinho Bom. Meus convidados: Novos Baianos, Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Davi Moraes e as pastoras da Velha Guarda da Portela. O cenário escolhido foi a ruína do hotel das Paineiras, na Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, aos pés do Cristo Redentor”, compartilha em seu site.
Dirigido por Claudio Torres e Lula Buarque de Hollanda – filho da intelectual Heloísa Teixeira e não de Miúcha, irmã de Chico Buarque –, o material de quase cinquenta minutos reúne trechos da turnê Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-rosa e Carvão (1994), além de cenas na estrada e trocas com outros artistas.
“Tocamos e cantamos as músicas que amávamos, nosso repertório afetivo comum, entre gargalhadas e olhares cúmplices. Ouvir esses registros me faz sorrir ao lembrar de dias luminosos, no meio da natureza, com a cidade aos nossos pés, pertinho do céu, vivendo um sonho encantado daquele momento musical coletivo. Uma viagem musical”, Marisa continua. Em 2020, as canções gravadas em Paineiras deram origem ao disco Hotel Tapes.
Do eterno novo baiano
Num disco repleto de homenagens à música brasileira, Marisa Monte aplicou a mesma fórmula para o nome do trabalho. O “barulhinho bom” vem de um dos versos de “Chuva no Brejo”, canção do primeiro álbum solo de Moraes Moreira, lançado em 1975. No DVD de Barulhinho Bom, ela aparece cantando ao lado do novo baiano e do filho dele, Davi Moraes, seu namorado à época.
Zéfiro e a censura
Entre as décadas de 1950 e 1970, um ilustrador publicou centenas de quadrinhos eróticos sob o pseudônimo de Carlos Zéfiro. Quando os anos 1990 chegaram, ele finalmente saiu do anonimato e revelou sua verdadeira identidade.
“Na época de lançamento, já se conhecia e podia-se homenagear o verdadeiro criador por trás dos quadrinhos geniais. Seu nome era Alcides Caminha, que além de tudo era parceiro musical de Nelson Cavaquinho e um grande compositor”, Marisa compartilhou no seu site.
A homenagem da artista foi direto para Barulhinho Bom, cuja direção de arte ficou a cargo de Gringo Cardia, que desenvolveu a identidade com base no trabalho de Zéfiro. Ao ser lançado nos Estados Unidos, a imagem foi censurada com uma tarja nos seios da mulher que estampa o álbum.
Arto Lindsay
No disco de 1996, Marisa Monte repete a parceria com Arto Lindsay que já havia se mostrado de sucesso em trabalhos anteriores. Depois de assinar sozinho a produção musical de Mais (1991) e, anos depois, a de Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carvão (1994) junto com a cantora, o estadunidense volta a dividir essa função com ela em Barulhinho Bom.
Para a pesquisadora Pérola Mathias, Arto, que chegou ao Brasil na juventude, teve um papel importante não só no começo da carreira de Marisa Monte, como também de outros nomes com quem colaborou. “Em sua relação com a música brasileira, Lindsay inseriu nela novos elementos que trouxe de vivências em ambientes experimentais de criação. Foi assim nas parcerias que estabeleceu com Caetano Veloso, Marisa Monte, Carlinhos Brown, Gal Costa e uma série de novos músicos a partir dos anos 2000”, escreveu em 2020 no Nexo Jornal sobre a sua tese de doutorado, Em estado de invenção: a trajetória de Arto Lindsay.
Os Tribalistas
Antes de formarem o supertrio no começo deste milênio, Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown colaboraram anteriormente, testando as águas que demonstrariam a química musical entre eles.
Um desses momentos aconteceu em Barulhinho Bom, no qual Marisa gravou três composições inéditas de Brown, “Arrepio”, “Magamalabares” e “Maraçá” – na primeira parte do disco, ela ainda canta “Segue o Seco”, música do baiano que entrou em Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-rosa e Carvão. Arnaldo Antunes também aparece na ficha técnica de Barulhinho Bom. Ele coescreveu “Beija Eu” e “Bem Leve”, gravadas ao vivo por Monte.









