catto.jpg (1)

Como o Japão criou vínculos com a música brasileira, da bossa nova à MPB


Por:

Damy Coelho

Fotos: Reprodução

COMPARTILHE:

No conto “Charlie Parker Plays Bossa Nova”, Haruki Murakami apresenta um disco de Charlie Parker tocando Tom Jobim – algo que nunca aconteceu, afinal, a bossa nova só despontou mundialmente quando o saxofonista já havia falecido. Quem se atenta para isso não sou eu, mas o próprio Murakami, que insere datas precisas no texto. Seu narrador conta ter sonhado com Parker tocando “Corcovado”, e o agradecendo: “Você me deu vida novamente, me fez tocar bossa nova. Nada poderia me fazer mais feliz”. A passagem fantástica chama a atenção para a capacidade que a música brasileira tem de inspirar fãs no Japão – sendo o próprio Murakami um deles.

Tom Jobim, como outros músicos brasileiros, tem fãs fiéis no Japão, já tendo excursionado no país. Willie Whopper, jornalista e pesquisador de música brasileira com seis livros publicados sobre o tema, lembra vivamente quando ouviu Jobim pela primeira vez: “Eu tinha 16 anos, um estudante do interior do Japão, sem dinheiro. Vi pela TV o show no Hibiya Open Air Concert Hall, de 1986, e me emocionei. Muito elegante, muito suave… Gravei num VHS e assistia todo dia!”. 

A partir daí, ele se apaixonou pela música brasileira e abriu-se a ele um leque de outros vários ritmos feitos aqui. Willie veio ao país pela primeira vez só em 2002, quando as rádios tocavam sucessos do Furacão 2000, Falamansa e Kelly Key. A versatilidade sonora brasileira o deixou ainda mais admirado, tanto que voltou outras vezes, sempre se atualizando sobre novos sons.

Hoje, a internet facilita o trânsito das canções pela América Latina e Ásia, e os selos independentes do Brasil e do Japão desenvolvem uma importante parceria nesse intercâmbio musical, que vem se consolidando após a pandemia. Yusuke Erikawa, responsável pelo departamento de música brasileira na Disk Union, a maior e mais antiga distribuidora de discos japonesa, conta que a companhia se interessa tanto por artistas novos do Brasil quanto por nomes consagrados.

“Escolhemos artistas que possam aproximar os fãs de música brasileira no Japão, como João Donato, Milton Nascimento, Arthur Verocai… e também Tim Bernardes, Rubel, Xênia França, Rafael Martini e Leonardo Marques, que podem atrair os principais clientes da Disk Union, aqueles que são colecionadores de cada gênero, como jazz, indie rock, soul”, conta Yusuke.

Outro selo japonês que investe na música brasileira é a Taiyo Record, loja fundada em 2005 pelo músico Ryosuke Itoh e sua esposa Shino. Para a curadoria de novos artistas, Ryosuke também negocia com selos brasileiros. “Eu checo os álbuns físicos e eles nos enviam notícias e amostras do que está acontecendo de novo no país. Muitos discos brasileiros que se tornaram populares no Japão foram importados da Tratore [distribuidora brasileira]”, explica. Além disso, Ryosuke mantém contato com músicos do Brasil e ainda revela uma prática comum entre amantes do vinil: “Também descubro novos músicos checando detalhes nas fichas técnicas dos álbuns".

O disco mais procurado na Taiyo Records é Onde Brilhem os Olhos Seus (2008), releitura de Fernanda Takai de Nara Leão. Inclusive, Ryosuke é fã do repertório de Nara: é dele a versão japonesa de "O Barquinho", chamada “Kobune”, que pode ser encontrada no YouTube. Ele também destaca o álbum Inteira (2010), de Tatiana Parra, como um dos favoritos dos clientes. 

A impressão que fica é que o público japonês é, sobretudo, profundamente interessado pela pesquisa, o que dialoga com o investimento do país em publicações sobre música. Muito da curadoria feita nesses veículos – como é o caso da revista Latina – apresenta o que há de mais novo e consagrado na música do Brasil.

Uma das principais estações de rádio de Tóquio, a J-Wave, mantém desde 1988 um programa dedicado à música brasileira, chamado “Saudade! Saúde”. Yusuke explica que os próprios DJs também exercem papel importante em espalhar a música brasileira no Japão. “Muitas vezes, as canções brasileiras são as favoritas”, conta.  

A expressão “Big in Japan”, que se popularizou, num tom jocoso, por causa de artistas que tinham mais repercussão no Japão que em seus países de origem, aponta para outra visão, menos estereotipada. Como o Japão é o segundo maior mercado musical do mundo e tem uma das populações que mais investem no consumo acurado de música, ser “grande no Japão” é, na verdade, algo imenso. Isso ajuda ainda na carreira do artista brasileiro, em um efeito reverso – e lamentável, se pensarmos que às vezes é preciso passar pela aprovação de um mercado externo para ser validado por aqui.

O que é que a música brasileira tem? 

Nicholas Lopes e Gabriel Bernini são, respectivamente, sócios dos selos Romaria Discos e Amigues do Vinil, que exportam álbuns brasileiros para o Japão, principalmente pela Disk Union, de Yusuke.

Com a fusão dos dois projetos, Nicholas e Gabriel passaram a lançar discos de vinil, e todos os lançamentos estão disponíveis no Japão, com exceção do LP Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo (2021), que esgotou na Disk Union em poucos dias.

“Especialmente, tivemos dois lançamentos viabilizados graças ao interesse da Disk Union, incluindo Vento de Beirada (2021), da Dora Morelenbaum e mãeana2 (2021), da Ana Cláudia Lomelino”, explica Gabriel.

