
Essa é para atualizar sua playlist de festa punk: Ottopapi lançou o álbum de estreia Bala de Banana (2026). Para quem não está familiarizado, “Ottopapi” é o projeto de Otto Dardenne, artista, produtor cultural, designer gráfico e DJ, bastante ativo na cena independente paulistana. Ele é co-fundador do selo Seloki Records e dos estúdios Mameloki e Fiaca.
Ele vem acompanhado pela banda formada por Bianca Godói (baixo), Thales Castanheira (guitarra), Vitor Wutzki (guitarra), Danileira (sintetizador), Gael Sonkin (bateria), e Yann Dardenne (guitarra). Otto participou das bandas Goldenloki — que lançou o álbum Largado na Existência (2017) e os EPs Muda (2016) e Creme (2018) — e Gumes — do disco Adorei Você (2019).
Essas experiências enriqueceram seu projeto solo, que já chega jeito de personalidade. Ottopapi entrega um rock divertido e sincero, um retrato da sua geração, que vive ansiosa, abraça o caos e enxerga beleza na vida urbana.
“Perdi o controle” e “Ruim da Cuca”, singles lançados no ano passado, pavimentaram o caminho para sua carreira solo. Em geral, a turnê começaria após o lançamento do álbum, mas Otto optou pelo caminho inverso. Em 2025, rodou o Brasil, e já admitiu que “Perdi o controle” é uma das suas favoritas para tocar ao vivo.

Para Otto, o disco passeia por três eixos: a cidade de São Paulo, o desejo e o descontrole mental. Otto assina a produção com Chuck Hipolitho, todas as canções são autorais, com exceção de “A mais gata dessa festa”, do uruguaio Juan Wauters.
“Bala de Banana”, faixa que dá nome ao álbum, nasce de uma memória afetiva que atravessa gerações. O artista relembra as idas em família à lanchonete Hobby, em Perdizes, onde o pedido de hambúrguer sempre vinha acompanhado de um pacotinho de balas.
Com o tempo, o doce deixou de ser apenas lembrança de infância e passou a aparecer também em suas andanças pela cidade, quando encontrava embalagens pelo chão como se fossem pequenos achados, nada mais simbólico para sua estreia.
Seus ídolos do rock nacional, como Camisa de Vênus, Raimundos e Paralamas do Sucesso; e do mundo afora, caso de Fontaines D.C, Viagra Boys, Velvet Underground, Sonic Youth, Pavement, The Strokes, Pixies, Foo Fighters, Ramones, se encontram.
Confira Bala de Banana faixa a faixa:
“Meus Podres”: sempre estive na busca desse rockinho com essa bateria pela qual sou apaixonado, que é o motorik (clássica do krautrock — Alemanha, anos 1970). Essa célula rítmica atravessa décadas, e todos os artistas que, a partir dela, exploraram a própria sonoridade alcançaram resultados sempre inventivos e apaixonantes pra mim. Escolhi ela pra abrir o disco pela letra do primeiro verso, em que eu me apresento, abro o jogo e digo o que pode vir ao longo do álbum. Admito que o “Vou te contar…” vem de “Wave”, do Tom Jobim. O segundo verso já fala das andanças — boemia, noitada, São Paulo, 13 de Maio no Bexiga. Cito “Sampa”, do Caetano [Veloso], e “Por Onde Andei”, do Nando Reis. Essas frases marcantes de músicas clássicas, pra mim, me ajudam a encontrar os termos coerentes pra contar minhas histórias. Os coros cantados pela banda me fazem pensar nos Rolling Stones — eles quebram o gelo da música com tchurururu. Pra mim, ela também se relaciona com o Wet Leg, mas ninguém ainda falou isso.
“Bala de Banana”: a história e a representação da Bala de Banana têm diversas camadas. A primeira começa com uma memória muito afetiva: pedir hambúrguer na lanchonete Hobby, em Perdizes — coisa que minha família já fazia desde quando meu pai era moleque e vinha pra São Paulo. Sempre que pedíamos lá, de brinde e sobremesa, eles mandavam um pacotinho com balas, e tinha essa bala de banana da marca Oliveira.
