image

Mauricio Pereira assume a poesia em novo disco e se inspira em novas escritoras


Por:

Felipe Tellis

Fotos: Bruno dos Anjos/Divulgação

COMPARTILHE:

Mauricio Pereira é dos melhores contadores de história que temos. É daquelas pessoas que te pegam pela conversa e, quando você percebe, já está ali interessado no assunto, totalmente alheio à realidade em volta. 

Foi quando me mudei do interior de São Paulo para a capital, no meio da pandemia, que mergulhei de vez em sua obra, muito paulistana, talvez para entender um pouco a cidade e me sentir mais pertencente a ela, tão fria e impessoal. 

Naquele momento, consegui reconhecer a famosa esquina da Augusta e a Bela Cintra, citadas em “Mulheres de Bengalas”, e passava vez ou outra pelos tantos endereços lembrados pelo artista em “Modão de Pinheiros”. Além, claro, de ir criando na cabeça as histórias sedutoras escritas e cantadas por ele em faixas como “Dia Útil”, “Não Me Incommodity”, “Tudo Tinha Ruído”, entre outras.

Em O Dia da Girafa (2026), seu sexto álbum solo de inéditas, Mauricio Pereira volta diferente, não tão contador de histórias linear como sempre foi, segundo ele. “Agora, o ouvinte vai ter que juntar alhos com bugalhos”, afirma sobre as canções compostas ainda na época da pandemia. Provavelmente reflexo da reclusão, a crônica das novas faixas agora não está mais nas ruas e nos seus personagens, mas sim na poética de seus próprios pensamentos, mas há exceções. 

Na colaboração com A Espetacular Charanga do França, “O Leme é um Lugar Genial”, ainda é possível ir imaginando e se encontrando no que Mauricio canta, nesta faixa, nos moldes do Carnaval Turbilhão, seu disco de 2010 revisitando marchinhas de carnaval. A canção foi escolhida como segundo single do novo projeto, revelado ao público em maio, no último dia de transmissão da Rádio Eldorado de São Paulo, onde Mauricio apresentava o programa “Música Falada”. Na ocasião, ele revelou aos ouvintes “Casamata de Amoreiras”, parceria com Rômulo Fróes, que antes de chegar ao streaming, abrindo os trabalhos da nova fase, tocou primeiro no rádio. Tão Mauricio Pereira.

Em entrevista à Noize, ele conta que o novo álbum é muito suave, mais melódico e com roupagem mais simples e mais pop: “pop para um alternativo, como eu”, brinca ele. 

Além de Rômulo Fróes, neste projeto Mauricio trabalha pela primeira vez também com Edson Natale, com quem compôs a faixa de abertura, “Uma Vida Standard”, que volta para encerrar a audição numa versão acústica. Fazem parte das novidades também Fábio Sá no baixo elétrico e Julia Toledo no piano. Porém, velhos companheiros, como Tonho Penhasco e Lu Horta (Barbatuques), também estão ali; ele na guitarra e na composição de “Quanta Barbaridade” e, ela, da faixa-título, repetindo a parceria de “Mulheres de Bengalas”.

Completam a ficha técnica Biel Basile (O Terno) na bateria e na produção, e ainda, os filhos Tim Bernardes, parceiro de composição em “Eu Trago o Coração Vazando”, faixa em que também gravou parte do baixo e arranjos de metais, e Chico Bernardes, responsável pelos violões e co-produção. “Ele tem um mundo interno dentro daquele cabelão. Ele percebe muita coisa. Ele é muito detalhista e fuçador das coisas”, se derrete em relação ao caçula, que fez a mix do disco. 

Segundo Mauricio, o novo álbum é muito analógico, mas foi Chico que usou IA, por exemplo, para corrigir uma letra gravada errada. “Quando já estava tudo pronto, ele achou um jeito. Ele e o Biel fizeram uma dupla de produtores muito suave”, revela.

O Dia da Girafa conta ainda com participações de Anaïs Sylla e Maria Cau Levy nos vocais de “Alfabetiza”, minha faixa favorita, uma das duas composições de Mauricio com Biel Basile; a outra é “Caquinhos”. Segundo o cantor, o baterista enxergou música em registros que ele não tinha planos de lançar e que eram apenas rabiscos em cadernos da época da pandemia.

“A mão delicada do Biel está na raiz dessa sonoridade que o disco tem, um pouco analógica, delicada, refinada e, ao mesmo tempo, descomplicada. É um disco simples; não tem nada de estrondoso, nenhuma grande invenção; é um disco de canções artesanais”

Ainda sobre o nascimento das novas canções, Mauricio revela que sob a pressão do período pandêmico, somado às leituras de autoras como Bruna Beber e Marília Garcia, desta vez seu processo de produção foi diferente. “Meu feeling respondeu de um jeito mais poético do que linear. Elas trabalham muito com associação, algo que aparece bastante na psicanálise. Às vezes você não entende nada, mas se você fechar o olho, você entende. Eu dei a luz a imagens”, explica.

O novo álbum chega oito anos após o trabalho mais recente de inéditas do cantor, Outono No Sudeste (2018), apesar de ele ter lançado o Micro em 2022, com regravações de sua própria obra, em formato voz e guitarra, num dueto com Tonho Penhasco.

Para finalizar, ele garante que não foi tão “radical” como as escritoras em sua obra, afinal, faz música popular. “Estou com o pé na simplicidade”, diz.

*Felipe Tellis é jornalista e apresentador de rádio. Além da Rádio Eldorado, já passou por 89, a Rádio RockRádio Disney Rádio Alpha, e pela redação do site Tenho Mais Discos Que Amigos. Agora, também assina a coluna mensal Sintonize, aqui no site da Revista Noize.

Por:

Felipe Tellis

Fotos: Bruno dos Anjos/Divulgação

COMPARTILHE:


VER MAIS

RECEBA NOVIDADES POR E-MAIL!

Inscreva-se na nossa newsletter.