
Lançado em 2024, Coisas Naturais marcou uma nova fase na carreira de Marina Sena, misturando pop, MPB, funk, brega e eletrônica em um disco tão solar quanto provocador. O disco também ganha versão em vinil pelo Noize Record Club, convidando a uma escuta diferente, calibrada entre lado A e lado B.
A seguir, mergulhamos nas referências, nos detalhes de produção e nas diferentes faces de Coisas Naturais. Leia e ouça faixa a faixa:
Lado A
1. Coisas Naturais: A primeira faixa apresenta alguns temas que serão recorrentes no trabalho. Nela, a artista fala sobre como um beijo pode ser tão refrescante quanto um banho de mar e narra a antecipação de encontrar o crush no fim do dia. Musicalmente, ela introduz algumas texturas que permeiam as faixas e inclui a mistura de instrumentos e processamentos eletrônicos.
2. Numa Ilha: A música guia do disco, lançada como single no final de 2024, traz o som da flauta persa nos primeiros instantes, e segue acompanhada da batida lenta, ritmada de forma crescente. Quase como um aceno ao movimento das marés, a canção puxa e repuxa até estourar no refrão. Com visual litorâneo, a faixa brinca com os elementos naturais, – a lua, o mar, a terra –, para dar vazão ao desejo que a consome noite e dia. Neste caso, a simplicidade diz tudo. Versos como “a gente junto na minha canga/ beijando o corpo inteiro, vento no cabelo”, brilham em meio ao universo desencantado e digital. Escutá-la é como um colocar os pés na areia e sentir o sol esquentar o corpo.
3. Desmitificar: Nesta colagem sonora, há espaço para os beats e para as percussões bem marcadas. Aqui, mostra-se o outro lado da moeda, onde Coisas Naturais se conecta com tendências do pop global com sotaque brasileiro. Como fez nos outros discos, Marina tempera os versos com doses elegantes de malícia.
4. Anjo: Com arranjo mais clássico, a música guiada pelo som do violão explode no rock setentista com fuzz na guitarra e banho de sintetizadores. Nela, a voz se modula entre sussurros e falsetes, demonstrando total domínio vocal, além de incluir novas nuances na forma como projeta o canto. A inspiração na MPB de outrora ganha contornos modernos e acabamento reluzente.
5. TOKITÔ: Ponto fora da curva no trabalho, ela é a mais palatável ao mercado internacional, sem deixar o DNA nacional de lado. Pop eletrônico made in Brazil com versos em italiano, português e inglês. Há um aceno aos afrobeats, diluído na percussão, um exercício para tensionar os limites dos estilos musicais.
6. Sem Lei: Com direito a metais e sonoridade embebida no pop rock, ela integra o lado natural do disco, por soar totalmente orgânica. O desabafo “sei que não é tão popular um violão” fala da necessidade de digitalização total da vida. Podem passar os anos e as tendências, mas ficam os clássicos, e essa música soa atemporal.
7. SENSEI: Percebe-se uma influência da Motomami, la Rosalía, na construção da faixa. A colagem de sons transmite a vibe experimental do disco da catalã, ainda que jogue a favor dos vocais da mineira. Eletrônica e melancólica, ela faz um contraponto ao universo solar do disco, afinal, todo dia acaba à noite.
Lado B
1. Lua Cheia: Highlight total. Da mesma caneta que escreveu hits como “Por Supuesto” e “Tudo Para Amar Você", vem essa pérola feita para dançar e cantar com a mão no coração. “Eu me rendo, eu adoro/ Vou deixar, vou me entregar no momento", diz o refrão. A balada sensual narra um encontro a dois, ao mesmo tempo que coloca a perspectiva da autora no centro dessa troca. Por trás da batida acelerada com inspiração no brega e no funk, ela se apropria do ritmo enquanto mantém o canto suave quase como um cochicho no ouvido. Não restam dúvidas, ela foi feita para arrepiar todos os sentidos e entrega justamente essa sensação.
2. Combo da Sorte: O reggae, uma das referências de Marina, ainda não havia pintado no seu trabalho até então. O ritmo da guitarra, o groove e a voz se intercalando na dinâmica que dá espaço para os silêncios e respiros, ao mesmo tempo que faz o corpo balançar. O equilíbrio perfeito entre leveza e mensagem – o amor é o caminho, sempre.
3. Mágico: Outra faixa com tino para viral, ela soa tão satisfatória quanto beber um copo de cerveja gelada no calor. Se o mundo está de cabeça para baixo, se segurar aos bons momentos entre amigos representa um oásis cotidiano. Com espírito solar, o som encorpado com percussão e teclas coloca qualquer um para se mexer. Algo mágico no final das contas.
4. Doçura: Com participação do trio Çantamarta, aqui o reggaeton com inspiração no realismo fantástico de Gabriel García Márquez ainda traz samples do Grupo Raízes e Zé Coco do Riachão. Ela nunca negou a inspiração na Shakira, mas nunca havia incluído o espanhol, então a espera valeu a pena.
5. CARNAVAL: Funk do tipo exportação, traz a secura no beat enquanto a voz narra putarias. Se a proposta de Coisas Naturais traz o mosaico de suas referências, o estilo não poderia ficar fora, até porque o funk mineiro tomou o país de assalto. Ao longo da audição do disco, percebe-se as dualidades, um lado mais explícito e carnal do desejo, anda lado a lado com o aspecto transcendental.
6. Ouro de Tolo: O samba com vibes bossa novistas deixa a voz em primeiro plano. Ainda que a introdução minimalista dê lugar aos samples e batidas eletrônicas, a colagem soa coesa dentro da narrativa que fala sobre transformação. Como mensagem para o ouvinte, o trabalho se encerra com um poema onde a artista reafirma o seu valor. Ela veio ao mundo para fazer barulho – ai de quem entrar no caminho.