Beleza, os anos passam, e eu começo a ficar vidrado em Velvet Underground com sua clássica capa da banana do Andy Warhol apareceu. Sempre fui um andarilho — gosto de caminhar na rua, ouvindo música ou só no noise eterno de São Paulo. E, nessas andanças, comecei a me deparar com o papel de bala de banana Oliveira no chão, e entrei numa onda de achar que era tipo um Pokémon raro. Até o momento em que fiz o link com as cores da embalagem da bala de banana — vermelho, amarelo e preto —, que são as cores da bandeira da Bélgica, país de onde vem meu sobrenome Dardenne, do meu bisavô Edouard Dardenne, que veio pro Brasil no pós-Segunda Guerra e se estabeleceu em Pernambuco. Também são as cores da Alemanha, país do krautrock, um dos movimentos musicais pelos quais sou mais apaixonado. Se liga nessas conexões.
“Goixto”: ela ia pra um caminho muito Sonic Youth, e não era o que queríamos — mas temos bons registros tocando ela, e eu cantando super desafinado [risos]. É uma música em que consigo abrir o coração de um jeito legal: uma confusãozinha mental de fim de relacionamento. Eu tava saindo de um namoro de 7 anos, naquele vai ou não vai. Tem também a frase “eu sei que você sabe que eu sei que a gente sabe”, que vem inconscientemente de “Na Mira”, da Marisa Monte.
Eu com certeza já tinha ouvido essa música, mas só me dei conta depois. E meu amigo Zé Mazzei, dos Forgotten Boys, comentou que tem uma música do Kid Vinil com a Magazine que também tem essa onda do “sei que você sabe que eu sei que você sabe”. Ela tem esse vocal falado, que me lembra um pouco “Fullgás”, da Marina, e “Corações Psicodélicos”, do Lobão.
“Perdi o controle”: prima de “Meus Podres”. Usamos o mesmo sample de bateria, mas em loops diferentes, queria fazer uma música tipo “Molly’s Chambers”, do Kings of Leon — música que meu pai colocava no carro quando eu e meu irmão éramos moleques. Rock cru. A letra é engraçadinha, acho bem rock paulistano. Tem dois caminhos de sentido: o controle físico e o comportamental. O Chuck deixou a mix bem parrudinha, meio Parquet Courts. As vozes da Marina fazem toda a diferença. Tem aquele trap no meio e o solo de guitarra do Gabriel Andreolli, que também assina a direção do clipe. Tem gente que percebe — mas demora a perceber —, ali no final, a “Loirinha Bombril”, dos Paralamas do Sucesso. Tem uns solos de guitarra meus que, quando gravo, sempre acho que vou ter que refazer, mas nunca refaço — e acabam ficando do jeito que são. O legal é que o Thales, que toca comigo, tira igualzinho e manda no ao vivo. E é aí que o bicho pega: essa música, ao vivo… se você não viu, tem que ver.
“Quase que me atraso de novo”: mais antiga do disco, de 2019. Compus ela inteira no violão, sem estar perto do computador. Foi também a última letra a ser modificada e atualizada pro disco — a parte do Mamãe, do Papai e o segundo verso, que é um verso de que gosto muito: “tudo pra depois de amanhã”, “quase em primeiro lugar”, “não tomo café da manhã”. Acho que me representa bem, apesar de estar acordando cedo esse ano. Pensei num flow da Marina Sena, tava ouvindo muito “Lua Cheia”, que acho um hit absurdo. Esses riffs de guitarra me lembram Friends, seriados dos anos 90, coisa que nunca dei muita bola, gosto de The Office… também é bem ramoninha.
