Em entrevista, Marisa Monte conta como criou um pop à brasileira com “Memórias, Crônicas e Declarações de Amor”


Por:

Damy Coelho

Fotos: Divulgação

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A virada do milênio foi um turbilhão cultural na vida dos brasileiros – e isso não seria diferente na trajetória de Marisa Monte. “Amor I Love You”, hit do Memórias, Crônicas e Declarações de Amor, foi uma das músicas mais escutadas do país em 2000. Ainda assim, mesmo com cinco discos lançados, a cantora se mantinha reservada. 

Em uma entrevista concedida a Edgard Piccoli, contou: “Quando fui gravar o clipe de ‘Gentileza’, no centro do Rio, passei em uma lojinha dessas de R$1,99. Sem me reconhecer, a moça do caixa conversava com a vendedora: 'Tão gravando o clipe de uma cantora'. A outra perguntou, ‘ah, é? De quem?'. E ela respondeu: 'Não sei, acho que é evangélica”, disse, aos risos. 

Parte do público podia não reconhecê-la de imediato na rua — mas sua voz estava por todos os cantos. Naquele ano, o CD vendeu 1 milhão de cópias. Já a turnê rendeu 144 datas por todo o país. “Eu era uma jovem artista com alguma experiência, mas com uma carreira de dez anos, consolidando minha história como compositora, minhas parcerias e minha relação com o público. Esse disco é resultado daquele momento”, define Marisa Monte sobre a época. 

O trabalho une suas referências musicais, leva sua bagagem afetiva nas letras e melodias inspiradas na tradição da canção popular. A identidade romântica, evidenciada pelo título, era expressa nos shows, pois Marisa distribuía flores ao público, tal qual o rei Roberto Carlos. Àquela altura, Marisa Monte também era realeza pop.

Antes de torcer o nariz para o termo “popular”, vale lembrar: com Memórias, Crônicas e Declarações de Amor, Marisa construiu, assumidamente, uma essência pop brasileira — romântica, de refrões cativantes, violão melódico e forte base percussiva. Para decantar essa missão, convidou Carlinhos Brown

A percussão se destaca em “Não Vá Embora” (de Marisa e Arnaldo Antunes), “Perdão Você” (de Alaim Tavares e Carlinhos Brown) e “Tema de Amor” (de Marisa e Carlinhos). “Convidei Carlinhos para colaborar nas bases rítmicas das canções junto a grandes grupos de percussão”, lembra Marisa. “Isso nos permitiu criar uma sonoridade brasileira para as levadas e bases rítmicas. Assim, criamos uma textura e uma sonoridade até então novas no meu trabalho”. 

Em 1998, Carlinhos convidou Marisa para produzir seu segundo álbum, Omelete Man. “A Marisa tem muita musicalidade”, afirma o músico. “Na época do Memórias, Crônicas e Declarações de Amor, ela  buscou aquele afeto percussivo que guiava a década, reacendendo outras formas de soar a percussividade brasileira, que não apenas pelas cadências de raiz”.

A banda inclui outros músicos de primeira, como os percussionistas Peu Meurrahy e Kabo Duca, além de cavaquinho de Mauro Diniz, guitarra e violão de Davi Moraes, baixo de Dadi Carvalho e Liminha, além das participações de Jaques Morelenbaum e João Donato.

Para além do pop, essas “outras formas de soar” podem ser ouvidas em “Sou Seu Sabiá” (composta por Caetano Veloso especialmente para ela), em uma versão popularmente romântica na voz de Tim Maia (“O Que Me Importa”, de Cury), e no samba melancólico de Guilherme de Brito e Nelson Cavaquinho em “Gotas de Luar”.

O resultado dessa mistura criativa apontava para o futuro — mas também dialogava com o passado. A busca por uma sonoridade brasileira também passava pela tradição do samba, o que se prova na faixa “Para Ver as Meninas”, regravação de Paulinho da Viola (1968). No ano anterior, Marisa estreitou relações com o ídolo ao produzir Tudo Azul (2000), disco da Velha Guarda da Portela.

A relação com a escola vem da infância. Seu pai, Carlos Monte, era diretor cultural da Portela e levava os discos da agremiação para tocar em casa. Mais tarde, essa conexão se refletiria na discografia de Marisa: em Mais (1991), convidou as pastoras para cantar “Ensaboa”; em Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carvão (1994), gravou “Vasta Melodia” com a Velha Guarda da Portela.

Foi quando Marisa soube que o grupo guardava um repertório inédito, preservado apenas na memória de antigos sambistas. “Havia a curiosidade de buscar canções desconhecidas. Eu sabia que muitas delas estavam presentes somente na tradição oral, com o risco de se perderem com o tempo”, conta. Isso a levou a um intenso trabalho de pesquisa.

