
Embalo, disco solo de Tenório Jr., saiu em 1964, no auge do samba-jazz, e mais de 60 anos depois, renasce com a mesma energia de quando foi gravado. Com a edição em vinil lançada pelo NRC+, a obra de um dos músicos mais brilhantes de sua geração ganha outro motivo para ser celebrada.
A seguir, apresentamos 5 fatos que explicam a força de Embalo.
Único disco solo de Tenório Jr.
Embalo foi o único álbum solo gravado por Tenório Jr. Lançado pela gravadora RGE em 1964, o disco chegou quando o pianista já era um músico de estúdio requisitado.
Sua contribuição para a música brasileira também está espalhada em álbuns de outros artistas como Edu Lobo, Milton Nascimento e Gal Costa, mas é só neste que ele assume totalmente o controle:
“Tudo me foi creditado, desde a escolha dos temas e arranjos até o detalhes mais técnicos, como estúdio, engenheiro de som, capa, etc.”, escreve o artista na contracapa da primeira prensagem de Embalo.
Marco do samba-jazz
A gravação de Embalo é permeada pela mistura entre bossa nova, samba, jazz e bebop. A cena musical carioca se reunia no Beco das Garrafas, em Copacabana, e desses encontros surgiam novas fusões.
Frequentador do local, Tenório capturou como poucos o encontro da sofisticação da bossa nova com o improviso do jazz e a pulsação do samba. Não à toa, transitou por diferentes ritmos em suas colaborações.
Assim, Embalo é um marco da vertente conhecida como samba-jazz e, consequentemente, da música instrumental da época.
“Tenório Jr. e seus contemporâneos contribuíram largamente para a música instrumental brasileira (...) A música era de tal forma à frente do seu tempo que, ainda hoje, os músicos ouvem e se influenciam por ela”, diz o pesquisador Vinícius Mendes Rodrigues no artigo Embalo: sobre a obra única de Tenório Jr.
Time de músicos estelares
Tendo em vista o seu trânsito no circuito musical dos anos 1960, era natural que Tenório Jr. escolhesse a dedo o time de músicos do seu disco.
A seleção é formada por Milton Banana e Ronnie (bateria); Sergio Barroso Netto e José Antonio Alves (baixo); Celso Brando e Neco (violão); Pedro Paulo e Maurilio (pistões); Edson Maciel e Raulzinho (trombone); Paulo Moura (sax alto); J.T. Meirelles e Hector Costita (sax tenor) e Rubens Bassini (atabaque).
“Vale ressaltar que a maior parte dos músicos supracitados tinha trabalhos solo, tamanha era a quantidade de músicos e álbuns produzidos nesse período”, relembra Vinicius.
Muitos desses artistas também dividem outros trabalhos com Tenório. Milton Banana, por exemplo, está em A Arte Maior de Leny Andrade (1962) e O LP (1964), d’Os Cobras. Já J.T. Meirelles, Raulzinho e Paulo Moura, além de também fazerem parte d’Os Cobras, tocaram com Tenorinho em Edison Machado É Samba Novo (1964).
Gravação em mono
A nova edição de Embalo lançada pelo NRC+ preserva a mixagem original do disco, em mono, como era comum na época.
Marcos Abreu, engenheiro de som do NRC, explica que o processo técnico de recuperação do som partiu de uma cópia em vinil da edição original de Embalo.
Por meio de equipamentos de última geração, o tratamento sonoro foi feito com o objetivo de remover ruídos e distorções sem comprometer a textura da gravação.
“A limpeza foi feita da forma mais conservativa possível, então podemos até ter um chiadinho de fita no fundo”, explica Abreu.
O resgate póstumo
O relançamento de Embalo acontece em um momento simbólico: após cinco décadas, o desaparecimento de Tenório Jr. foi oficialmente esclarecido, com a confirmação de que o músico foi sequestrado e morto na Argentina.
“É um alívio porque, finalmente, podemos saber com mais segurança o que aconteceu com ele naquele triste março de 1976. De alguma maneira, estaremos mais próximos”, afirmam os filhos Elisa, Andrea, Francisco e Margarida em comunicado.
Assim, a nova edição do disco surge como uma forma de reafirmar o lugar de Tenório Jr. como um dos grandes instrumentistas de nossa música, bem como de devolver a ele o brilho interrompido por uma tragédia política.













