
O fenômeno argentino Milo J voltou ao Brasil no início de outubro para divulgar seu novo projeto audiovisual, La Jangada, que celebra um ano do disco que fez sua carreira explodir em outros países (inclusive no Brasil, onde esgotou shows), La Vida Era Más Corta. Em um bate-papo breve, mas profundo com a Noize, o rapper falou sobre as referências familiares que moldaram sua identidade musical, a relação entre rap e folclore argentino e os encontros entre gerações que a música torna possíveis.
Com composições escritas nas notas do celular e o folclore argentino transbordando de suas palavras e escolhas, Milo J tem feito toda gente entender a Teoria da Relatividade de Albert Einstein, em que a distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão persistente.
Tanto que seu hoje começou no ontem. Quando perguntamos o que em Morón, cidade onde ele nasceu, o ensinou a ser quem é, Milo não escolheu uma canção nem uma esquina. Escolheu uma pessoa. “Se eu te falo de Morón, eu falo da minha irmã”, disse. Alma, sua irmã mais velha, que atualmente é responsável pelo estilo cheio de camadas de profundidade do cantor, o ensinou a escutar.
“Alma me mostrou outro tipo de música que não era a que eu escutava em casa. O rap, as batalhas, El Langui, [rapper espanhol] Wu-Tang Clan [grupo de hip hop de Nova York], 7 Notas 7 Colores [grupo pioneiro de hip-hop espanhol da década de 90], depois o rap, o trap, o trap argentino, o rock argentino…”
Com o tempo, vieram as batalhas de freestyle, os amigos, os sons produzidos em casa, os beats do agora, a vida mostrando a ele como encontrar seu som, seu tom, seu jeito de (re) existir. E Milo J percebeu que havia vozes argentinas esperando por ele em outros tempos.
Perguntei se havia uma primeira canção folclórica que ele lembra de ter escutado e pensando: “é isto, sou eu aqui”. Ele não hesitou:
“Cuando ya nadie te nombre”, de Horacio Guarany. Me senti tão interpelado por essa letra que era como se eu estivesse dizendo tudo aquilo. Acredito que aí foi um certo início, foi como dizer "quero fazer dessa forma”, sabe?”
E fez. Em La vida era más curta, o asfalto, a poesia, o violão, o ronco do chimarrão e o folclore bailam juntos. Com o rap, a chacarera, a zamba, o funk, os sons urbanos, o bombo legüero, a bossa nova, a produção eletrônica. Ele o faz sem parecer visita protocolar ao passado. Como ele mesmo explicou:
“Sou muito de experimentar ritmos, harmonias ou coisas que escuto no momento. Todas as misturas/combinações que fiz foram genuínas, sabe? Não foi como as pessoas acham, uma decisão pensada. La vida era más corta é um conjunto dos sons que eu estava mesmo escutando.”
Aliás, em sua playlist, podem aparecer Gilberto Gil e MC Hariel, Tyler, The Creator, Horacio Guarany e Mercedes Sosa. “Uma salada de frutas”, definiu. Quando observei que tudo existia junto, respondeu: “Na minha cabeça, tudo existe junto”.
Na de Einstein, também. O que, quem sabe, seja um jeito bonito de começar a entender o fenômeno Milo J: sua música não pede que a gente escolha uma época para viver. Podemos existir em todas. Por que não?
Afinal, honrar uma herança também é colocá-la em circulação. E alguém ainda na adolescência pode chegar em Milo J através da batida do trap e acordar em si uma vontade avassaladora de aprender a amar Jaime Dávalos, Horacio Guarany, os Carabajal, Mercedes Sosa. Ou, como ele mesmo faz, deixar no repeat e cantarolar por dias seguidos “Sou Jogador”, ponto de capoeira do Mestre Barrão.