“Ruim da Cuca”: nasceu prometida a ser um eggpunk, mas não foi dessa vez. Tomou outro rumo na vida. Virou um pop rock amoroso, meio charlatões dos anos 1990/2000. Meio Pixies, “Learn to Fly”, do Foo Fighters, e Raimundos na fase melódica. Acho que cabe, um dia, fazer uma versão acústica, pensando nos Acústicos MTV mesmo, bem produçãozona. Tem uma linha melódica que eu acho interessante — é por ela que, às vezes, comentam desse lance de power pop. A presença da Marina traz outras interpretações pra música: parece uma discussão infinita, com cada um querendo falar mais alto. Sempre achei aquelas frases de autoajuda — “eu quero, eu posso, eu consigo” — meio toscas, mas acho que acabaram me influenciando de algum jeito nessa letra;
“Puro Jogoduro”: ou Strokinha, carinhosamente chamada nos ensaios. Ao vivo, ela carrega mais essa roupagem. Sempre falo que o Chuck brilhou aí na produção. Parece umas gaivotas na introdução. Tem uns solos de guitarra, e o Thales contribuiu com algumas linhas também. Às vezes acho a letra boboca, mas eu tava me sentindo exatamente daquele jeito, então vale. Gosto do “Perguntei se estava viva, você me disse que não”. Tenho esse print guardado. Fico tentando lembrar como ela surgiu, o que veio primeiro… Acho que a ordem foi bateria, baixo e guitarra. Fiquei vidrado na música “Gracias Por Pasar”, da banda argentina La Real Academia. A melodia de sintetizador no final foi a Marina que fez, e contribuiu pra chicletice do disco. Viva o açúcar.
“A mais gata dessa festa”: a única do disco que é composição de outra pessoa: o uruguaio Juan Wauters. É “You Don’t Want Kids To Be Dead”, do The Beets. Adoro essa música, e um dia fiquei tocando ela sem parar até acabar gravando. A pessoa que inspirou essa alcunha acho que sabe quem é — eu vivia falando isso pra ela. Acabou virando uma historinha bacana: é um momento em que você tá com a bola toda, confiante de que vai conseguir conquistar a pessoa prometida, até perceber que a vida é maravilhosa nesses momentos iniciais — se conhecer, desenvolver o toque certo. Acho importante falar disso nessa roupagem do rock’n’roll, porque ele vem daí. Sinto falta de ver bandas fazendo isso por aqui, compositores se colocando nesse lugar de se sentir o máximo, o que me remete à Jovem Guarda. Se eu estivesse vivo nos anos 1960, com certeza faria parte desse movimento, e não da Bossa Nova — ia falar “broto”, essas coisas. Os gritinhos no tema surgiram, acho, nos shows, e trazem esse ar de Brian Jonestown Massacre, Pavement, Rolling Stones.
“Toddy ao Tédio”: é por causa da trilha sonora do filme Juno que essa música existe. Minha mãe me mostrou esse filme quando eu tinha uns 13 anos, e acho que é uma idade marcante, em que tudo que bate ajuda a formar caráter — e, pra mim, não foi diferente. O filme fala de Sonic Youth, tem Velvet Underground,Moldy Peaches… com certeza me deixou mais indie.
“Pó Poeira”: esse é o tipo de rock que eu sempre quis fazer. Canto faladão, meio sem sentido, mas que dá pra sacar que tem um papo sendo dado ali. Me lembra “Hoje”, do Camisa de Vênus e “Boys in the Better Land”, do Fontaines D.C., o que deixa evidente essa minha vontade de misturar esses mundos do rock brasileiro com o rock moderno espalhado pelo mundo. Tive a honra de ter a participação do Marcelo Cabral nessa música, gravando uns sintetizadores. Um dia ele me mandou mensagem dizendo que ficou sabendo que eu estava gravando um disco e que gostaria de somar de algum jeito. Lembro que, alguma noite no Porta, falamos de Viagra Boys — e essa era a música que mais tinha essa cara, esse post-punk/crank wave.













