
Um dos destaques de ANTÔNIO ODISSEIA, primeiro longa do brasileiro Thales Banzai com roteiro de Kelson Succi, é a forma como imagem e som se entrelaçam para traduzir a jornada delirante de seu protagonista, Antônio (também interpretado por Succi). O longa acompanha a jornada dele e da amiga Ivy (Iraci Estrela) após um assalto que se desdobra em uma travessia surreal — marcada por encontros inesperados e pelo uso de uma substância alucinógena que promete um encontro com Deus. Após estrear no Slamdance Film Festival dos Estados Unidos, o filme já tem data para sair no Brasil: dia 24 de abril, no festival FANTASPOA, em Porto Alegre.
A trilha sonora tem papel central nesse percurso. Assinada por Kiko Dinucci (músico, diretor, parte do Metá Metá), ela ajuda a estruturar a narrativa do filme. Os arranjos de cordas levam a assinatura de Arthur Verocai, ampliando o diálogo entre tradição e experimentação. O longa reúne ainda participações como Leci Brandão, além de Antonio Pitanga, Chico Cesar na narração e a saudosa atriz Teuda Bara, em um de seus últimos papéis no cinema.
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A seguir, entrevistamos Kiko Dinucci e Thales Banzai sobre o processo de criação do filme e como a música é parte essencial dessa narrativa. Confira abaixo:
Como surge o mote para Antônio Odisseia? Qual foi o marco zero pra contar essa história?
Thales: Comecei a desenvolver o projeto com o Kelson, que é o protagonista e o roteirista do filme, em 2023. E a gente, desde o começo, já sabia que queria produzir de forma independente — sem esperar editais ou buscar patrocínio com canal, fundos. No geral, a gente sabia que queria produzir rápido, e nós dois estávamos fervendo com as ideias do projeto.
Então, em seis meses, chegamos uma primeira versão do roteiro. Nessas primeiras leituras, já estava com a ideia de trazer uma pegada forte de trilha sonora. Ainda não sabia muito bem como seria essa sonoridade, mas sabia que tinha essa pegada no filme — tanto de ritmo quanto de letra que contribuíssem para a narrativa.
Aí o pessoal do Somatória do Barulho me mostrou o Rastilho [álbum de Kiko Dinucci de 2020]. Eu ouvi, e falei, cara... É exatamente isso. Depois fui ouvir o trabalho seguinte, VHS (2021) que tem uma faixa do mesmo título. Essa música traduzia perfeitamente a atmosfera que a gente queria. Tanto que reescrevi a abertura do filme já pensando nessa música.
“VHS” tem 20 minutos, mas reduzi para 3 para caber na cena inicial. E foi assim que começamos.
Poxa, que legal! Como foi isso pra você, Kiko, saber que essa cena foi reescrita pensando em encaixar sua música?
Foi incrível. O Thales me procurou e deu uma ideia geral do filme — acho que foi online primeiro, né, Thales? — Depois a gente se encontrou, e aí vi melhor o que seria o filme.
Fomos num bar, bevemos uma cervejinha e falamos sobre o filme. Ele me levou um livretinho, com uma espécie de roteiro explicando algumas cenas. Fiquei curioso, porque a ideia era fazer a trilha antes do filme, né? Sim. Eu acho muito legal esse processo, poucos diretores fazem isso, de criar a partir da música. A música causa uma sensação, né? E às vezes um diretor ou uma diretora consegue traduzir isso em imagem, esse sentimento quase sensorial que a música traz para um filme, isso é sensacional.
Agora que puxamos esse assunto, vamos falar sobre a trilha sonora! Me chama muito a atenção a versatilidade das músicas, porque têm a “VHS” no início do filme, trazendo um clima de tensão, de suspense… a gente não sabe o que esperar. E é uma música no violão... mais tarde, entra a cena em um bar, e a música vira uma daquelas bem românticas, “bregas” mesmo, típicas daquilo que toca nos botecos do interior do Brasil… conta pra gente como foi a criação dessa trilha de um modo geral, com faixas tão distintas umas das outras?
Pois essa cena do bar é particularmente especial. A gente começou a trabalhar em algumas cenas, como essa, que já estavam bem marcadas. Aí eu falei: “Porra, vou fazer um negócio meio Reginaldo Rossi”. Eu adoro essa música brasileira deste período que chamam de brega.
Porque é a primeira vez que a música brasileira começa a ser gravada de fato — tirando toda a história do samba lá atrás. Na Bossa Nova e na Tropicália, a produção era muito focada na classe média, no intelectual, no acadêmico, né?
Já essa música de rádio, essa música pop que nasceu nos anos 70, que a gente chama de brega, é quando o povo começa a gravar de fato. Muito influenciado pela Jovem Guarda, que eram caras de origem mais simples. Então eu adoro, tenho muito respeito por esse repertório.
E o Thales foi me explicando: “ó, essa daqui tem que ser mais solar, essa aqui é pra uma cena mais pesada”.
E a gente foi traduzindo isso em música. Quando eu ouvi as imagens, a trilha fazia muito sentido com a cena.
Thales: Pra mim, o filme sempre teve dois momentos de trilha: as quatro principais faixas, que são como temas do filme, mais narrativas, que ajudam a contar a história.