La Vida Era Más Corta
O terceiro álbum de Milo J chegou ao mundo em setembro de 2025 pela Sony Music Latin. São 48 minutos e 15 canções atravessadas pela memória, ancestralidade, finitude, pertencimento, as relações e a pergunta que todo mundo faz em algum momento: o que estamos fazendo com o agora? O disco estreou entre os mais ouvidos do planeta, e “Niño” chegou às primeiras posições globais.
O título vem de uma frase escrita para a canção homônima, que fala de uma promessa de amor que chega com a dolorosa certeza de que não poderia ser cumprida.
Quando perguntei se a música havia sido escrita à mão, como sugere o projeto gráfico do disco, ele achou graça.
“Se a ideia aparece, eu preciso registrar na hora, antes que suma. “La Vida Era Más Corta nasceu nas notas do meu celular. Embora não pareça”, disse, olhando com surpresa para o caderno de anotações feitas com canetinha que estava em meu colo. De vez em quando, invento melodias para as frases que estão esperando. Mas, às vezes, me diverte muito criar melodias sem letra e ver o que me diz”
Quando contei que Mercedes Sosa sonhou algumas de suas melodias, ele sorriu.
Mercedes, cantora argentina que entre muitas coisas foi e é uma das vozes mais importantes da resistência política e cultural da América Latina, a ponto de ter sido presa pela ditadura militar durante um show e de ter ganho o apelido de “a voz dos sem voz”, é uma das presenças mais comoventes do disco.
Em “Jangadero”, Milo canta com um registro dela feito em 2006, ano em que ele nasceu. Como ela partiu em 2009, os dois nunca dividiram um estúdio, mas a vida é maior, e suas vozes agora dividem uma canção. Afinal, em algumas histórias, o calendário não impede o encontro.
Em seu tempo, Mercedes fez da música latino-americana um lugar onde cabiam territórios, compositores, injustiças, afetos e gerações. Sua voz carregava canções de muita gente, sem que nenhuma deixasse de ser singular. Milo faz o mesmo.
“Não há barreiras geracionais que a música não rompa. Escutar Soledad Pastorutti cantando e Trueno rimando no mesmo disco significa encontrar histórias marcadas por momentos muito diferentes da Argentina. Não se trata de apagar essas diferenças, mas de deixar que se escutem.”
Tiny Desk
A apresentação no Tiny Desk, da NPR, em 2026, deu uma imagem a essa convicção. Milo levou instrumentos, referências da Argentina e a força vocal do grupo de murga uruguaia [manifestação musical e teatral popular do Uruguai] Agarrate Catalina para um espaço conhecido por revelar o som dos artistas sem a proteção de grandes produções.
Se alguém imaginava que a experiência lhe ensinara apenas a alcançar um público global, a resposta foi outra. “A esperar”, ele disse. O projeto precisou ser proposto duas vezes. O Tiny Desk o ensinou a ter paciência.
“Estabeleceu-se na música urbana essa coisa de se escutar com o autotune, todo produzido. Acho que o Tiny Desk tem uma crueza e uma realidade que acontecem muitas vezes na rua, em festas folclóricas ou em encontros com amigos para cantar, e traduz muito bem isso para o digital. Com o meu Tiny Desk e com o Tiny Desk no geral, aprendi muito a me escutar e a escutar a música com essa crueza, essa realidade, esse feeling.”
La Jangada
Essa escuta da verdade amplificou outra boniteza. Em La Jangada, filme musical lançado para celebrar o primeiro aniversário de La Vida Era Más Corta, Milo reuniu mais de 35 músicos de diferentes gerações em uma plataforma que flutuava mansamente em cima do rio Luján, localizado no norte de Buenos Aires. Juntos e ao vivo, eles reinterpretaram oito canções do álbum.
A obra, dirigida por Agustín Boffi, Lucas Rosas e Manuel Pons, chegou primeiro às salas de cinema de 14 países e depois às plataformas digitais. E é um assombro de encantaria: principalmente porque o barco de Milo J estava mesmo em movimento. Como na música, na História, na voz do povo argentino.