A preservação de uma memória cultural e o incentivo ao consumo da mídia física como memorabília fazem a diferença para a nossa música ser admirada do outro lado do mundo. Segundo a Forbes, em 2017, mais de 75% do consumo de música no Japão advinha da mídia física. O mercado nipônico também investe em valor agregado a CDs e vinis, com encartes exclusivos e faixas-bônus - um incentivo ao consumo de mídia física que não é tão comum por aqui.

“Alguns pesquisadores se referem à música brasileira como endangered [em inglês, "ameaçada de extinção", "em perigo"]. Uma música 'em extinção’, que é enaltecida por lá e desvalorizada por aqui. Inclusive no formato físico. Muitos discos foram lançados por selos japoneses no passado, como os de João Gilberto, Jorge Ben Jor, João Donato e Leci Brandão. O Brasil conquistou um espaço no mercado da música de lá", aponta Nicholas. Nightingale (1979), de Gilberto Gil, é um exemplo disso. O álbum ganhou uma prensagem japonesa no mesmo ano de seu lançamento original nos Estados Unidos e foi o primeiro disco de Gil lançado no país.

Muitas vezes, a bossa nova é classificada nas lojas de discos como um segmento do jazz, o que pode ajudar a tornar esse gênero mais popular entre colecionadores. Mas não é exagero dizer que a nossa música já faz parte do cotidiano de Tóquio, como conta Yusuke: “O suingue agradável da bossa é perfeito como música ambiente, tanto que você ouve muita música brasileira em supermercados e restaurantes daqui". Ele acrescenta que “a música brasileira se adequa perfeitamente à sensibilidade dos japoneses”.

Para Yusuke, o álbum João Gilberto (1973) tem valor especial. “Foram das primeiras canções brasileiras que ouvi e continuo ouvindo há 20 anos. A melodia e harmonia são muito sofisticadas, tudo soa perfeito”, avalia. “Acho que a principal razão para o Japão gostar de música brasileira é o fato de ela ser tão maravilhosa. Há quem diga que o destino final para os verdadeiros amantes de música acaba sendo o reggae e a música brasileira”.

O próprio João Gilberto já gravou no Japão, é famoso o seu disco ao vivo In Tokio, de 2004, registrado na capital do país. Já Nara Leão gravou lá o seu disco Garota de Ipanema (1986), um raro exemplo de disco de estúdio de uma artista brasileira feito no Japão. Os álbuns que registram shows ao vivo são mais recorrentes, como On Stage (1972), de Jorge Ben, Ao Vivo em Tóquio (1987), de Gilberto Gil, e Japan Tour 2019 (2021), de Mônica Salmaso e Guinga.

Um barzinho, um violão

“Aqui no Japão, há uma considerável comunidade de admiradores da música brasileira”, reforça Willie Whooper. Em 2006, ele inaugurou o Barzinho Aparecida que - a despeito do nome de estabelecimento tipicamente brasileiro - fica em Tóquio. O local não funciona apenas como um bar, que, aliás, serve caipirinha e feijoada em seu cardápio. O lugar também tem discos e publicações brasileiras, além de oferecer aulas de português e de instrumentos, como pandeiro. 

“É um espaço de comunicação para os brasileiros e amantes da música brasileira se conhecerem e trocarem informações”, explica Willie. “Antes, vinham muitos brasileiros aqui, mas agora acredito que 90% do público é japonês”. Músicos brasileiros consagrados, que estão na cidade a passeio ou em turnê, como os membros do Pato Fu, já passaram por lá.

A influência da música brasileira ao longo das décadas vem reverberando também na cena asiática. Ryosuke cita a dupla de folk Yuki & Hide, que toca a bossa nova "Shiroi Nami", e Linda Yamamoto, cantando o samba "Moetsukisou".

Em uma entrevista ao canal de TV Record, a cantora independente Yuko Maeda, que canta canções brasileiras em bares de Tóquio, explica a relação profunda que tem com a música do Brasil: “Meu corpo é japonês, mas a alma é brasileira”. 

Penso nessas conexões para além do limite geográfico. Yusuke conta que já foi a Pernambuco e Bahia por admirar a música nordestina e deseja visitar Minas Gerais por estar em contato com músicos do estado. Ryosuke diz que "Clube da Esquina 2 (1978) é a melhor música de todas” e também gosta do Pato Fu, expoentes da música mineira.

Willie já visitou Belo Horizonte nada menos que seis vezes (disse que ama o prato típico kaol), entre outras cidades do Brasil, sempre seguindo suas pistas musicais. Ryosuke, Willie e Yusuke, além de ajudarem a sustentar uma cena de admiradores de música brasileira no Japão, são, sobretudo, como muitos de nós: fãs de música, apreciadores de memorabília musical, do encarte, da capa de um disco e de toda a experiência oferecida pela mídia física. 

Eles são como o Charlie Parker da ficção de Murakami, que agradece a oportunidade de ter tocado bossa nova em um além-plano. Ou como o narrador de outro conto de Murakami, “The Girl From Ipanema 1963/1982", que fantasia um encontro na praia com a musa inspiradora e "mulher metafísica" da canção de Vinícius. Ou ainda como o próprio escritor japonês, admirador do estilo musical brasileiro, que confessou ouvir bossa nova para espantar os pensamentos ruins na pandemia da Covid. Tudo, afinal, tem a ver com o poder da música, capaz de criar laços de afeto muito maiores que qualquer fronteira.

Por:

Damy Coelho

Fotos: Reprodução

COMPARTILHE:


VER MAIS

RECEBA NOVIDADES POR E-MAIL!

Inscreva-se na nossa newsletter.