“A partir daí, fui entrevistar os sambistas em busca dessas verdadeiras pérolas. A minha intenção era encontrar canções que me emocionassem, salvá-las do esquecimento”, explica. Sempre mantendo uma relação próxima com a escola, Marisa tornou-se madrinha da Filhos da Águia, escola de samba mirim da Portela.

Conexões internacionais 

Memórias, Crônicas e Declarações de Amor foi gravado em 1999 entre o Rio de Janeiro, Salvador e Nova York, o que explica o caráter cosmopolita do disco. Inclusive, foi na cidade norte-americana que nasceu o hit bilíngue “Amor I Love You”.

Além de assumir a percussão, Brown também assina a letra açucarada da faixa. “Ela me deu muita confiança para que eu fosse além de seu percussionista, mas também autor de canções em parceria com ela”, explica. Arto Lindsay, o produtor do disco, emenda: “Essa letra é uma grande felicidade de Brown”.

O artista baiano se recorda sobre a faixa: “Quando estávamos em Nova York, já no final das gravações, surgiu ‘Amor I Love You’. Ela cravou que iria gravar. Fiquei receoso, porque essa música era vista como ‘menor’, quase ‘brega’. Mas a Marisa não tem preconceito musical”. 

A canção ganhou um clipe ambientado no século XIX que venceria o VMB daquele ano. A inspiração veio de O Primo Basílio (1878), livro de cabeceira de Marisa. Na faixa, Arnaldo declama um trecho da obra, que dialoga com o tom romântico da letra, como num spoken word literário.

É um registro sobre o amor, inclusive o amor entre amigos selado pela música. “Esse disco me permitiu aprofundar e amadurecer ainda mais a relação com Arto, Arnaldo e Carlinhos. Havia  intimidade, cumplicidade. Fizemos músicas lindas, criamos boas memórias e demos muitas risadas durante todo o processo de gravação”, lembra Marisa. Carlinhos Brown complementa: “Somos três criaturas curiosas, que se rendem pela musa-música”.

"Nós somos os Tribalistas"

O álbum marca a parceria do trio nas faixas “Amor I Love You”, “Água Também É Mar” e “Não É Fácil". Mas eles já haviam colaborado em paralelo: antes de Omelete Man, Carlinhos compôs “Segue o Seco”, do Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carvão (1994), enquanto Arnaldo assina o hit “Beija Eu”, do Mais (1991), com Marisa e Arto Lindsay

Olhando em retrospecto, menos de dois anos antes do Tribalistas (2002) vir ao mundo, não parece acaso que essas gravações já tenham dado liga. O caráter pop brasileiro do trio que ganharia o Brasil estava sendo gestado na década anterior. 

Após a gravação do disco, Arnaldo lançou Paradeiro (2001), que também contava com a parceria dos amigos. Naquele momento, os três se enfurnaram por dias no estúdio Ilha dos Sapos, em Salvador. Ali, começaram a compor juntos e gravar canções que já tinham na gaveta, dando origem aos Tribalistas.

O álbum homônimo chegaria ao mundo em 2002 e vendeu 2 milhões de cópias mesmo no auge da pirataria. Naquele início dos anos 2000, era difícil entrar em uma casa que não tivesse o CD do trio.“É claro que todo artista busca fazer uma sonoridade que agrade ao público, que todo mundo cante junto. Mas não tínhamos esse intuito no estúdio. Simplesmente acontecia”, lembra Arnaldo.

O som do Brasil

Quando o assunto é a amiga, Carlinhos não poupa elogios: “Marisa tem um domínio melódico sobre a palavra que é impressionante. A voz dela tem a sonoridade do Brasil. Quando ouvi Marisa pela primeira vez, eu ouvi Dalva Oliveira, ouvi as grandes cantoras do nosso país”.

Arnaldo completa, definindo a parceria com Marisa como uma felicidade: “Temos uma afinidade musical de muitos anos. É uma admiração mútua que rende um campo muito fértil”. Marisa participa tanto de seu primeiro álbum, Nome (1993) até o mais recente, Novo Mundo (2025). Ela, inclusive, é a artista que mais regravou as músicas de Arnaldo, superando os Titãs. 

Para a cantora, olhar para este álbum mais de 20 anos depois, é um privilégio: “O tempo e o distanciamento geram perspectivas que não existiam na época. As músicas têm vida própria e fazem parte da vida dos outros de uma maneira imprevisível, surpreendente e bela”. 

“Esse disco não é mais meu, é de todos, é do mundo, é de quem o revive e o reinterpreta a cada audição. O tempo foi generoso com o álbum. Foi bom para ele envelhecer e ganhar uma dimensão temporal”, finaliza a artista.

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