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Odair José fala sobre filme “Eu Vou Tirar Você Desse Lugar”, censura e luta contra a hipocrisia na música 


Por:

Guilherme Espir

Fotos: Lou Alves/Divulgação

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A vida e a obra de muitos artistas são dignas de um filme, mas poucos  tiveram uma história tão repleta de percalços e reviravoltas como Odair José. Sua história é passada a limpo no documentário Eu Vou Tirar Você Desse Lugar (2025), de Dandara Ferreira, destaque na 18ª edição do In-Edit Brasil (Festival Internacional do Documentário Musical). O cantor sobe ao palco da Casa Natura Musical, em São Paulo, no dia 18 de junho, após a exibição do filme [saiba mais abaixo].

Nascido em Morrinhos, no interior de Goiás, em 1948, Odair fez a via-sacra de todo cantor que queria se profissionalizar na música nos anos 1960 e 1970: foi de mala e cuia para o Rio de Janeiro, a capital da música no Brasil no período.

Sem a pinta de galã, após poucos dias no Rio de Janeiro, Odair percebeu que a empreitada seria mais difícil do que parecia. Até o sucesso bater em sua porta, ele precisou dormir na rua, se apresentar em cabarés e ir atrás dos grandes executivos das gravadoras da época com base na sorte e na pura tentativa e erro. 

É uma história sofrida e que carrega a sina do povo brasileiro no DNA que ele tanto soube — e ainda sabe — retratar em canções. E, apesar da pouca probabilidade de dar certo, sua obra se transformou numa das mais longevas, prolíficas e bem-sucedidas da música nacional. Subestimado por muitos, Odair foi um dos maiores expoentes da música romântica, ao lado de nomes como Nelson Ned, por exemplo. 

Contra todas as probabilidades, já são mais de 55 anos de serviços prestados à música popular. Odair nunca parou, nem mesmo quando a Igreja Católica malhou o Judas no seu disco mais controverso até hoje: O Filho de José e Maria, lançado em 1977. 

O mesmo pessoal conservador que ainda existe hoje estaria de cabelo em pé até hoje caso faixas como "Eu Vou Tirar Você Desse Lugar" e "Uma Vida Só (Pare De Tomar A Pílula)" fossem lançadas em 2026.

Ao mesmo tempo, a parceria com  Dom Salvador na primeira metade dos anos 1970 gerou uma das fusões mais ricas da nossa música - ele assinou arranjos e pilotou teclados in clássicos como "Eu Vou Tirar Você Desse Lugar", "Cadê Você", "Vou Morar Com Ela" e "Pare de Tomar a Pílula", além de participar de O Filho de José e Maria (1977). Essa colaboração promoveu um intercâmbio musical histórico, trazendo músicos de elite do samba-jazz e do soul (como os do Grupo Abolição e futura Banda Black Rio) para os discos ultra-populares de Odair — mais um dos aspectos que não permitem colocar o músico em uma só caixa musical.

Aproveitando o momento de reavaliação de sua obra e do impacto na música nacional, a Revista Noize conversou com o mestre do romantismo popular brasileiro. Confira o papo abaixo:

Odair, em músicas como "Vou tirar você desse lugar", "Uma Vida Só (Pare De Tomar A Pílula)", "Vou Morar Com Ela", "Cristo Quem é Você" e "O Filho de José e Maria", fica nítido como você sempre teve que lidar com a falsa moralidade do povo brasileiro. Queria saber se isso te surpreendeu nas vezes em que ocorreu.                                                                              

Me descobri como um cronista social através do meu estilo de composição, pois assim, do nada, estava escrevendo mais sobre as minhas observações na relação das pessoas com o emocional transgressor que os movia no sentido contrário ao estabelecido pela a sociedade.

Isso agradava o público mais visionário, mas incomodava e até hoje ainda incomoda a hipocrisia que resiste.

Você nunca foi um galã e, ao mesmo tempo, é contemporâneo de nomes como Marcos Valle. Queria saber sua opinião sobre esse peso que a imagem sempre teve no ramo artístico, muitas vezes sendo até mais relevante do que a habilidade ou o talento.         

Comecei a me tornar um músico quando completei 7 anos, ao ganhar um instrumento musical dos meus pais. Pedi um violão e me deram um cavaquinho, porque entenderam como o mais apropriado pelo o meu tamanho.

Sempre me vi ligado na criação e execução da música e o que sempre se observou no Odair José foram as mensagens no conteúdo das canções, fosse pelos produtores e diretores das gravadoras ou pela a mídia. Em nenhum momento, consideraram a imagem pessoal do artista. O interesse das pessoas, principalmente do público, era o trabalho que estava sendo apresentado.

A aparência física sempre foi e será um abre-portas mas não permanece como produto final, e a qualidade sempre ditou a regra de mercado ficando a beleza como uma exceção a ser apreciada… Alterando o pensamento do poeta Vinícius de Moraes: “O belo que me desculpe, mas talento é fundamental”.           

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Você é destaque na 18ª edição do In-Edit Brasil com seu documentário. Queria que você comentasse sobre o longa com direção da Dandara Ferreira e o que os fãs podem esperar tanto do documentário quanto do show na Casa Natura.                                                                                            

Ter um documentário na tela fazendo uma narrativa sobre o meu trabalho é algo que nunca imaginei. Fico sempre apreensivo com a opinião de quem assiste, mesmo com a certeza de que o trabalho da diretora Dandara Ferreira e sua equipe foi pautado no respeito pela a minha história.