No fim, foram essas trilhas em que a gente fez os arranjos junto com o [Arthur] Verocai. E tem as outras também, que entram mais ligadas a situações específicas ou a personagens, como essa trilha do brega, do bar.
Kiko: Muitas vezes, a letra da música determina algo no roteiro, né? Mais ou menos como Sérgio Ricardo fez em Deus e o Diabo na Terra do Sol [filme de Glauber Rocha]. A música ali funciona como roteiro e como um cordel. Acho que o Glauber escreveu o filme meio como um cordel, e o Sérgio Ricardo conseguiu traduzir isso em música. Eu me baseei um pouco nisso.
A gente tinha esses dois caminhos, pensando especialmente que a base da trilha deveria ser mesmo no violão, assim como é a “VHS”.
Aproveitando, vamos falar do Verocai. Como foi o trabalho com ele nos bastidores, Kiko?
Figuras lendárias, né? Eu nunca imaginei sentar com o Verocai. Nunca tive aproximação e nem conhecia tanto o trabalho dele, conhecia por cima — não era um grande fã —, mas sempre vi o respeito e a devoção que as pessoas tinham. Então eu ficava atento, e quando algo dele passava por mim, eu parava para ouvir — é fenomenal.
Quem ajudou muito nessa ponte foi a Sue, que organizou a trilha e fez esse meio. Eu mandei as canções no bruto, sem nada escrito, cantando voz guia. Ele pediu um prazo, marcou o estúdio e levou os músicos com quem já trabalha no Rio.
No estúdio, foi tudo muito certeiro: pouca repetição de takes.
O Verocai trabalhava na técnica, muito preciso. Eu e a Sue ficávamos no fundo ouvindo as cordas se abrindo, como se a música estivesse florescendo. Foi muito emocionante, e caía a ficha de estar ali com ele, gravando aqueles arranjos.

E, Kiko, você tem essa ligação forte com o cinema, já dirigiu filmes [como Breve Em Nenhum Cinema, de 2015], faz trilha sonora… como é pra você transitar entre essas duas artes?
Eu tenho minha relação com o cinema, ela aparece em várias formas.
Primeiro na própria música — todo disco que eu lanço, as pessoas falam que é muito imagético, cinematográfico, que parece western, suspense, filme. Às vezes eu até tenho um ato falho e chamo disco de filme. Então essa relação já está dentro da música.
Tem também essa coisa de ouvir música e pensar na cena imediatamente, já acendendo uma faísca imagética. Acho que gostei muito de cinema, de assistir a muitos filmes e de ter sonhado em ser diretor — um sonho que deixo em banho-maria e que, de tempos em tempos, eu retomo.
Mas o mundo do cinema é muito louco: o diretor fica meses escrevendo, depois mais um ano filmando, e anos para finalizar e lançar. Às vezes o filme sai cinco anos depois. É sofrido, não tem espaço para diretores no Brasil, é muito difícil lançar comercialmente. Muitos filmes rodam festivais e não chegam ao público.
Então, a forma que encontrei de estar mais presente nesse universo foi fazendo trilha. Eu adoro e levo muito a sério, mesmo tendo um jeito meio caótico de trabalhar. Não me considero trilheiro, nem diretor, nem músico — eu meio que transito por esses lugares.
Legal! E Antonio Odisseia também conta com outras figuras lendárias no elenco, como a Leci Brandão, o Antonio Pitanga… pode nos contar como se deram essas escolhas, Tales?
Era uma ideia desde o começo — eu tô meio em pânico, porque tá todo mundo que a gente admira morrendo no Brasil, e a gente precisa criar uma nova geração de ícones.
Quero aproveitar e conseguir trabalhar com essa galera enquanto dá. Tem várias pessoas com quem eu quis trabalhar em outros projetos que não vingaram, e elas já não estão mais aqui. A própria Teuda Bara, que faz a vovó Sheila no filme, foi o último filme que ela fez.
Tá todo mundo fazendo muita coisa de streaming, que às vezes é mais pasteurizada. E eu via nesse filme uma liberdade de fazer algo diferente — foi o que eu senti quando apresentava para essa galera, que topava fazer.
O Antonio Pitanga leu o roteiro e a gente fez uma ligação. Eu tava na dúvida se ele tinha lido tudo ou só a parte dele, e ele tinha lido o filme inteiro.
Ele curtiu muito, falou que nunca tinha feito um personagem daquele, que estava animado, que lembrava os filmes que fazia nos anos 60 e 70 — e você fica muito empolgado com isso.
A Leci também chegava cedinho no set, pra cima, na maior entrega.
Kiko: Lembro que quando ela foi ao set, era uma sexta-feira. Ela pediu para todo mundo ir de branco, roupa clara. Eu sou macumbeiro há 20 anos e já estava de branco [risos].
Quando ela chegou, a gente foi cantando, foi muito emocionante ver e ouvir a voz dela. Mas o que mais me impressionou foi a figura humana: o jeito como dava atenção para cada pessoa. Uma figura muito mágica.
Tales: Essas presenças tornam o filme ainda mais especial, com certeza. Esperamos que o público sinta isso também.
Antônio Odisseia - exibição em Porto Alegre no FANTASPOA
Dia 24 de abril, às 19h30
Mais informações via site oficial














