
Vanguarda é uma palavra constante na trajetória artística de Vandal – nome artístico de Luis Sidnei Barbosa Correia. Nascido em Salvador, ele se tornou pioneiro do grime e do drill, subgêneros do rap britânico, no país.
Depois de lançar duas mixtapes, TIPOLAZVEGAZH MIXTAPEH (2015) e PHODI$MO MIXTAPE VOL. 1 (2021), o rapper apresentou seu primeiro álbum, VANGUARDAH, que concomitantemente ao lançamento digital, terá edição em vinil na loja NRC+.
O disco parte da relação do artista com as suas duas maiores referências: a avó Neusa e Santa Dulce dos Pobres, não à toa, o disco chegou ao streaming em 13 de agosto, dia em que a santa é celebrada.
“Minha música é muito mais sentimental do que uma música técnica, dentro dos modais do rap,” diz Vandal.
“Sou um menino criado por vó, vivi minha vida com ela. Aprendi a costurar, a lavar roupa, percorria o bairro com a trouxa de roupas lavadas por ela.”
Quando a avó ficou internada no hospital Obras Sociais Irmã Dulce, ele lembra de ter sua fé testada.“Minha avó ficou um tempo lá e eu fui acometido por esse milagre palpável, por essa fé em movimento, que é a obra da Santa Dulce". Foi ali que Vandal conheceu as histórias da mais famosa freira baiana.
Antes de se apegar à santa, Vandal já tinha frequentado outras religiões, como testemunhas de Jeová, na Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, e os terreiros vizinhos à sua casa.
“Em Salvador, a gente vive uma religiosidade em movimento.”
Sincretismo musical
Se na fé, o músico bebeu de muitas fontes ao longo da vida, na música não foi diferente. O sample da voz da Santa Dulce aparece em “ANJOH BOMH DAH BAHIAH”, faixa com arranjo de Mateus Aleluia e execução da Orquestra Afrosinfônica. Além disso, carrega outra grande influência: as festas de largo.
Tradicionais em Salvador, essas festividades misturam manifestações culturais e religiosas – sejam do catolicismo, ou de matriz africana – à música, dança e gastronomia.
“Não sou como os MCs convencionais – e não falo isso de uma forma soberba. Não venho da escola de rap norte-americano ou das batalhas de freestyle. Escrevi as minhas primeiras letras para bandas de pagode. Meus primeiros palcos foram nas festas de largo, com trilha sonora de lambada francesa, arrocha, axé music, samba-reggae e samba duro.”
A relação com o rap vem de outras referências, principalmente do grime londrina. O baiano cita, por exemplo, nomes como Lady Sovereign e DJ Semtex: “Eu não queria ser como um MC norte-americano, queria ser como aquela mulher londrina que viralizou mandando trechos de música para o e-mail de um cara desconhecido. Era isso que eu achava foda".
Outras referências como o Olodum e o afoxé Filhos de Gandhy, bem como o reggae de Jimmy Cliff, Gregory Isaacs e Edson Gomes também foram fundamentais na sua formação musical.
“O meu Racionais é o Olodum. As nossas músicas de levante, de enfrentamento, de autoestima são trilhadas pelo samba-reggae, que falam da África. Tanto que ‘PONTOH DEH REVOLTAH’ é um samba-reggae capitaneado pelos samples dos Racionais pelo próprio KL Jay.”
Para amarrar tantas referências ao flow característico de Vandal, ele contou direção musical de Russo Passapusso. Inclusive, foi o vocalista do Baianasystem que o aproximou do Maestro Ubiratan Marques.
Nas colaborações de VANGUARDAH, há o próprio Russo Passapusso, mas também Josyara, Giovanni Cidreira, Liz Reis, Lívia Nery, SUHHH, Hiran e DJ KL Jay.
Primeiro capítulo
A diretriz criativa partiu da faixa que dá nome ao disco, “VANGUARDAH”, mas engana-se quem pensa que esse universo se limita às 10 faixas do álbum. Esse é o primeiro capítulo de uma trilogia que se completará com mais dois álbuns: FEZTAH DEH LARGOH e EAUH DEH PARFUMH.
No segundo, Vandal pretede se aprofundar ainda mais na importância dos ritmos populares e nas festas de largo, enquanto no terceiro, o foco é uma pesquisa baseada em samples.
“Eu queria fazer o VANGUARDAH com 20 e poucas músicas, mas ele escolheu as músicas que deveriam estar ali.”
Apegado às próprias raízes, Vandal quer fazer desse momento, uma celebração da sua história e de quem o trouxe até aqui, para isso ele faz de Salvador seu altar e de suas figuras, os ídolos.

