Estar participando com Vou Tirar Você Desse Lugar no  “In-Edit Brasil (Festival Internacional do  Documentário Músical) em São Paulo é uma conquista. Nosso objetivo e falar sobre o cantor/compositor que teve seu destino misturado com o do povo brasileiro através do seu processo de criação, por um  trabalho que conseguisse relevância pelo conteúdo e não pela amostragem.

Eu disse nos versos de uma canção no ano de 1974: “Que a felicidade não existe o que existe na vida são momentos felizes”

Estou esperando ansiosamente por esse momento no dia 18 de junho no palco da Casa Natura!

Como você vê o rótulo da música brega ser categorizado como algo de segunda classe? 

Olha, nunca gostei de rótulos, seja ele qual for. Existe sempre uma segunda intenção por trás e quase sempre mais atrapalha do que ajuda. Sobre esse lance de brega, fica claro que [o tom pejorativo] é coisa de gente mal-intencionada ou desinformada.

Esse preconceito crítico começou no final dos anos 80, por conta de alguns  “historiadores” em busca de notoriedade, que escreveram livros tentando polarizar a arte, mais precisamente a música. 

A música mais difícil de ser feita é aquela chamada de “fácil”, até porque  complicar sempre foi mais simples do que o contrário. No meu caso, ainda juntou o fato de eu cantar sobre temas que incomodavam. Como combater, então? Falando mal, jogando num balaio de “coisas menores”. Uma pena!          

Desde seu primeiro disco de 1970 até O Filho de José e Maria, é notável como sua música vai desabrochando e a cada disco novas coisas são tentadas, testadas, enfim. Houve resistência por parte das gravadoras onde você trabalhou? Creio que, como você sempre vendeu muito bem, o pensamento deveria ser de "melhor não mexer em time que está ganhando".         

É verdade. Minhas produções de 1970 até 1977 traziam sempre algo novo e evitavam repetições de fórmulas. Eu aceitava  correr riscos e evitava a zona de conforto.

Estava sempre bem acompanhado por profissionais voltados para a realização de trabalhos que permanecem e não apenas tivessem o desejo oportunista de “fazer sucesso”.

Depois do espanto causado pelo projeto do Filho de José e Maria, a coisa desandou e passei a ser vigiado no meu processo criativo e a fazer o que era conveniente pro sistema.             

                                                                                                                                                                       

Sobre o disco ser uma ópera rock, você tinha conhecimento de que esse formato já tinha sido explorado por compositores como Frank Zappa e The Who? Era o seu plano mesmo de ir nesse musical com a veia de Peter Frampton mesmo? É impossível não traçar um paralelo com o estranhamento dos fãs do Dylan quando ele começou a se apresentar e gravar com instrumentos elétricos.                                                                                                                                                                            

Olha,  eu tinha conhecimento, sim, desses trabalhos citados, e a ideia inicial era seguir o clima do Peter Frampton no seu álbum ao vivo de 1975, mas diante de vários fatores, o projeto foi se adaptando e ficando mais diferente.

Esse disco é um divisor de águas na minha caminhada, eu não seria o que sou hoje se ele não existisse. Paguei um preço muito alto por ter feito esse projeto. Aliás, ainda estou pagando! Muitos se beneficiaram com o resultado negativo que ele causou na minha carreira, mas, por outro lado, ele é um troféu que só eu tenho!

A sua parceria com o Dom Salvador ajudou a criar um legado estético que modernizou a música popular, limpando o excesso de cordas dramáticas e inserindo o groove do piano elétrico, órgãos Hammond e metais sincopados. Olhando para trás, como era o processo no estúdio para equilibrar a sua sensibilidade popular com o requinte técnico que o Dom Salvador trazia?                      

Tive o prazer de ter a presença de Dom Salvador no meu segundo álbum, e depois, de forma natural, ele continuou trazendo sua capacidade musical para os meus trabalhos de estúdio em companhia de outros músicos extremamente talentosos como o Azymuth, Som Imaginário representado pelo genial Zé Rodrix, Waltel Branco, Robson Jorge, Luís Cláudio Ramos, Hyldon e dezenas de outros acima da média. Eu sempre caminhei com ótimos profissionais.

Pra fechar, você também trabalhou ao lado de outros grandes arranjadores como Waltel Branco, José Roberto Bertrami, Don Charley, Rossini Pinto. Queria que você comentasse sobre os arranjos de corda de seus primeiros discos que depois tomam outros rumos estéticos menos dramáticos, mais usuais para o contexto da sua fase mais romântica.

Os arranjos do início dos anos de 1970, 1971 e 1972 foram feitos e regidos pelo o maestro “Pachequinho”, regente principal da gravadora CBS e, naquele momento, desejado por todos. Na CBS,  tive ao meu lado pessoas competentes e generosas como,Rossini Pinto, Rauzito [Raul Seixas, que era produtor na gravadora] Renato Barros, Mauro Motta, Paulo César Barros,  que para o meu começo de carreira, foram excelentes professores.

No segundo semestre de 1972, se inicia minha fase na Phonogram e, junto com todos os músicos já citados, Don Charles  trabalhou como arranjador de cordas e metais entre 1977 e 1979. Essa rapaziada esteve comigo até o final de 1980, quando assinei com a EMI/Odeon. Lá, por uma questão de filosofia, eram outros profissionais. Um dos meus problemas na nova casa foi a falta de liberdade e autonomia nas minhas escolhas. Eram tempos difíceis.

Odair José no In-Edit na Casa Natura Musical

18/6, abertura às 18h30 e exibição do filme às 19h

Show: 21h30

Rua Artur de Azevedo, 2134 - Pinheiros (a 300 metros da estação de metrô Faria Lima da Linha 4-Amarela)

Ingressos via Sympla

Por:

Guilherme Espir

Fotos: Lou Alves/Divulgação

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