El Mapa de Todos


Por:

Revista NOIZE

Fotos:

COMPARTILHE:

A posição sulina que Porto Alegre ocupa no Brasil sempre a relegou uma identidade à parte. É mais um território de transição, uma via por onde o Brasil e os vizinhos hispano hablantes conversam, do que uma continuidade do espírito brasileiro. Na América Latina, porém, a capital gaúcha está próxima do centro. Nada mais natural que o El Mapa de Todos tenha adotado Porto Alegre – e seu epicentro roqueiro, o Opinião – como ponto de encontro da música feita neste território, cujo mapa serve de logotipo para o festival.

Texto: Fernando Correa | Fotos: http://galeriapetrobras.com.br/elmapadetodos

Durante três dias – 12, 13 e 14 de abril–, a audaciosa intenção de unificar e celebrar a música latina aqueceu as válvulas com 14 shows. Organizado pelo Senhor F, o El Mapa de Todos escala diversas bandas do selo e do parceiro argentino Scatter Records. Por isso, há uma boa parcela de guitarras roqueiras, papel cumprido pela argentina El Mato a un Policia Motorizado, pelas gaúchas Reino Elétron, de Passo Fundo, e Superguidis, de Guaíba, e pela mato-grossense Macaco Bong, de Cuiabá – só para citar algumas.

[caption id="" align="alignnone" width="590" caption="Andrio, da Superguidis, chegou respingar sangue na guitarra"][/caption] As duas últimas fizeram os shows mais viscerais do festival. Superguidis arrombou ouvidos, sempre com muita melodia. Talvez pelo limite de tempo, tenha apresentado um show mais intenso que de costume: nos 30 minutos em que subiram ao palco, Andrio chegou a cortar o dedo, que respingava sangue no escudo branco de sua guitarra. Macaco Bong fez o show mais longo, apropriado para suas músicas – exercícios instrumentais que passam por diversos estágios e climas. Ao vivo, ganham momentos de aparente improviso que são resposta direta à empolgação do público. Dois garotos pulavam eufóricos, sorrindo um na cara do outro. O sorriso também estava no rosto de Bruno Kayapy, percorrendo a guitarra com a languidez de quem tem mãos compridas demais para apenas tocá-la. Molestava seu braço, seu corpo, suas cordas. Às vezes, os grunhidos que o instrumento produzia soavam perturbadores. O show do Macaco Bong fechou o El Mapa de Todos deixando a impressão de que, sozinha, a noite de quinta-feira (14) justificaria o festival. Watson, eles, Superguidis e El Mato un Policia Motorizado compartilham do rock, da pulsão destrutiva que, parece, é mais compatível com o ânimo de quem se dirige ao Opinião no meio da semana. Mas o festival não foi só isso. Abaixo, seguem mais alguns destaques dentre as bandas presentes nesta bela iniciativa de Fernando Rosa, o SenhorF, mas que teve amparo e acolhimento da Petrobrás, do Opinião e de mais um bom punhado de gente disposta a levar a música a patamares mais humanos. [caption id="attachment_32680" align="aligncenter" width="590" caption="Macaco Bong contou com cumplicidade e rodas punk do público"][/caption] Terça-feira, 12 de abril Rumando ao desconhecido íntimo, Arthur de Faria e Seu Conjunto fizeram um show de festival. Pela obra variada do porto-alegrense – discos pra criança, trilhas pra teatro, disco pra ouvir sentado, disco pra bater pezinho –, fica difícil uma apresentação curta e abrangente. Mas foi, sem dúvida, um repertório representativo de muito do que alimenta a música do continente. Deixou seu recado de Zappa dos pampas, com direito a xote mal humorado, o experimentalismo convidativo de "Água Podrida" e a presença ilustre de Edinho Espíndola, baterista da mítica banda porto-alegrense Liverpool. O chileno Gepe subiu ao palco com uma formação atípia: ele tocando bateria, violão e cantando; uma menina ao violoncello e, eventualmente, ao notebook, em que acionava beats eletrônicos; e um guitarrista que, bem, tocava sua guitarra. Antes de ir embora, sem ver a reunião de Xoel Lopez, Pablo Dacal e Franny Glass, e Frank Jorge fechando a noite, pude curtir um pouco da música de Gepe. É difícil, eu sei, mas tente desentupir os ouvidos do ranço que carregamos nós, brasileiros. Gepe faz música criativa, com swing, com guitarras – elementos que os nossos vizinhos usam muito bem. E eu quero que, no mínimo, a MPB também me soe assim, latina. Frank Jorge fechou a noite, com várias canções da fase solo, tantas outras da Graforréia. Alegria generalizada, pelo que dá pra perceber o twitter (use a hashtag #elmapadetodos). Quarta-feira, 13 de abril A Do Amor é FODA. Banda requisitada por muita gente boa do Rio, em seu trabalho solo eles esbanjam brasilidade. No show, que contou principalmente com músicas de seu disco autointitulado, de 2010, incitaram o público a suingar. "Mas dança dançando, acredita!" Do meio da gauchada tímida, houve quem não se intimidasse. Os outros ficaram observando aquele bicho estranho que é a música da Do Amor – o formato do rock servindo de base pra um monte de ritmos de um país distante chamado Brasil. O Contra Las Cuerdas, do Uruguai, faz hip hop com acordeon, tem MCs de rima ligeira, que te deixam a todo tempo esperando por um refrão à la Orishas. Coisas de ouvido pouco apurado, e sinal de que os caras fazem bem feito. O Los Mentaz faz o legítimo punk rock venezuelano, vertente mais vermelha, quente e festiva que a variedade californiana. Wander Wildner circulava sorridente pela casa, e fechou a noite com show elogiadíssimo. Depois de uma recente viagem a Berlim, diz que está inspirado. Quinta-feira, 14 de abril Além dos shows comentados acima, a quarta-feira teve ótimos shows de El Mato a un policia motorizado e Watson. A Watson é uma banda respeitável, a grande banda independente de Brasília, mas não tão conhecida fora do circuito do Centro-Oeste. Rock que cai muito bem ao lado de Superguidis, revela também traços de Legião Urbana. Tocaram uma versão espacialíssima (han-han) pra música do psicodélico Plato Divorak – que, embora porto-alegrense, não apareceu para gritar seu "CANAAAAALHA" ao microfone do El Mapa. Fechando a trinca da canção ruidosa, o El Mato, de La Plata, levou o rock argentino para muito mais próximo do rock alternativo noventista. Um dos guitarristas lembra em tudo Johnny Greenwood, do Radiohead, e usa sua Telecaster com pompa e destreza. O El Mato é uma boa porta de entrada para esse mundo amplo e viciante que á o rock dos lados do Rio da Prata.
Por:

Revista NOIZE

Fotos:

COMPARTILHE:

RECEBA NOVIDADES POR E-MAIL!

Inscreva-se na nossa newsletter.