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Loulu Gilberto: filha de João Gilberto estreia na música com releituras de canções que ouvia com o pai


Por:

Vitória Prates

Fotos: Bob Wolfenson

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Aos 21 anos, Loulu Gilberto estreia na música com um disco homônimo atravessado pela memória. Inspirado pelas canções que ouviu ao lado do pai, o álbum, com produção de Cézar Mendes e Mario Adnet, nasce como um reencontro afetivo de sambas antigos, boleros, referências do cancioneiro popular e imagens quase cinematográficas.

A vontade de cantar profissionalmente surgiu aos poucos, durante as aulas de violão com César, ou Cesinha. Loulu começou a levar para os encontros músicas que escutava em casa com o pai, surpreendendo o professor pelo repertório incomum para alguém tão jovem. “Eu ia lá fazer aula com ele uma ou duas vezes por semana e ele ficou fascinado porque, com quase 75 anos, e eu, com 18, conhecia coisas que ele não conhecia”, conta.

Entre as primeiras músicas apresentadas estavam “Cuidado com Andor”, dos Anjos do Inferno, mas o repertório do álbum ainda traz "Qui Nem Jiló", de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira; “Manias”, de Flavio e Celso Cavalcanti, "Beija-me", de Mário Rossi e Roberto Martins; também cantigas populares, caso de “Cavalo-Marinho” e “Bicho Curutú”.

Para releitura de “Avarandado”, de Caetano Veloso, Loulu juntou-se a Tom Veloso, a lista de participações continua com Daniel Jobim em "Tea for Two", e Maria Carvalhosa, em “Joujoux e Balangandãs”. De destaque vale citar a inédita “O Amor nos Encontrou”, parceria entre Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli, gravada por João, mas nunca divulgada. 

“Quando os compositores mudaram a letra, meu pai desistiu da música, mas durante a pesquisa nos deparamos com ela e falamos: essa precisa estar aqui”. Loulu relembra que revisitar arquivos de família e ouvir gravações antigas teve um impacto emocional intenso. “Era como se ele, em outro plano astral, tivesse voltado — ou talvez nunca tivesse ido embora, né? Porque a música é eterna”, afirma. Muitos dos registros encontrados eram gravações caseiras, captadas em encontros familiares. “Foi como se eu estivesse com ele”.

Para Loulu, essas canções ajudaram a construir não apenas sua identidade pessoal, mas também a identidade cultural brasileira. “Essa memória que formou a identidade nacional foi formada por esse cancioneiro. São raízes muito fortes nas quais eu me apoio. Tem uma história que me antecede, e é a história da própria música brasileira”.

Mesmo mergulhado em referências clássicas, o disco não soa preso ao passado. Loulu vê a tradição e a contemporaneidade convivendo naturalmente em sua música. Ela cita artistas da nova geração, como Ana Frango Elétrico e Dora Morelenbaum, e referências clássicas, como Elizeth Cardoso e Lupicínio Rodrigues. “Ainda vai nascer alguém que escreva canções de amor tão bonitas quanto ele”, comenta sobre Lupicínio.

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Loulu conta que as trocas musicais com seu pai sempre rendiam bons momentos. “Ele ensinava de um jeito muito engraçado, meio sem ensinar”, lembra. Uma das histórias mais marcantes envolve a canção “Carinhoso”, de Pixinguinha, que ela aprendeu errado na escola e insistia em cantar daquela forma até ser corrigida pelo pai. “Ele tocava a música várias vezes, sem dizer ‘presta atenção aqui’. Esperava eu me interessar.”

Quando pergunto se ela também arrisca uns versos de vez em quando, ela diz que prefere guardar suas canções inéditas, pelo menos por enquanto. “Geralmente crio personagens, histórias. Acho que gosto mais de contar histórias do que falar diretamente de mim”, afirma ela, que também tem formação em Cinema e Audiovisual. 

Agora, ela prepara o show de lançamento do álbum e planeja colocar o repertório na estrada. Sem se prender a uma cena específica, ela acredita que o disco dialoga com públicos de diferentes gerações. “Mostrei para a avó de uma amiga e ela chorou porque a mãe cantava aquilo para ela. Mas também mostro para gente jovem que vai pesquisar os compositores depois. Então acho que ele ressoa em muitos lugares diferentes.”

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Vitória Prates

Fotos: Bob Wolfenson

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